quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Bilhete Inter-Países

Bilhete CP Lisboa-Madrid-Barcelona - Dublin, Vitor Vicente, Agosto de 2012

Este não é um bilhete banal, nem mais um bilhete entre outros tantos bilhetes. É o bilhete dos bilhetes e está guardado no baú dos bilhetes que não tenho.
Este bilhete é, ele próprio, um baú. Ou, pelo menos, uma gaveta a quem se confiam glórias, segredos e vergonhosas confissões.
Este bilhete não se trata de um bilhete qualquer. Com este bilhete vai-se a mais destinos do que nele estão escritos. Ainda que ocultos, aqui constam todos os vinte países (incluíndo o país de onde parti e onde voltei de visita, mas já lá vamos) em que estive enquanto vivi na Catalunya, mas também os outros vinte e dois onde fui, alguns anos depois, já a morar em Dublin.
Este é um bilhete com bilhetes dentro. Um bilhete desdobrável. Como o mapa do infinito. É um bilhete maneiras invisível porque dá a ilusão que mostra tudo quando, na verdade, mostra menos de metade.
Este é um bilhete em que até a origem do seu itinerário se tornou um destino. No sentido em que, cumprido o dito trajeto, a respetiva origem também se tornou um destino viajável. 
Este é um bilhete que transforma e que transtorna. Que transfigura pontos de partida e acaba com sentimentos de chegada. É certo que é um bilhete de caminhos de ferro, mas tem o seu quê de fluvial e aéreo. É um bilhete com direito à entrada no estuário das estrelas. No fundo, é um bilhete toda a terra e para contemplar o céu por completo.
Este é um bilhete-mestre. Um bilhete que abre outros bilhetes. Que arromba países que, quando se está em Portugal e por Portugal se permanece, parecem só existir nas enciclopédias. E que, mesmo para aqueles que os podem visitar sem deixar de viver em Portugal, parecem fazer parte da Volta ao Mundo em 80 Enciclopédias.
Este bilhete é-me mais do que um bilhete. É-me uma espécie de segunda via do cartão de cidadão, do próprio passaporte. É-me parte da pele, é-me e ser-me-á sempre o papel em que escrevo. Inclusive, deste ambulante apontamento. 

domingo, 11 de agosto de 2013

Com a de-vida distância XI

Cadeira e mesa vazias - Barcelona, Vitor Vicente, Agosto de 2011

Nas antevésperas de completar sete anos fora de Portugal, pergunto-me ainda por alguns porquês. Pergunto-me pelo porquê daqueles que partiram e pelo porquê daqueles que não partiram nunca.
Pergunto-me sem que a realidade me dê qualquer resposta. Ainda assim, autista, mouco aos ouvidos mudos do mundo, prossigo. 
(Para quem acha obra inútil e quem não continuar este absurdo caminho, fica o aviso para ficar por este capítulo).
Primeiro, pergunto-me por mim. Onde teria estado eu durante estes anos, se nunca tivesse partido? Quando pergunto onde, pergunto pelo paradeiro pensamento. Pois é do irrequieto poiso dos pensamentos que este questionar se ocupa. Que pensaria eu do estrangeiro? Tomaria-o como um espaço tão inacessível quanto as estrelas? Ou, simplesmente, não lhe faria caso, sem estar consciente de que viveria de costas voltadas para o mundo? 
Mas, por caso - e esta é, para quem não deu conta, a segunda pergunta - todos aqueles que partiram terão abraçado mais mundo que a pátria que os pariu? Já aqui (acho) referi os que partiram sem nunca terem partido, os profundamente provincianos que se disfarçam de toda-a-terra. Gente para quem a diáspora é um desperdício e que continua a viver o seu dia-à-dia como se nunca tivesse conhecido outra casa que não a sua, ou outra que à sua se pareça.
Depois, há ainda os que partem como quem procura. Que farejam a fastidiosa imbricação dos factos como se fosse feita de material feérico, como se pudesse ser cenário de uma fábula sem tempo, nem espaço. Estes partem como existem: sem explicações. Estes, sim, que são a falsa partida em pessoa. Nunca partiram porque nunca estiveram em lado algum. Se permanecem, é por pura preguiça e um certo sentido de inércia a que não é alheia a inocência e uma certa tendência para se irmanar ao infinito. Se querem coser-se a uma cidade, dali ninguém os tira ou dá ordem de saída. Na verdade, bem podem viver num cem-número de cidades que sempre serão um sem-número de sítios. Desta estirpe, entre a espécie, nunca me foi apresentado um exemplo. Só existem nos livros e nos ecrans das salas de cinema, em suma nos nobres salões dos sonhos que não são parte do património de nenhum século, nem da - desculpem se desiludo alguém - Paris do Século XIX. 
(E um pequeno parêntesis para os que, independentemente de terem partido pouco, muito ou mais ou menos, jamais terem partido de si próprios. Os que, num par de palavras, nunca se confrontaram com a sua consciência. Já era hora de a pôrem em causa, de lhe tirarem as calças e de a chamar de desavergonhada. Derrubado do altar, poder-se-á então ver os alicerces em que se fixa o ambulante circo das humanas convicções. O quão frágil é tudo o que se fixa: basta meio dia de dinamite e estilhaçam-se as convicções de toda uma vida, sendo que este processo é mais demorado quanto mais cretina tem sido a dita vida.)
Assim continuo a acompanhar este cais de pseudo-partidas e inconcretizadas chegadas. Jamais entendi o vai e vem dos vivos, quanto mais o dos mortos. A ambos assisto - hoje em dia, mais para o aterrado do que em posição de expetativa -com a de-vida distância. 

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Diáspora de Dublin XXX

Stephens Green Shopping Centre - Dublin, Vitor Vicente, Janeiro de 2013

Com certeza que haverá muito cretino que ainda não compreendeu que o mundo é redondo e que continua a crer que o Planeta Terra é um retângulo mais-que-perfeito. Ou, pelo menos, que aprendeu que assim não é mas que aje como se assim fosse. Como se o mundo fosse forçado a ser uma cópia do seu quadrado quotidiano. Do tipo, as quatro faces do quadrado têm que ser iguais em todo o lado. Ou é assim, ou - rica ressalva - haverá algo de errado. 
Errado, quer dizer, que se trata de algo que não reflete a sua realidade. Estamos a falar dos antropocêntricos, no mínimo dos autocêntricos. Para quem o universo existe enquanto extensão do seu umbigo. Gente que, hoje em dia, se dá ao luxo de se espantar com o facto de ainda haver quem não espelhe o que de melhor se passe no mais perfeito dos quadrados - a saber, o seu.  
Dito isto, neste tom, até dá para ser levado a crer que esta gente leu Leibniz. Não leu. Não leram nada. Quando muito, nos tempos do liceu e da universidade, leram resumos para tirar positiva. De resto, tudo o que leram, resumos e pouco mais, leram sempre através da lupa míope que é o seu quadrado entendimento. Sem serem sequer capazes de associar alguma coisa a - ao quê?, perguntam nesta altura do campeonato- a alguma outra coisa. 
Era aqui que eu queria chegar: às pessoas que, aqui em Dublin, assumem que a cidade é uma mistura do bairro onde moram e do bairro onde trabalham. Isto quando não se tratam do mesmo bairro. Pois, para muitas pessoas, a vivência da cidade cinge-se a trabalhar e sair com pessoas que conheceram no trabalho. 
Depois há os que fazem férias onde o pessoal é diferente. Oh que diferente, que exótico. Toca de tirar foto, publicar no Facebook, de preferência lado a lado com os locais, como se essas gentes fossem jibóias. 
No fundo, somos todos paradigmas. Uns do que é normal e natural, outros do curioso que parte à procura da essência humana nos pobres coitados que se contentam com uma côdea de pão. Preconceitos, temos todos. Ou então não poderíamos ter opiniões. O problema é haver mais opiniões do que pessoas. Na verdade, o problema divide-se em dois e multiplica-se no número de pessoas que personificam esse problema: pessoas com opiniões a mais do que o diminuto inteleto lhes devia permitir e pessoas completamente desprovidas de opinião própria ou baseada naquilo que ouviu por aí. 
Logística nunca foi o forte da espécie. Ainda está para vir o dia em que a distribuição seja justa em Dublin e no mundo inteiro. 

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Diáspora de Dublin XXIX

Autocarro de uma excursão pelo County Clare, Vitor Vicente, Março de 2011

Tenho então um quotidiano andante. O poder nas pernas, nos pés. O privilégio de não depender dos transportes, nem de estar refém do estado das estradas ou das vicissitudes dos veículos desta vida para poder fazer da minha vida ainda mais a minha vida. 
Pois pertenço a uma multidão de andarilhos anónimos  que não se conhecem, que nunca foram, nem almejam- de tão assustadiços e ensimesmados - vir a ser apresentados. Que, à semelhança dos caprichos dos génios, querem ser singulares e não aceitam ajuntamentos, nem constituir parte de grupos.
Posso cruzar-me com os mesmos caminhantes todos os dias, à mesma hora, sempre no mesmo semáforo, mas nenhum de nós vai se lembrar do outro no dia seguinte. É um pacto perfeito, sem que nada, nem ninguém tenha de mover uma palha por isso. 
Já dos passageiros que, todos os dias e antigamente, apanhavam o mesmo autocarro que eu, desses lembro-me muito bem. Como se, todos os dias do tempo que atiro para longe ao chamar de antigamente, tivesse sido ontem.
Lembro-me que alguns deles já diziam olá entre eles e entre dentes e que outros, embaraçados, viravam os focinhos para o lado ou atiravam-nos para o chão. Lembro-me - seria impossível não me lembrar - de um maluco que, como todos os malucos em qualquer parte do mundo, ia sempre sentado no banco de trás (no caso Irlandês, do andar de cima do autocarro) e que levava sempre sacos de plásticos. Além de se sentar sempre no banco de trás e de trazer sempre sacos de plástico, este maluco também falava sozinho e dizia sempre as mesmas coisas e sempre quando passávamos junto às mesmas paragens. A saber, "For Fuck´s  Sake. For Fuck´s Sake. She doesn`t care. No, she doesn`t care. She`s a fucking bitch!". 
Era claro que nem eu, nem nenhum dos passageiros frequentes deste autocarro, se sentava perto dele. Era tão claro como perceber que quem se sentava perto dele não nos acompanhava no autocarro, diariamente, desde a sombria Segunda até à ansiada Sexta.
À Sexta, tínhamos todos o semblante aberto e o ambiente era tão descontraído que mais parecia um autocarro para a praia. Como se Sexta fosse sinónimo de férias. Até era: férias de dois dias. Mais dias houvera e andar nesse autocarro seria uma verdadeira viagem. Assim não sendo, esta crónica está votada a não pertencer às Variações sobre Velhas Viagens. Antes a dar o corpo à andante Diáspora de Dublin
 

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