segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Diáspora de Dublin XXXII


Rathmines - Dublin, Vitor Vicente, Janeiro de 2014

Mudei de casa há, mais ou menos, dois meses e meio. Tirando o fato de agora não ter mais ninguém entre as quatro paredes, não foi grande mudança. Geograficamente falando, mudei-me para, mais ou menos, meio quilómetro de distância do lugar onde antes vivia. Semelhante distância separa-me do lugar onde morei antes de me mudar para o lugar donde me fui embora. Parece complicado, mas podia ser pior. Mais não é do que viver em círculos e em ciclos do mais do mesmo.
Ou em circos. Circos de indomáveis feras que, de há dois meses e meio para cá, me têm ocupado a cabeça com mais mundo do que a minha cabeça pode portar e que me têm obrigado a dar mais e mais de mim e do meu comportamento, numa dose superior à que o mundo, só a custo, consegue aceitar.
Conclusão: que o quotidiano desta casa tem tido demasiado mundo para que se possa permitir à leveza de postular viagens verídicas ou de fantasia, ou simplesmente vaguear em périplos passados. Nessa sequência, nem poeira, nem ventos têm sacudido esta casa, de quarto e sala separados. Antes uma aragem de entra e sai que nao me dá nem um segundo para agradecer ao sopro sagrado que nos anima no dia-a-dia.
Hajam Ásias nos horizontes de Abril e uma viagem para Portugal daqui a pouco mais que duas semanas. Hajam asas para os voos domésticos. Além de asas, haja fôlego, quando o quotidiano, a casa e sei lá mais quem, numa só voz, num uníssono orquestral, querem de mim fazer um falcão.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Balcãs & Benelux IV

Uma bica no coração do continente - Luxemburgo, Vitor Vicente, Novembro de 2013

Do Luxemburgo, por estar geograficamente onde está e pela parca história, pouco mais se espera do que um certo encanto europeu e o carisma das cidades do velho continente.
O Luxemburgo cumpre essas expetativas na perfeição. Tem a excelência sóbria e nobre da Europa, assim como um charme ocidentalíssimo. 
Na Gare, em redor da Gare, é um vai e vem de comboios e autocarros a toda a hora e para todo o lugar. Se queremos paz, podemos perder-nos nos passeios pedonais no centro da cidade ou entre os palácios e os edifícios públicos.
Um pequeno luxo. No fundo, o Luxemburgo é um pequeno luxo. 
Onde vinte e cinco por cento da população é Portuguesa. Dos quais metade representa a força de trabalho de uma das economias mais estáveis da Europa. Enquanto a outra  - estima-se - vive de rendimentos do governo. 
Lado a lado, além do Luxemburgo e dos seus países vizinhos, temos o Português de tipo trabalhador, de índole incansável e o Português que se apraz na condição de parasita e que faz deste principiado um privilégio para a sua preguiça.
Menos mal que a minha portugalidade não é evidente. Há por cá Italianos e Árabes que cheguem para ter a identidade nublada. 

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Balcãs & Benelux III

Memorial de Mardasson - Bastogne, Vitor Vicente, Novembro de 2013

Há pouco mais de um mês, Varsóvia. Há uns dias atrás, Mostar. Primeiro, a Polónia. Depois, a Bósnia. Agora?
Agora, a Bélgica. Onde ninguém faz mal a uma mosca, quanto muito destina uma criança a ser enterrada no mesmo derradeiro chão que muitas outras crianças: no quintal. 
Fora a pedofilia, o único problema dos belgas é terem o país plantado no coração do continente e levarem com todas as frentes e ricochetes da Europa. Assim sendo, certo dia, na cidade de Bastogne, paredes meias com o Luxemburgo, encontraram-se as tropas Americanas e Alemãs. 
As Americanas arrasaram as Alemãs. Fizeram-lhe um cerco e deram-lhe uma coça. Não uma coça qualquer, mas sim uma coça histórica, monumental. 
Para que o mundo se lembre, foi erguido um memorial nos arredores da cidade - que é como quem diz quase no Luxemburgo. Além do memorial, também se encontram muitos tanques espalhados pela cidade.
Além dos vestígios bélicos, Bastogne tem tudo o que se pode esperar de uma cidade Belga: uma praça, uma catedral, umas quantas cafetarias e o cheiro a crepes. 
Hoje em dia, a América detém a hegemonia mundial. Não fosse a América, seriam os Árabes ou os Chineses. Agora escolha.
Eu cá não tenho dúvidas. Apraz-me ver a bandeira Americana, lado a lado com a bandeira Europeia. Apraz-me ver que as páginas principais da história escreveram-se e continuar-se-ão a escrever no velho continente. No Ocidente. 

domingo, 17 de novembro de 2013

Balcãs & Benelux II


Mostar vista da ponte Stari Most, Vitor Vicente, Outubro de 2013

Mostar não é banhada pelo mar, mas é como se fosse. Mostar está dividida por um rio, como quase todas as cidades europeias, mas é como se na Europa não estivesse. A ponte pedonal, que liga o bairro Muçulmano ao bairro Católico, cuja única competição é ver quem constrói a cúpula mais alta, essa ponte transforma toda Mostar num esbelto postal.
De resto, a realidade de Mostar é uma realidade rural. Ladeada por montanhas, assente num vale, repleta de ruínas recentes. À imagem de toda a restante Bósnia, onde o único mar que chegou foi o mar da História.
O império Otomano, uma vez deposto o Império Romano, foi o grande império de outrora. O império Otomano ainda não foi embora. Está ainda nos mercados e nos modos. Está até nas cabeças sem capacete que dirigem as motorizadas roubadas.
Mas há mais mar. Há o mar de sangue que banha ambas as margens da cidade. As feridas são um fato mais que visivel, as feridas cicatrizam a cidade por completo, em cada edificio esburacado.  
Mostar é então uma cidade banhada por dois mares que, no fundo, são um e o mesmo mar: o mar da História. Por maior que tenha sido o império Otomano, a carnificina de que fomos cúmplices é nossa contemporânea, demasiado contemporânea para que possa ser lavada pelo que ficou dos tempos imperiais de outrora.
Certamente que o sangue dos inocentes será para sempre. Quanto à ponte pedonal, é a mais bela por onde passei. Por isso, à semelhança do pôr-do-sol de Zadar,  também esta ponte é para sempre. De mais não precisei para sair desta cidade. Com um certo sorriso. Contente.  
 

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