quinta-feira, 5 de junho de 2014

Deixar Dublin III

Voltando à dívida de Dublin.
Foi Dublin, uma das capitais mais provincianas do velho continente, que me abriu as portas do mundo. Por mais que Barcelona me tenha acolhido como uma mãe e que tenha o estatuto de minha segunda cidade, foi este país que me puxou para fora de Portugal.
E, já estando cá, foi aqui que encontrei o trampolim para viajar pelo mundo fora. Por mais que de Barcelona tenha dado os primeiros saltos a vários lugares da Europa e me tenha permitido ir duas vezes à América Latina e me ter posto, pela primeira vez, em contato e confronto diário com pessoas de todos os países, foi nesta cidade que aprendi a mover-me pelo mundo. 
Durante muito tempo - quase todo o tempo que estive por cá - me perguntei porque tive que passar pelo que passei até aqui chegar. Porque raio tive que passar quase quatro épicos anos em Barcelona, antes de me mudar para a Irlanda? Porque raio um vulcão na Islândia rebentou e estancou todo o trânsito aéreo na Europa, precisamente no dia em que tinha o voo para Dublin? 
Era tudo parte do plano. Em que participei e provei que, independentemente do plano, o nosso papel não pode ser passivo. Cabe à nossa conduta definir-nos um papel. Enquanto esperamos que caia o pano. 

Ares pela Ásia III

Mercado-Flutuante - arredores de Bangkok, Vitor Vicente, Abril de 2014

É curioso, tão curioso, o fato de que vou começar esta crónica sobre a Tailândia a dizer que falo fluentemente Espanhol. A tal fluência será uma falácia acrescentar um certo amor pelo dito idioma. Para ser bem sincero, detesto o sotaque. Não obstante este mudo ódio, consigo ser fã de certas expressões espanholas. Por exemplo - e assim chegamos à Tailândia - desta: "venden de todo, incluso a su madre".
É a chamada força de expressão. Ou expressão exagerada. Até quando se trata da Tailândia. Até porque aqui o mercado das mulheres - que, entre os muitos mercados, é o "main" cá do sítio - mais depressa despacha suas filhas do que as respetivas mães.
Ele é o mercado das mulheres, o mercado-noturno, o mercado-comboio, o mercado-flutuante. Se a Irlanda é, como alguém disse no Facebook, um "grande fazendão", então a Tailândia não é mais uma Pátria, mas antes um hiper-mercado. Bangkok deixou de ser uma cidade e passou a ser um grande bar. Quanto a Krabi, como qualquer estância balnear, entre algumas pechinchas e meia dúzia de bugingangas, pratica preços de praia.
Brancóide paga. Com a falta de olhos que lhe carateriza a cara, vem à Tailândia - tida por terra dos sorrisos - fazer turismo de estar por casa. Afinal está tudo em Inglês, como na Califórnia.
Mais do que um hiper-mercado, a Tailândia é um grande bazar. Assim mesmo, na aceção tradicional da palavra. A sua economia - e, por consequência, a sua cultura - estão condenadas a ser arrendadas ao alheio. Reféns, sem outros meios e sem mais filhas e mães, acabaram por vender a própria alma. 

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Ares pela Ásia II

Songs of the Sea, Singapura, Vitor Vicente, Abril de 2014

Desde Platão que sabemos que as cidades não foram propriamente feitas para os poetas. Quem diz as cidades, diz as sociedades, os palcos, os fóruns da praça pública.
Ainda assim, tentemos supor que existem cidades poeto-friendly (o estrangeirismo, que eu normalmente evito e execro, tem um motivo). Assumindo isso, Singapura seria à medida dos poetas futuristas. Espécie que, enfim, já não existe. O mais próximo de futurismo artístico que nos é dado a assistir são os palermas que publicam fotos no Facebook com I-Phones e as fazem acompanhar de duas linhas digitadas às três polegadas.
Em dois dias que estive em Singapura, não fui capaz de escrever nada em direto. Quando muito, no aeroporto - que é o caso desta crónica que agora escrevo. Só não vou dizer que, além da Poesia, também a Literatura de Viagem foi pelas águas da marina de Singapura abaixo - pois, para mal da minha prosa ambulante, encontro-me condenado a intrometer versos subreptícios entre esses relatos pouco verídicos que faço das cidades que visito.
Dito isto, Singapura, essa bomba urbana, parece pôr em prática a palavra de Platão e cortar as mãos aos pobres dos poetas. As mãos, mas nada mais do que as mãos. Os olhos mantém-se invioláveis. Para que, por uma vez na vida, consigam esquecer-se que são escritores e lembrarem-se que são parte da amável multiplicidade de Singapura. 
Logrado isto, serão repostas as mãos aos poetas. De pé, na mesma plateia que a plebe e que eu, aplaudirão a cidade, o país, a polis perfeita para o poeta futurista.    

domingo, 1 de junho de 2014

Deixar Dublin II

Antes de avançar com o destino pós-Dublin, impõe-se-me contar como aqui cheguei. E, deste modo, desvendar a dívida que tenho a Dublin.
Corria o ano de 2006. Em que, durante a maior parte do tempo, estive desempregado ou com contratos precários. A viver mal e - perdoem-me a palavra - portuguesmente. Devastado com a ideia de, pela primeira vez, ter tido um programa para me mudar para o outro lado do Tejo e de tudo ter ido por água abaixo, pensei em partir da Pátria. (Agora que penso, tem sido entre destroços de programas-mor que se têm movimentado as maiores mudanças da minha vida).
Voltando ao ano de 2006. Que, só pelo fato de não ter Facebook, parece ter sido há muito tempo, algures num Paleolítico. Onde só haviam redes sociais que, hoje, nos parecem parolas. Onde tipos tímidos como eu chateavam garotas. (Isto, lembro agora, neste acesso nostálgico, muitos anos depois do MSN Messenger- um chat que foi a cura para a vida sexual de merda de muita gente). Numa dessas redes sociais, conversei com uma portuguesa que morava em Dublin (entretanto, como parece ser moda, mudou-se para Londres,) e que, ao ligar a webcam nalguns dos cybers da cidade, me mostrou os olhos para o mundo e me punha, mudo, a murmurar para comigo "É possível ser-se português e viver noutro país."
Estive quase, quase a mudar-me para Dublin. Pela tentação, pela oportunidade de ter um trabalho. Até cheguei a anunciá-lo. Um dia, no tal chat para pessoal com escassa vida sexual, o MSN, encontrei um amigo que morava em Barcelona e disse-lhe que me ia mudar para Dublin. O meu amigo ficou contente. Mas acrescentou que ficaria ainda mais contente se eu parasse na Catalunya - como se a Catalunya ficasse pelo caminho.
O fato de caminho para a Catalunya se fazer de comboio deu uma volta de 180 graus à minha cabeça e desviou-me de Dublin para me atirar a  Barcelona. Já de bilhete de comboio comprado, bolsos cheios (mais de sonhos do que de dinheiro), conheci uma Eslovena que se ia mudar para Paris e com quem fiquei de tentar uma relação que, à distância de Barcelona e não de Dublin, parecia viável.
Não deu em nada. Assim como ficar em Dublin, à última hora, por uma gaja. 
 

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