quarta-feira, 11 de junho de 2014

Ares pela Ásia IV

Praça de tuk-tuks em Lapu-Lapu, Vitor Vicente, Abril de 2014

"Eu não era para estar aqui", eis uma ideia que tem me vindo à cabeça em muitas das vezes que viajei. No caso das Filipinas, de tão fugidia ter sido a estadia, foram poucas as vezes que tive essa ideia - talvez pela própria natureza fugidia da estadia.
Lembrei-me mais de que, tal como um amigo me disse, as Filipinas é que não eram para estar aqui. De fato, deviam estar anexadas à América Central e, só por algum acaso, é que estão na Ásia.
Essa impressão passa, sobretudo, pelas pessoas - pois são mais as pessoas que fazem os lugares do que vice-versa. A começar pelos seguranças de porte "machote", passando pelas garinas que galam os gajos e tentam atrair as atenções através dos seus atributos, até aos buracos nas portas dos quartos de hotel. Buracos como estes são obra dos latinos, tais como os seguintes patrimónios: a abundante presença do Catolicismo, a corrupção a cem por cento e o Inglês a descambar para o "Spanglish", a soar a "sudaka".
Tudo isto faz-me com que em Lapu-Lapu, apesar do nome exótico, me possa sentir em casa. Longe é, de longe, a minha localização predileta.  

domingo, 8 de junho de 2014

Deixar Dublin IV

Com que então Katowice. Depois de quase quatro anos em Barcelona e passado pouco mais de quatro em Dublin, está a chegar a hora de partir para a Polónia.
Nada de novo. A não ser que, pela primeira vez, vou-me mudar para uma cidade que não conheço e que pertence a um país que já pisei.
Poderia de Barcelona dizer o mesmo. Arrogando-me do fato de já ter estado antes na Galiza. Mas nem a Catalunha, nem a Galiza espelham a Espanha - pelo menos, a mesma Espanha. Barcelona parece-se muito mais a Paris - pelo menos foi o que me pareceu nos primeiros dias na Catalunha, ainda que do mundo só conhecera a capital francesa. Por isso, prefiro dizer que quando fui para Barcelona não conhecia nada deste mundo.
De Dublin conhecia o que vi durante uma semana que por cá andei, em 2007. Depois de ter estado em Madrid e Estocolmo. Antes, muito antes, de ter estado em muitos lugares. Já era alguma coisa. Mas o fato de conhecer muito pouco deste mundo e não ter como comparar Dublin - as cidades, tal como as pessoas, conhecem-se e compreendem-se quando colocadas em contexto de comparação - faz-me acreditar que aqui cheguei dotado de conhecimento mundano meramente diminuto.
Quer isto dizer que a Katowice, embora nunca lá tenha estado, chegarei com o conhecimento colhido por todas as outras cidades dos cinquenta países que visitei. Da Polónia conheço - no sentido comum de conhecer - Varsóvia. É o suficiente, mais alguma boa gente polaca que conheci em Dublin, para perceber e deixar de perceber o povo. 
De resto, tanto a Polónia como o Leste Europeu, sempre me pareceram a terra dos familiares distantes, dos alguns primos Askhenazi afastados onde íamos, ano sim, ano não, nas férias do Verão. O Estio até está à porta. Deve ser por isso que tudo isto me soa como uma espécie de regresso. 

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Deixar Dublin III

Voltando à dívida de Dublin.
Foi Dublin, uma das capitais mais provincianas do velho continente, que me abriu as portas do mundo. Por mais que Barcelona me tenha acolhido como uma mãe e que tenha o estatuto de minha segunda cidade, foi este país que me puxou para fora de Portugal.
E, já estando cá, foi aqui que encontrei o trampolim para viajar pelo mundo fora. Por mais que de Barcelona tenha dado os primeiros saltos a vários lugares da Europa e me tenha permitido ir duas vezes à América Latina e me ter posto, pela primeira vez, em contato e confronto diário com pessoas de todos os países, foi nesta cidade que aprendi a mover-me pelo mundo. 
Durante muito tempo - quase todo o tempo que estive por cá - me perguntei porque tive que passar pelo que passei até aqui chegar. Porque raio tive que passar quase quatro épicos anos em Barcelona, antes de me mudar para a Irlanda? Porque raio um vulcão na Islândia rebentou e estancou todo o trânsito aéreo na Europa, precisamente no dia em que tinha o voo para Dublin? 
Era tudo parte do plano. Em que participei e provei que, independentemente do plano, o nosso papel não pode ser passivo. Cabe à nossa conduta definir-nos um papel. Enquanto esperamos que caia o pano. 

Ares pela Ásia III

Mercado-Flutuante - arredores de Bangkok, Vitor Vicente, Abril de 2014

É curioso, tão curioso, o fato de que vou começar esta crónica sobre a Tailândia a dizer que falo fluentemente Espanhol. A tal fluência será uma falácia acrescentar um certo amor pelo dito idioma. Para ser bem sincero, detesto o sotaque. Não obstante este mudo ódio, consigo ser fã de certas expressões espanholas. Por exemplo - e assim chegamos à Tailândia - desta: "venden de todo, incluso a su madre".
É a chamada força de expressão. Ou expressão exagerada. Até quando se trata da Tailândia. Até porque aqui o mercado das mulheres - que, entre os muitos mercados, é o "main" cá do sítio - mais depressa despacha suas filhas do que as respetivas mães.
Ele é o mercado das mulheres, o mercado-noturno, o mercado-comboio, o mercado-flutuante. Se a Irlanda é, como alguém disse no Facebook, um "grande fazendão", então a Tailândia não é mais uma Pátria, mas antes um hiper-mercado. Bangkok deixou de ser uma cidade e passou a ser um grande bar. Quanto a Krabi, como qualquer estância balnear, entre algumas pechinchas e meia dúzia de bugingangas, pratica preços de praia.
Brancóide paga. Com a falta de olhos que lhe carateriza a cara, vem à Tailândia - tida por terra dos sorrisos - fazer turismo de estar por casa. Afinal está tudo em Inglês, como na Califórnia.
Mais do que um hiper-mercado, a Tailândia é um grande bazar. Assim mesmo, na aceção tradicional da palavra. A sua economia - e, por consequência, a sua cultura - estão condenadas a ser arrendadas ao alheio. Reféns, sem outros meios e sem mais filhas e mães, acabaram por vender a própria alma. 
 

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