sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Variações sobre Velhas Viagens XVIII

Anoitecer na marina de Tórshavn - Ilhas Faroé, Vitor Vicente, Abril de 2013

As Ilhas Faroé são, simultaneamente, umas ilhas inócuas e fodidas. Enquanto lá estamos, parece que não se passa nada. Quando na verdade, quer o queiramos, quer não, o tempo passa. Isto é, o nosso tempo. Pois o tempo das Ilhas Faroé, tal como o de todas as ilhas, é um tempo imenso e infinito. 
E o pior é que, findo o tempo que nos coube nas Faroé, há lugares no mundo que nos hipotecam. Esses lugares, é certo, existem. Como possibilidades tão plausíveis como o Pub ao virar da esquina. Mas não nos apetece. Em poucas palavras e muito simplesmente, ao pé das Faroé não são nada.
É então preciso dar um tempo preciso ao tempo. Precisamente, o tempo para que tudo volte a ser precioso. Até ao dia em que não tenhamos presente mais do que uma memória desfocada das Faroé e possamos voltar a desfrutar do que, no momento, relegamos para a segunda divisão dos verdes arquipélagos.
Até lá, as Faroé serão sempre o lugar tão fantástico como as cidades que só se podem ler nos livros ou só se passam na cabeça daqueles que olham o mundo à luz da lombada. 
No fundo, as Faroé ficarão no  álbum da memória futura, lado a lado com as fábulas e contos feéricos da infância. Senão o mesmo que o próprio período da infância.
Se as Faroé podem aspirar a ser algo figurativo, podemos dizer que são um farol que ofusca todos os oceanos daqueles que já não sabe para onde se virar, nem tem para onde viajar. Um farol  que nos diz que somos pouco mais que nada e tão frágeis como um náufrago. Que nos recorda que todos os regressos são irreais.
Após as Faroé - novamente, à semelhança da infância - só nos resta ir em frente. Não há modo de mandar parar o mundo. Às escuras, avançamos. Sem que, alguma vez, tenhamos pedido para começar, nem nos tenham explicado que tudo isto teria um fim.  

domingo, 18 de agosto de 2013

Com a de-vida distância XII

A Velha e a Vassoura - Goa, Vitor Vicente, Dezembro de 2011

Durante algum tempo, um dos meus melhores amigos só queria conhecer miúdas através da Intenet. Isto ainda antes do Facebook, aliás o meu amigo, entretanto, passados todos estes anos, nem se deixou contagiar pela febre facebuquiana. É que, já agora, convém esclarecer os mais novos e alguns mentecaptos que primeiro veio a Internet e só depois o Facebook. Quem diz a Internet, diz o sexo virtual. Cuja prática remonta aos tempos do Msn que, hoje, assim dito, parece do tempo do Ms-Dos.  
Houve então um tempo em que o meu amigo fazia amizades virtuais. Exclusivamente. Chegou a conhecer algumas pessoas, no tanto que é dado a conhecer alguém quando se está a cara a cara com alguém. Conheceu de tudo. Desde taradas que faziam strip através da web cam enquanto o meu amigo, do outro lado da web cam, exibia uma nota atrás da outra, até outro tipo de taradas que fodiam com ele, também em frente da web cam, enquanto outro tipo, também do lado de lá da web cam, assistia à coisa. No meio destas mulheres e destas web cam todas, houve, claro está, também casos de criaturas sem grandes caraterísticas. Mas destas, por serem despidas disso mesmo, não rezará a história com nada digno de grande  registo, senão a de pertencerem a uma massa anónima e sem côr. 
A que vem aqui dar o mote à história é uma senhora que dizia (digitalmente) ter quarenta anos e que o meu amigo foi conhecer ao centro da cidade. O encontrou, tal como o encanto, durou pouco. Na verdade, nem começou. Cito o meu amigo: "Conheces aquele tipo de mulher que tem quarenta anos e tem quarenta anos mesmo?". Respondi: "Conheço, sim". Explicou: "Ela era desse tipo. Quando chegou ao lugar onde tínhamos combinado, perguntou-me se eu era eu, e eu disse que não e fui-me embora. Ela era ela. E tinha quarenta anos e quarenta anos mesmo". 
O meu amigo vai também embora desta história. 
O que quero dizer com esta história é que existem pessoas que têm e aparentam ter quarenta anos, ou qualquer que seja a idade que tenham e aparentam ter. Quanto mais velhas sejam, mais tendem a parecer ter a idade que têm. São pessoas que vivem rente à realidade, que respeitam e respiram a realidade como se nada mais houvesse em redor. Que, ano após ano, como carneiros, continuam a cumprir o calendário. Religiosamente. Existem porque envelhecem e envelhecem porque existem. Enfim, envilecem.
Costumo ver essas pessoas quando vou a Portugal. Porque em Portugal permanecem, a apodrecer e a  hipotecar as possibilidades de partir, incluindo o mais importante que é a possibilidade de partir de si próprias. Mas este fenómeno não é  património do nosso país. Este é um fenómeno humano, de escala tão universal como a estupidez. Os portugueses, naqueles acessos absurdos de auto-estima, é que tendem a pensar que há coisas, sobretudo as piores coisas, que só se passam em Portugal. Claro que temos as nossas coisas. Mas isso é fruto de acidentes e incidentes históricos, geográficos e até (ó pedras duras, que precisai de ser polidas!) geológicos.
E essa é demasiada areia para esta camioneta e que se quer leve. Que quer viver longe por crer que longe ser o nome do único lugar onde se pode viver e manter jovem. Os anos aqui, neste lugar sem nome, são-nos anos bobos, de brincadeira. Até quando nos aburguesarmos não deixamos de o fazer de modo atabalhoado, um tanto ou quanto adolescente. É só mais uma experiência, mais uma metamorfose desta condição sem ciência, nem obrigação. O único imperativo é jamais nos rendermos à realidade, a última e única válida resistência é a do espírito. Assim, refratários, participamos do movimento do mundo, por estarmos tão integrados no mundo como no infinito. Assim, mau grado a morte, existimos, rimos e resistimos separados dos vivos com a de-vida distância. 

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Bilhete Inter-Países

Bilhete CP Lisboa-Madrid-Barcelona - Dublin, Vitor Vicente, Agosto de 2012

Este não é um bilhete banal, nem mais um bilhete entre outros tantos bilhetes. É o bilhete dos bilhetes e está guardado no baú dos bilhetes que não tenho.
Este bilhete é, ele próprio, um baú. Ou, pelo menos, uma gaveta a quem se confiam glórias, segredos e vergonhosas confissões.
Este bilhete não se trata de um bilhete qualquer. Com este bilhete vai-se a mais destinos do que nele estão escritos. Ainda que ocultos, aqui constam todos os vinte países (incluíndo o país de onde parti e onde voltei de visita, mas já lá vamos) em que estive enquanto vivi na Catalunya, mas também os outros vinte e dois onde fui, alguns anos depois, já a morar em Dublin.
Este é um bilhete com bilhetes dentro. Um bilhete desdobrável. Como o mapa do infinito. É um bilhete maneiras invisível porque dá a ilusão que mostra tudo quando, na verdade, mostra menos de metade.
Este é um bilhete em que até a origem do seu itinerário se tornou um destino. No sentido em que, cumprido o dito trajeto, a respetiva origem também se tornou um destino viajável. 
Este é um bilhete que transforma e que transtorna. Que transfigura pontos de partida e acaba com sentimentos de chegada. É certo que é um bilhete de caminhos de ferro, mas tem o seu quê de fluvial e aéreo. É um bilhete com direito à entrada no estuário das estrelas. No fundo, é um bilhete toda a terra e para contemplar o céu por completo.
Este é um bilhete-mestre. Um bilhete que abre outros bilhetes. Que arromba países que, quando se está em Portugal e por Portugal se permanece, parecem só existir nas enciclopédias. E que, mesmo para aqueles que os podem visitar sem deixar de viver em Portugal, parecem fazer parte da Volta ao Mundo em 80 Enciclopédias.
Este bilhete é-me mais do que um bilhete. É-me uma espécie de segunda via do cartão de cidadão, do próprio passaporte. É-me parte da pele, é-me e ser-me-á sempre o papel em que escrevo. Inclusive, deste ambulante apontamento. 

domingo, 11 de agosto de 2013

Com a de-vida distância XI

Cadeira e mesa vazias - Barcelona, Vitor Vicente, Agosto de 2011

Nas antevésperas de completar sete anos fora de Portugal, pergunto-me ainda por alguns porquês. Pergunto-me pelo porquê daqueles que partiram e pelo porquê daqueles que não partiram nunca.
Pergunto-me sem que a realidade me dê qualquer resposta. Ainda assim, autista, mouco aos ouvidos mudos do mundo, prossigo. 
(Para quem acha obra inútil e quem não continuar este absurdo caminho, fica o aviso para ficar por este capítulo).
Primeiro, pergunto-me por mim. Onde teria estado eu durante estes anos, se nunca tivesse partido? Quando pergunto onde, pergunto pelo paradeiro pensamento. Pois é do irrequieto poiso dos pensamentos que este questionar se ocupa. Que pensaria eu do estrangeiro? Tomaria-o como um espaço tão inacessível quanto as estrelas? Ou, simplesmente, não lhe faria caso, sem estar consciente de que viveria de costas voltadas para o mundo? 
Mas, por caso - e esta é, para quem não deu conta, a segunda pergunta - todos aqueles que partiram terão abraçado mais mundo que a pátria que os pariu? Já aqui (acho) referi os que partiram sem nunca terem partido, os profundamente provincianos que se disfarçam de toda-a-terra. Gente para quem a diáspora é um desperdício e que continua a viver o seu dia-à-dia como se nunca tivesse conhecido outra casa que não a sua, ou outra que à sua se pareça.
Depois, há ainda os que partem como quem procura. Que farejam a fastidiosa imbricação dos factos como se fosse feita de material feérico, como se pudesse ser cenário de uma fábula sem tempo, nem espaço. Estes partem como existem: sem explicações. Estes, sim, que são a falsa partida em pessoa. Nunca partiram porque nunca estiveram em lado algum. Se permanecem, é por pura preguiça e um certo sentido de inércia a que não é alheia a inocência e uma certa tendência para se irmanar ao infinito. Se querem coser-se a uma cidade, dali ninguém os tira ou dá ordem de saída. Na verdade, bem podem viver num cem-número de cidades que sempre serão um sem-número de sítios. Desta estirpe, entre a espécie, nunca me foi apresentado um exemplo. Só existem nos livros e nos ecrans das salas de cinema, em suma nos nobres salões dos sonhos que não são parte do património de nenhum século, nem da - desculpem se desiludo alguém - Paris do Século XIX. 
(E um pequeno parêntesis para os que, independentemente de terem partido pouco, muito ou mais ou menos, jamais terem partido de si próprios. Os que, num par de palavras, nunca se confrontaram com a sua consciência. Já era hora de a pôrem em causa, de lhe tirarem as calças e de a chamar de desavergonhada. Derrubado do altar, poder-se-á então ver os alicerces em que se fixa o ambulante circo das humanas convicções. O quão frágil é tudo o que se fixa: basta meio dia de dinamite e estilhaçam-se as convicções de toda uma vida, sendo que este processo é mais demorado quanto mais cretina tem sido a dita vida.)
Assim continuo a acompanhar este cais de pseudo-partidas e inconcretizadas chegadas. Jamais entendi o vai e vem dos vivos, quanto mais o dos mortos. A ambos assisto - hoje em dia, mais para o aterrado do que em posição de expetativa -com a de-vida distância. 
 

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