terça-feira, 25 de junho de 2013

Diáspora de Dublin XXVI

Caminho pedonal paralelo ao canal do Portobello, Vitor Vicente, Junho de 2013

Todos os dias ando durante um hora. Meia hora a patear até ao escritório, meia hora a caminhar para casa. Não me canso com isso. Pelo contrário, estou extremamente contente e, não fossem as poucas vezes que chove copiosamente (por estas bandas, em oposição ao que pensam os portugueses, caem frequentemente alguns aguaceiros que quase nunca são dignos de serem chamados de chuva), a juntar ao exercício diário de andarilho, poderia agradecer diariamente a D-us pela oportunidade de cumprir tal caminhada.
Os invejosos, que são praticamente os mesmos que os portugueses que se rejubilam por saber que por cá está a chover, os invejosos acham que estou a ser irónico, que "lá está ele a desconversar, a não falar a sério." Afirmam, do alto da sua solarenga arrogância, que aqui o desgraçado não tem é dinheiro para "pagar o passe" que "lá na Irlanda o transporte é caro, tudo é caríssimo naquela cidade". (Alguns, mais audazes nos dizeres, ainda acrescentam que "Dublin deve ser como Londres. Paga-se cinco libras para percorrer meia dúzia de estações de metro".)
Sem nenhum ressentimento, sem necessidade de me render, reconheço parcial razão aos invejosos. Lá do alto da sua solarenga e cegueta arrogância, eles adivinharam: os transportes são mesmo caros em Dublin. Que tudo seja caro, já é um exagero de quem nunca deu voltas ao mundo senão sentado no sofá enquanto via os périplos dos brancóides no Travel Channel. O que por aqui há é muita coisa que fica aquém do preço que custa.
O que também me custa é que uma pretensa capital como esta tenha transportes terceiro-mundistas. Como se podem construir duas linhas de metro de superfície (subterrâneo, como há em Londres e no Continente, aqui não há)  sem uma paragem comum e assim se obrigue o pobre do passageiro a fazer a conexão pelo próprio pé? Interfaces na Irlanda são inexistentes. De terceiro mundo - ou  devo dizer saídos doutro mundo? - são também a maioria dos médicos. Pobres diabos que, face à displicência dos dubliners com a sua própria saúde, não dedicassem boa parte do seu expediente a serem verdadeiros vendedores de baixas, há muito que teriam ido à falência. (Acreditem: os médicos cobram por consulta, com ou sem baixa por  baixo da mesa, qualquer coisa como cinquenta e tal euros!)
Antes que fiquemos doentes e não tenhamos quem nos acude, deixemos os médicos. Voltemos a apanhar o tema dos tranportes. No caso, podemos apanhar o autocarro e ir até onde aqui o desgraçado trabalha. Só temos que andar dez minutos, esperar um tempo indeterminado pelo dito, desesperar durante, no mínimo, outros quinze para que consigamos atravessar o centro da cidade (quase todos os autocarros vão pelo centro e ficar atascado é aceitável, tão aceitável como haver uma paragem de cem em cem metros,  uma das quais serve de cenário para se aguardar passivamente que um motorista venha substituir o outro) e finalmente chegar à nossa paragem e daí andar os derradeiros dez minutos até ao escritório. Tudo isto somado dá muitas dores de cabeça, de costas e de coluna e de sei lá mais o quê - dá certamente mais da meia-hora que, a penantes, se tarda da porta de casa até à secretária onde um tipo se senta durante sete horas.
Por isso, abençoo e digo: bem-ditos pés, bem-dita terra. Que me permite ir a pé, lado a lado com outras pessoas que não dependem de nada, nem de ninguém, senão dos próprios pés. Pessoas que se podem sentir senhoras do seu nariz. Que podem trabalhar por conta de outrém, ter um horário a honrar. Que podem não ter o o mundo a seus pés. Mas têm a cidade nos seus pés. Uma cidade que se torna sua, só por ter o poder nos seus pés. 

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Diáspora de Dublin XXV


Guinness e Rascunho num bar da Baia de Howth - Dublin, Vitor Vicente, Janeiro de 2012

Chamem-me xamã, chamem-me cabalista, chamem-me o que quiserem, mas para mim o mundo é uma extensão do nosso estado de espírito, um prolongamento daquilo que os ingleses, tão dados à economia, reduzem à palavra mood. A mood, que também se pode traduzir por alma ou ânimo, a mood é que nos mede o mundo. 
Pelo menos, pode medir o quanto de mundo permitimos que nos perturbe. Quanto mais mundanos, mais mandados. Em contrapartida, os autistas são aqueles a quem a mood está ausente de mundo e se sobrepôe às manifestações da mundaniedade.
O mutismo é a manifestação-mor, enquanto manifestação nenhuma, do autismo. Quer dizer, o autismo deliberado. Que, rezam as histórias, era o meu modo de habitar o mundo enquanto animal de berço e em todo e qualquer dos habitats ermos da minha infância. Quem vinha ver-me (sobretudo, quando se tratavam dos vizinhos) e me esperava ouvir falar as palavras que já havia falado, ficava votado a um espetáculo silencioso - e que, quanto mais silencioso, mais ensurdecedor. É que, dizem, do fundo de um berço onde eu me aninhava como no fundo dum poço, eu só abria a boca quando bem me apetecia. Quando muito, abria a boca para sorrir,para me rir das pessoas que me vinham ver e me queriam ouvir falar - para me rir das pessoas com todos os dentes que ainda não tinha na boca. Alguns anos mais tarde, na adolescência, não voltei a falar aos vizinhos e alegava "nunca me terem sido apresentados e conhecer de vista como se conhece o carteiro". Hoje em dia, quando volto a ver os velhos vizinhos cada vez mais velhos, digo bom dia e boa tarde com o mesmo sorriso escarninho que, nos anos idos da infância, recebia, do fundo do poço disfarçado de berço, aqueles que me queriam ver e ouvir falar.
Voltando à adolescência, agora nos avançados da adolescência, em pleno liceu, fluência em idiomas nunca foi o meu forte. Pelo irrefutável facto que implicava falar. A minha glória era mais nas matérias de Filosofia e de História.
Na Faculdade, falei e bebi muito. Mandei tanta gente à fava, meti-me em simpósios com a postura daquele que, à falta de faca ou navalha, simplesmente avacalha. 
Já enquanto expatriado, vi-me em Espanha com um nível de Inglês de trazer por casa e um nível de Portuñol que daria para dar umas direções a algum Paquito perdido no outro lado da Península que não este para onde me mudara. No meu primeiro ano na Catalunya, pouco mais que fiz que apurar o ouvido para distinguir o que era Castelhano do que era Catalão. Trabalho vão - tudo entrou-me por um tímpano e escapou pelo outro. Só mais tarde, ao me darem trabalho no Aeroporto, uma onda de alegria rebentou-me na ponta da língua e ensinou-me Espanhol instantâneo. Meio que por milage, meio que por magia.
O Inglês, desde que estou na Irlanda, ilha que tão bem trata o Inglês em sentido literário e em sentido literal, tem sofrido as oscilações própria de quem, desde que cá chegou, tem se questionado por que cá tem estado. Comecei por andar de língua desenvolta, depois enrolei-a como quem se fecha num casulo. Depressa Dublin, à imagem e semelhança de Barcelona, fez-se trampolim para outras terras. Nessa aero-época, fui especialmente fluente nas vésperas das viagens e nos dias em que se regressa das ditas e em que se continua a estar mais para lá do que para cá. Fluência assim, em que se fala pelos cotovelos e não há dor nos ditos por não nos preocuparmos com os feitos dos outros, só quando sinto que a Ilha Esmeralda fica com feições de Ilha Eterna. Aí falo e aconteço, não falo nem deixo acontecer, e partilho o meu autismo ambulante com o alheio numa aliança tão transbordante de alegria que até consigo conectar o volátil e leve mundo das fantasias e das fábulas com o penoso mundo dos factos e dos fardos.
A mesma fluência que vale para a fala, vale também para escrita. Tendo a escrever mais e - falta-me a modéstia -a escrever melhor, quando estou feliz. Escrever é-me uma espécie de celebração calada. 

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Via Frankfurt X

Canal Portobello - Dublin, Vitor Vicente, Junho de 2013

Há duas semanas e mais alguns dias que deixei de ser oficial de Frankfurt à distância.
Contudo, parece-me que tudo se passou noutra cidade, noutro tempo, numa realidade tão distante quanto outra reencarnação. Mas o mais estranho, diria mesmo mais espetacular, é que a rotina antiga continua lá, nada nem ninguém saíram do sítio de sempre. Nem o aeroporto de Frankfurt, nem o escritório onde eu estava em Frankfurt estando fisicamente distante.
Não guardo remorsos por ter deixado as funções de oficial de Frankfurt à distância. Tive experiências que, de outro modo, nunca teria tido oportunidade de ter durante toda uma vida. E tudo o que é inalcançável e irrepetível não tem preço ou se regateia, não tem troco, nem se troca por o que quer que seja.
A não ser por - e com isto ainda quero dizer que não me arrependo de ter sido oficial de Frankfurt à distância - por um quotidiano andante. Quanto mais andante, mais independente. Sem ninguém no teu pé ou cosido ao teu ouvido. Com poucas pressas, poucas pressões, poucos derivados da pesada palavra pessoa. 
A tudo isso, rendida e grata, a cabeça semi curva-se e agradece.
Agradece também os vinte e dois países que, em trinta meses de oficial de Frankfurt à distância, consituíram  um tão incansável quanto inimaginável périplo. Agradece, sim, mas ciente de que, antes ainda de ser staff dos ditos, já deambulara por quatro mãos cheias de nações. Trocado para números, vinte. 
O ritmo, agora, é outro. Viajo como vivo, viajo porque respiro. Não descarto que, algum dia, possa partir para outro poiso, nem  a cada tanto dar-me ao gozo nómada de adormecer nalgum lugar longe de onde acordo diariamente. 
Entretanto, tenho hoje menos margem de manobra para me mover no espaço. Em contrapartida, disponho de mais tempo para espairecer o espírito. É baseada nestas nuances que me cabe encontrar o equilíbrio entre o que disponho de espaço e de tempo e, assente nesses alicerces, simplesmente, existir.  

domingo, 16 de junho de 2013

Via Frankfurt IX

Igreja na Pedra - Helsínquia, Maio de 2013, Vitor Vicente

Sabíamos que Frankfurt, enquanto escada de ascenção às estrelas, tinha os dias contados.
Como tal, agendou-se à pressa um apressado fim de semana em Helsínquia. Naquelas condições de correria em que, há coisa de um ano atrás, fizémos da vida dois dias na Lovely Latvia.
Helsínquia, por seu lado, já sabia que era aterrar num e partir no outro dia. Se bem que, à beira do Báltico durante o mês de Maio, um dia não são dias - um dia, de tão longo e tão luminoso, são muitos dias. 
A minha carta de demissão, entretanto, já estava escrita e já fora entregue a quem cabia entregar. O relógio era agora um contra-relógio, cujos ponteiros apontavam para uma nova realidade quotidiana.
Por isso, no regresso, o aeroporto de Frankfurt acolheu-me de braços abertos. Um braço a acolher-me, outro a atirar-me para Dublin. Para que, ao mesmo tempo ficasse ciente de que o passado era um presente permanente e de que no futuro iria inaugurar a era pós-Frankfurt. 
Assim fiz. Assim, entre dentes, assumimos e, pelos ares, arrastámos a palavra fim. 

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Via Frankfurt VIII

Menorah à entrada do Aeroporto Ben Gurion - Tel Aviv, Vitor Vicente, Abril de 2013

Voltas ao mundo, dizia eu na última crónica. Mas não só, começo eu por dizer nesta. Os oficiais de Frankfurt à distância podiam tirar partido de tirar bilhete por percurso. Quer isto dizer, por cada percurso é cobrado um certo montante. Independentemente do que tende a fazer disparar uma típica tarifa, a saber o facto de se partir para um destino e voltar doutro, de se fazer uma pausa de mais de um dia numa qualquer cidade pelo caminho, ou simplesmente ter a vantagem de, a qualquer momento, poder mudar de ideias e solicitar o reembolso total de todos os voos. 
É todo um jogo de combinações em que se podiam conceber os itinerários mais inimagináveis.
Como eu já me imaginava a deixar de ser oficial à distância de Frankfurt, elaborei uma rota que tinha como  primeiro destino as Ilha Faroé e segundo Israel. Sempre com Frankfurt pelo meio, e o melhor: com Business Class para os trajetos longos. 
Quem podia imaginar que tal jornada, ir até às Faroé e voltar de Israel, nas supracitadas condições, poder-me-ia custa pouco mais de cento e tal contos de reis? Quem podia imaginar que, algum dia, eu estaria a escrever acerca de ir às Faroé e a Israel na mesma viagem?  Quem poderia imaginar que eu, algum dia, estaria a escrever com uma caneta de um hotel faroês, numa esplanada de um Pub de Dublin 4? Quem poderia imaginar que se podia desfrutar na Irlanda de uma sexta-feira solarenga, tão solarenga que nem a Smithwicks que eu bebia, nesse dia, podia sobreviver ao calor? 
Ninguém. Nem naqueles momentos mortos dos aeroportos ou naqueles momentos mais expasperantes do expediente em que nos imaginamos em todas as ilhas do Pacífico. Nem em Frankfurt, antes de embarcar para Tel Aviv e ir pela primeira terceira vez a Israel. 
Donde, alguns dias depois, voltei para Dublin. Desta vez para, finalmente, deixar de ser oficial à distância de Frankfurt.  

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Via Frankfurt VII

A caminho do Aeroporto de Incheon - Seoul, Vitor Vicente, Dezembro de 2012

Existem experiências que fazem sentido num certo período da vida. Algumas delas, como percorrer a Europa num Inter Rail ou atirar-se aos setes ventos e aos ares da Ásia por um par de meses, ficaram-me pendentes. Poderei ainda fazê-lo, mas com a agravante que o cumpri tarde e que a principal piada vai passar por isso mesmo, por ainda ter tido fôlego para curtir algo tardiamente. 
O mesmo vale para dar a volta ao mundo, à custa de meia-dúzia de mantimentos e de uns rendimentos intermitentes e obtidos à custa de um outro biscate disfarçado de trabalho.
Se bem que, para ser muito sincero, nunca consegui encarar com seriedade essa brincadeira de me desfazer do poiso, nunca me seduziu sobremaneira. Sou um bicho de hábitos, de rotinas e rituais. Sou até quadrado no meu quotidiano. Sou um chato e dou graças ao Senhor por ir ainda havendo quem me consiga aturar. 
Daí que decidi, juntamente com quem tem o condão de me aturar, dar uma volta ao mundo à minha burguesa maneira, isto é com duas paragens: uma em Vancouver, outra em Seoul, como se estas cidades fossem vizinhas e de uma para outra se pudesse ir sentado num comboio suburbano. 
Vancouver e Seoul nem são para esta crónica chamadas. Só para dizer que, como sempre, foi de Frankfurt que demos o salto para chegar à costa oeste do Canadá e foi também em Frankfurt que,enfim, fizémos uma pausa após voar da capital da Coreia do Sul.
Sempre cientes de que  Frankfurt está aqui para nos fazer chegar à frente. Para nos fazer crer que o mundo parece maior e parece menor do que quando estamos parados, que vai parecendo menor à medida que nos movemos - mas também vai parecendo maior por percebermos que, por mais que nos movamos, ficar-nos-à sempre uma parcela de mundo pendente.
Todas as voltas do mundo passavam inevitavelmente por Frankfurt. Seja como ponte para partir para longe, seja como pausa antes de voltar ao poiso. 

domingo, 9 de junho de 2013

Via Frankfurt VI

Centro financeiro de Frankfurt, Vitor Vicente, Janeiro de 2012

Lembro-me de, certo dia, ter lido numa certa e pretensa crónica de viagem que ir a uma cidade não é a mesma coisa que ir ao aeroporto que serve essa cidade. Lembro-me que primeiro imaginei uns quantos eucaliptos, a seguir já era eu uns desses eucaliptos e depois  me perguntava porque me abatiam a mim e aos meus semelhantes para se erguerem estantes e publicarem revistas com frases tão fabulosas como essa que os meus incrédulos olhos acabaram de ler. 
Já refeito da ideia de ser um eucalipto abatido, podia então começar este parágrafo e dizer que ir a Frankfurt é diferente do que ir ao aeroporto de Frankfurt. Podia ir em frente com a palermice e dizer que acompanhar meu pai e minha mãe no aeroporto de Frankfurt foi uma espécie de recuo à infância. 
Podia, pois podia. Para o bem dos eucaliptos e em nome da ecologia em geral, vou parar por aqui.
Para frisar que Frankfurt fez parte do inesquecível itinerário de uma mão cheia (cinco!) de países que visitei, durante dez dias, na companhia de meu pai e de minha mãe. 
Foi uma viagem plena. Perfeita.
Logo em Frankfurt, enquanto esperava pelo voo que vinha de Lisboa, fui tomado por uma febre de ansiedade que nunca haverá medicina tropical que consiga, algum dia, inventar a cura. Queria não só mostrar aos meus pais a cidade de Frankfurt, como o mundo que é o aeroporto de Frankfurt. Esse mundo onde desfilam todos os tipos de semblantes e trajes, onde os tapetes rolantes parecem elevar-nos até às estrelas, numa mistura de tapetes persas e tapetes vermelhos.
No regresso, quando me despedi de meu pai e de minha mãe junto à porta de embarque para Lisboa, foi como se não estivéssemos mais no aeroporto de Frankfurt, mas no próprio aeroporto da Portela. Tal como todas as vezes que parto de Portugal em direção a Dublin, também não foi em Frankfurt que fomos capazes de aprender e de dizer a palavra adeus.  

sábado, 8 de junho de 2013

Via Frankfurt V

Casamento em Jaipur para o qual não fui convidado, Vitor Vicente, Novembro de 2011

Ir à Índia era algo que, agora que era oficial à distância de Frankfurt, já não era inimaginável. Já imaginar que iria de viagem na companhia doutros oficiais, no caso dois franceses, jamais me passara pela cabeça. Na verdade,  ir à Índia acompanhado ou a qualquer outro lado, sempre me pareceu irreal. Mais depressa me vejo a ir sozinho às Índias deste mundo e do outro do que ir com quem que seja ao café (em dublinês diria pub) da esquina.
Como devem calcular, nunca concordei (nunca fui de concordar) com a ideia de que três cabeças pensam melhor que uma. Estou até convencido de que uma cabeça iluminada está sujeita a ser decapitada, quando posta em confronto com cabeças ocas. Não quero com isto reclamar possuir uma cabeça iluminada. Quero apenas deixar claro que foi às escuras que as ideias para a Índia se imiscuíram, se amontoaram, e assim o plano inicial acabou algo atabalhoado, mais feito de atalhos e de retalhos do que de programas e de prioridades.
Muito havia para contar sobre a ida à Índia, na companhia de dois franceses, um dos quais de traços indianos e que era confundido com os locais a toda a hora.
Mas o foco que nos toca, nesta hora de restrospetiva, é Frankfurt. (Sobre o fiasco que foi a Índia, já por aqui barafustei que baste.) 
Chegámos a meio da manhã ao aeroporto de Frankfurt. Durante o tempo de espera (uma mão cheia de chatas horas) para o voo com destino a  Deli, fomos reabastecer o estômago no Starbucks do hall de desembarques. No meu caso, socorri-me de um scone sêco, que é como se querem os scones e quem como eu nunca conseguiu desertar do deserto, e um capuccino que, tivesse eu a arrogância anacrónica dos italianos que ainda não entranharam a derrocada do império romano, teria deixado muito a desejar. Já os franceses, claro que marfaram croissants, depois de apontar para as sandochas cheias de molhos e merdas que designaram de iguaria para irlandeses.
Na volta, já não de Deli, mas vindos de Bombaim, só deu tempo para que eu e o francês francesíssimo mudássemos de avião e seguíssimos viagem de volta para Dublin. Já o francês índico foi acabar as férias com a família, para Paris. 
O melhor de tudo isto (Índias, scones de Frankfurt, franceses) foi ter voado, tanto na ida como no regresso, em Business Class. Banquete a bordo, cognac e champagne à discrição, dormir e só acordar para dizer que não querìamos comer mais nada, não.  A comida na Índia  também era excelente. Uma viagem menos para os olhos, mais para a barriga. Uma viagem para testar o estômago. Para o lembrar que há muito boa gente que trava uma luta permanete para mater a fome, antes que a fome os mate. 

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Via Frankfurt IV


Anúncio da Nike com Cristiano Ronaldo - Macau, Vitor Vicente, Setembro de 2011

Se por um lado os bilhetes para os Oficiais de Frankfurt estavam sujeitos à disponibilidade de lugares, por outro eram muito baratos. Mais baratos ainda eram - quando  comparados com o preço de venda ao público - os bilhetes em Business Class. Podia-se também dar o caso - pode acontecer muita coisa em viagem, sobretudo se se viaja com bilhete staff - de se ter bilhetes em económica e, por esta classe se encontrar cheia, receber-se um upgrade por cortesia para Business. Ou o contrário, como foi o caso em questão.
Vamos descer à terra, pois é em terra que acabei por ficar. O voo para Hong Kong estava completamente lotado. No embarque, os colegas aconselharam-me a tentar ir via Munique. 
E lá fiz eu a ponta aérea alemã, estendido ao comprido na fila da saída de emergência, enquanto roía uns amendoins e as unhas que não tenho. 
Em Munique, tal como em Montreal, tive que esperar até à ultima. Esperei sentado, ao lado de outro stand by, que era namorado de uma hospedeira da United Airlines, que tinha vindo dos States para Singapura, com o objetico de assistir a uma prova de Fórmula 1 e que ia tentar usar Hong Kong como escala para o destino final. Era normal o pessoal stand by confraternizar cinicamente junto às portas de embarque, a fim de fazer perguntas-chaves (para que companhia trabalhas? há quantos anos? és piloto, cabin crew ou quê?) e assim averiguar quem estava à frente de quem em caso de escassez de lugares. 
Como eu era oficial de Frankfurt, ainda que à distância, acabei por entrar primeiro que o meu colega. 
Dentro do avião, já quase a aterrar, reencontrei-o e trocámos aquele sorriso cúmplice que, traduzido em palavras, era algo como "conseguimos que este pessoal, entre celebrações toscas do October Fest, nos desse um lugarzinho a bordo".
Muita coisa acontece a quem viaja com um bilhete patrocinado pelo aerofício.
Muita coisa se sonha. Muito sonhei eu enquanto marcava e remarcava bilhetes para aqui e para ali. Muita coisa sonhei nos períodos mortos do expediente. 
A Ásia era agora a porta aberta para um sonho imenso. Após ter estado na Ásia, o mundo nunca mais me foi o mesmo, a noção de nação nunca voltou ao sítio. 
Só ficou Frankfurt. À espera que eu dividisse os meus dias por Hong Kong, Macau e China, à espera que   eu só aceitasse voltar de viagem, se me fosse permitido começar a ver da próxima viagem. 

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Via Frankfurt III


Centro da cidade de Frankfurt, Vitor Vicente, Abril de 2011

A minha primeira viagem enquanto oficial de Frankfut à distância foi a New York. Antes de ver o mundo, quis conhecer a cidade que serve de modelo ao mundo inteiro, incluindo aquelas cidades-contra, que se constroem à imagem e dessemelhança,numa palavra, às avessas, das modas americanas. 
Apanhei um voo direto de Dublin. Não tive problema algum para passar a alfândega americana. No caso, bastava passar a alfândega ainda do lado de cá do Atlântico, antes ainda de chegar à América, em pleno aeroporto de Dublin. Tanto assim que, ao aterrar no aeroporto JFK, os passageiros vindos da Irlanda só precisam de levantar as malas no terminal de voos domésticos. Como se, em vez de Dublin, tivessem partido de Dallas ou de Detroit.
Mais chato foi passar o controlo policial do aeroporto de Montreal. Demorou quase tanto tempo quanto demorara o voo de New York até ao Quebec. Ainda me lembro de um passageiro americano que se queixava disso e se queixou também disto e também daquilo durante o voo, que todo ele era queixume o tempo todo. Um daqueles americanos que eu - que considero comportamento de anta o dos anti-americanos primários - considero obtusos e quadrados, americanos até ao absurdo.
Estivesse eu pouco acostumado a viajar com bilhetes staff (leigos, leiam bilhetes stand by que custam tuta e meia e que só se traduzem em embarque quando há algum lugar vago) e muito teria refilado por, ainda em Montreal, ter esperado até à última para me darem o cartão de embarque para Frankfurt. Onde, depois de dez horas de voo, não entrei na primeira partida para Dublin. O que me custou dez horas extra de viagem, agora de espera pelo voo seguinte para a capital da Irlanda.
E lá fui eu a Frankfurt. Que não é propriamente a cidade dos sonhos, mas a cidade onde se consegue sonhar com todos os sítios. Parei um pouco na praça principal, entrei na Catedral. Em Frankfurt, enfim, fiz uma pausa para respirar fundo o ar continental.
E entranhar que ir da Europa para a Irlanda e vice-versa parecia-se a um voo inter-continental. 

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Via Frankfurt II


Shabbat em Jerusalém, Vitor Vicente, Setembro de 2010

First time in Frankfurt, I mean, in Frankfurt Airport...foi...longa história.
Foram as minhas primeira férias, desde que começara a trabalhar em Dublin, num escritório execrável. As primeiras férias, mas não a minha primeira viagem. Pois já antes a febre de viajar me levara a um fim de semana a Londres e outro à Noruega. 
Desta vez, não eram dois dias, mas dez. Depois, conforme confessara à minha mãe, encontraria emprego. Entenda-se a promessa, se é que é passível de haver quem encaixe esta: assim que voltasse de viagem, já teria trocado de escritório.
Comecei a trocar  antes, ainda estava em Israel. 
Estava em Jerusalem, debaixo de uns trinta graus que, ao fim de meia dúzia de meses em Dublin, já me pareciam desajustados ao meu dia-a-dia. Sem como conseguir fazer frente ao calor, enquanto a tarde caía, decidi dedicar algum tempo à Internet. Visto o email e a feira de vaidades do Facebook, ocorreu-me espreitar algumas páginas de empregos na Irlanda. Numa delas estavam à procura de Oficiais de Frankfurt à distância, digo à distância de Dublin.
Primeiro, fiz uma pausa para pensar. Depressa concluí que seria preferível não conseguir ir à entrevista por não estar no Èire do que nem sequer concorrer. Sempre preferi ficar fodido pelo que faço do que por aquilo que deixei de fazer. 
Pensado e feito isto, recebi imediatamente uma resposta escrita a pedir um contato telefónico. A que, por sigilo, respondi apenas que estava a viajar no Médio Oriente, sem telefone e que voltava na Segunda Feira. (Era tipo Quarta ou Quinta.) 
Nisto, pediram-me o contato do hotel. Que, não fosse o anti-semitismo tecê-las, me recusei a dar. Desolado, voltei ao quarto, onde deixara o telemóvel que, até então, não apanhara rede e que, vá lá saber-se como, voltara a estar ativo e registara as chamadas perdidas dos recrutadores. 
Corri para os computadores do hotel e pedi que me ligassem de novo. Tarde demais para que me ligassem hoje. Mas cedo para marcar uma entrevista para o dia seguinte, em que já estaria em Tel Aviv.
Dois dias depois, feita a entrevista telefónica horas antes do Yom Kippur, parti de Tel Aviv para Dublin, com paragem no aeroporto de Frankfurt. Dois dias depois de aterrar em Dublin, pedi a demissão do escritório execrável para assumir as funções de oficial de Frankfurt à distância. 

domingo, 2 de junho de 2013

Via Frankfurt I


Iron Bridge - Frankfurt, Vitor Vicente, Janeiro de 2012

Para dizer a verdade, nunca se pôde denominar de viagem. A não ser que force muito, só nesse caso, me posso referir às vezes que estive em Franfkfurt como a uma velha viagem.
É por isso que, em vez de ser parte da série "Variações sobre Velhas Viagens", este post dá o pontapé de saída de uma outra série. Será, sim, o primeiro do que chamarei de "Via Frankfurt".
O primeiro que, como querem os cabalistas, assinala o fim - o fim das viagens via Franfkfurt. Sejam por Frankfurt como trampolim para todos os sonhos, sejam por Frankfurt como  plataforma onde fazer uma pausa e lembrar que todas viagens têm  um regresso à realidade da rotina. 
Rotina que, de hoje em diante, deixará de ter com Frankfurt no horizonte.
Durante dois anos e oito meses, trabalhei à distância (à distância de Dublin) com o aeroporto de Frankfurt. Dadas as distâncias físicas, assim como o frio que daí advém, não guardarei desse aeroporto o mesmo carinho que guardo do aeroporto de Barcelona, onde trabalhei (fisicamente falando) durante dois anos. 
O aeroporto do Prat, que é como é conhecido o principal aeroporto da Catalunya entre os cromos aeronáuticos, tornou-se-me todos os aeroportos deste mundo e do outro. Especialmente os aeroportos espanhóis, onde, sempre que aterro e ouço qualquer gravação de aviso aos passageiros, volto a ter os vintes e tais anos que deixei de ter há um par de meses. 
O aeroporto de Frankfurt vai-me ficar, enfim, como a porta de embarque para as estrelas. 
Mas deixemos as estrelas e, de momento, fiquemos em Frankfurt. Essa escola onde aprendi que há mais mundo do que o mundo que vinha no mapa nas aulas de geografia, que há mais mundo do que pensava mas que isso não quer dizer que o mundo seja  maior do que nos ensinaram. Que todo e qualquer sítio é sempre um fim ficticio, mas sim o princípio doutra coisa qualquer.
Até quando, sem o saber, vindo de Tel Aviv, vinha também a caminho de me tornar oficial de Frankfurt. Mas essa é outra história. É para aqui chamada para dar o mote ao próximo post

sábado, 1 de junho de 2013

Helás Helsínquia!

Fim de tarde em Helsínquia, Vitor Vicente, Maio de 2013

Se me perguntarem qual a minha posição sobre a ideia de uma Catalunya independente, eu responderia que sou um catalanista cético. Catalanista por estar convencido de que se pode esquecer que se está em Espanha quando se está em Barcelona e arredores. Cético por crer faltarem infra-estruturas e condições básicas (exemplo: um exército) à Catalunya para constituir uma nação e por achar ridículo o conceito de império quando tratam por países as cidades onde se arranha catalão, desde a povoação de Perpignan até às Baleares, passando ainda pelos Sardos.
Na verdade, o Mediterrâneo erigiu uma muralha milenar e espiritual e que se assenta no mar. De momento, face ao poderio mediático do futebol,  a capital do Mediterrâneo é a capital da Catalunya. Mas, por estas bandas, é tudo uma questão de porto. E o porto que hoje é um bom porto, pode amanhã vir a ser outro.
Chegados a este ponto - digo, a este porto - é hora de partir para uma cidade de dois portos.
Ela é Helsínquia. Donde partem colossos para as ilhas circundantes e para as primas bálticas vizinhas, Tallin e São Petersburgo.
Ela é mais do que isso. Ela é o parque a pedir pic-nic. Ela é a arquitetura escandinavo-estalinista. Ela é o vento a esvoaçar os cabelos longos da muita malta do Heavy Metal. Ela é a humildade degenerada em higiene que deixa a desejar. Ela é o que é, ei-la Helsínquia!
Onde os invernos parecem infinitos e os dias de Verão se vingam e se arrastam, lentos, contra o apagão. Onde o Báltico beija a baía da cidade, sem a abraçar, sem assumir compromisso. Só para selar o acordo assinado a âmbar, entre as cidades bálticas que, ao contrário da comunidade mediterrânica, convivem sem ter que se tocar. 

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Resorts a Céu Aberto e à Prova da Realidade III


Árvore do quintal cá de casa - Dublin, Vitor Vicente, Maio de 2012

Pode parecer conversa fiada. Mas faz já algum tempo que eu tenciono pôr um travão nas viagens. Em prol do quotidiano circundante, da realidade da rotina, de extrair tempo ao tédio e ao próprio desgaste do dia à dia.
Um desafio daqueles. Daqueles inomináveis, inexplicáveis. Adianto eu, sem expetativa de o superar.
Outro desafio consiste em tirar uma semana - senão mesmo mais - de férias para ficar em casa. Sem sair do sofá, senão em certas situações que a isso obrigam.
Desta feita, das duas semanas de férias de que (mais ou menos) dispus, fiquei os primeiros sete dias (sete, se contar com o primeiro fim de semana que, quer estivesse de férias ou não, seriam dias off), em casa.
Contudo, sempre à espreita e na tensão de saber quando e onde ia dar a fuga.
Até que, por fim, dei mesmo de fuga para as Ilhas Faroé, donde fugi para Israel e onde fiquei uma mão cheia de dias antes de voltar à base.
Acabei por não aproveitar os dias em casa como queria. Para os curtir, teria de não ter nada em vista, nenhuma espécie de esperança ou expetativa senão a de poder, todo o santo dia, espreguiçar o esqueleto ao comprido. De, dia após dia, sentir-me a crescer. De me sentir cheio por não ter feito coisa nenhuma. De encher as quatro paredes da casa de histórias que não são passíveis de serem contadas a ninguém por só se passarem na minha cabeça. De não me ralar minimamente com isso, por não ter ninguém com quem partilhar essas histórias sem tempo nem espaço.
Assim sendo - ou melhor, assim não sendo - ainda não foi desta que fiz férias em casa. Até porque, quer em casa,quer neste ou naquele continente, eu nunca faço férias. Eu viajo.
No fim de contas, o que eu procuro é o tal resort à prova da realidade. Quem me dera que, algum dia, possa residir nesse resort como qualquer comum dos mortais reside numa casa. O ano todo, o calendário completo.
Até lá, é mais um projeto inacabado. Um complexo (e que complexo!) que ficou a meio, onde bate o vento. 

domingo, 12 de maio de 2013

Com a de-vida distância X


Esplanada em Eilat - Israel, Vitor Vicente, Maio de 2013

Termino de ler o nono tomo do diário de Miguel Torga. Penso em J. Rentes de Carvalho e Francisco José Viegas. Todos transmontanos. Todos detentores de um Português apurado, tradicional até.
Como não se vê nos jovens escritores, nem se consegue adivinhar nas gerações vindouras. Multidão apressada e anónima, onde só se vislumbram tipos de tigela e meia, atarracados e tíbios, sem fibra nem espinha. É vê-los com a pose cerimonial do padreco da aldeia, com o ar cabisbaixo de quem acabou de sair da clínica de desintoxicação, com pouco tento na língua a comentar assuntos sociais ou emperoados em eventos e redes sociais. Em suma, sociopatas de toda a espécie e em número suficiente para servir de objecto de estudo aos finalistas da licenciatura de Neurologia que não sabem que fazer com o canudo.
Sinto falta - eu, assinala-se, que nasci em 83 - de abrir um livro em Português e pensar que podia ter sido escrito pela mão de um almirante ou pelo punho assertoado de um diplomata. Por exemplo, por um José Cardoso Pires, possuidor de um Português perfeito, personagem que consigo ver numa doca, num porto, numa gare. Ou em Ramalho Ortigão, o maior génio da Geração de 70, que consigo imaginar numa mercearia em Londres ou a trocar as voltas (digo, a fazer troça) de uma dama da Toscânia. 
Em contrapartida, chega-se ao Chiado e o mundo cheira a mofo. Cheira a gente que só navegou na naftalina. Que fala do deserto ou do sol da meia-noite como se fossem conceitos, coisas do lá longe. Até o infinito, de tão amorfo,o estrangulam como algo intelectualizado. O Chiado, enfim, está cheio de gente que acha estar num plano mais elevado,por discutir temas mais altos do que os penaltis que se discutem na taberna ali ao lado.
Dito e discutido isto, afasto os trapos do Chiado com as costas da mão e torno a Trás os Montes. Volto então onde só fui uma vez, numa excursão da escola e a Foz Côa. Uma das poucos viagens em grupo que fiz e em que me senti mais só do que as viagens em que só viajei.
Tudo isto acontece-me através dos diários de Torga. Em que cada palavra é tratada com o respeito de quem tudo respeita, inclusivé cada pedra que se colhe pelo caminho. Em que cada palavra é talhada como uma pedra em que se reconhece potencial. Em que cada palavra é polida. Em que cada palavra é preciosa.
Para essa precisão, é preciso limpeza, higiene e humildade. Tudo isso dá trabalho.
Volto então às paisagens de Portugal por onde pouco ou nenhum tempo estive. O regresso, à cautela, dá-se com a de-vida distância.

sábado, 11 de maio de 2013

Resorts a Céu Aberto e à Prova da Realidade II

Banhista no Mar Vermelho  - Praia das Corais de Eilat, Vitor Vicente, Abril de 2013

O idioma do turismo, oficialmente falando, é o Inglês. No final, de contas, Easy English para aqui, Easy English para acolá, andamos todos às turras para nos entendermos em Turistês. A troco de uns trocos e para brancóide vir nos ver. 
Tomemos então uma dessas palavras em Turistês, digo em Inglês. Tomemos a palavra Resort. Palavra tão intraduzível como tantas outras, que se impôe em Inglês, com um único propósito: ficar ao alcance do cérebro diminuto do brancóide flip flop.
Por Resort entendo eu - que não sou brancóide por nenhumas bandas, muito menos por estas onde escrevo e onde me falam directamente na língua nativa - por Resort entendo um nicho que resiste à realidade propriamente dita e que dá a ilusão de que a única realidade existente se resume à que se passa entre as quatro paredes do retiro a que, rendidos, como quem chama um amigo, tratamos por Resort.
Eis-nos então em Eilat. Resort a céu aberto, sem outras paredes que não as fronteiras terrestres e marítimas com os amigos vizinhos. Resort onde faz sempre sol, onde nunca chove, com exceção de um outro rocket enviado pelos tais amigos vizinhos que não se gostam de se divertir e têm inveja de quem, como nós, se diverte à brava e à descarada. 
Acresce ainda que neste Resort (eu avisei que, à falta de equivalente, este vocábulo ia-se tornar recorrente) se misturam Mediterrânicos com Russos, duas faces da mesma raça (por este termo recuso-me a pedir desculpa) que desbundam da vida no fio da navalha e à beira do Mar Vermelho.
Mar Vermelho que, juntamente com o deserto (Negev, pois devemos chamar as coisas pelos nomes), fazem de chão e de tecto a este Resort de céu aberto. De céu azul, azulíssimo, e imenso. Não muito longe (passível de uma One Day Trip, Mr Smith!) dista o Mar Morto. Mais à frente temos o Mediterânio, depois  o da Galileia.
Moisés, há milénios atrás, sabia que, ao dividir as águas, tornaria Haaretz num Resort em pleno no coração do mundo e o que mais nos abriga do que mais nos agride: a realidade. 

domingo, 5 de maio de 2013

Resorts a Céu Aberto e à Prova da Realidade I

Crepúsculo no city centre de Tórshavn - Ilhas Faroé, Vitor Vicente, Abril de 2013 

...parece que o tempo não passa. Parece, sim, parece, quando na verdade o tempo não pára. Eis a ilusão das ilhas. Cujo maior património é possuirem um cronómetro próprio. 
Ou então o tempo até passou por aqui. Passou, pois, terá passado. Porém, petrificou. Perante a overdose de beleza, o tempo petrificou-se num desses colossais rochedos de que é feita a realidade das Ilhas Faroé.
Rochedos lado a lado com lagos. Lagos que lambem o mar. Tudo esculpido com pó de estrela. Inclusive as sereias, os salmões, todo o material ilhéu que nos enche as medidas e mata maneiras a fome. 
Porque o próprio PIB deste povo provém quase todo da natureza. Do peixe, para quem se amanha no mar ou trabalha na terra em actividades afins à pesca. Do turismo, para quem cuida das cortinas que, qual anfiteatro, cobrem as tímidas mas imponentes paisagens. 
Pusessem os Faroeses numa cidade a sério e, em poucos segundos, encontrar-se-iam em estado de sítio. Filas, nem vê-las, nem adivinhá-las. É mais é ovelhas. Todos são vizinhos uns dos outros. Pedem emprestados pedaços de relva para pôr no telhado, como quem pergunta por uma pitada de sal. 
Até as ilhas distam o tamanho de um túnel. Que, se ninguém nos dissesse, digo se não vivêssemos no tempo sem-surpresas do Google Maps ou do Lonely Planet, jamais suspeitaríamos tratarem-se de túneis sub-aquáticos. No fundo, todo o ilhéu está, por índole, isolado. E, ao mesmo tempo, perto do seu semelhante. Até nós, visitantes, enquanto cá estamos nessa secundária condição.
Enquanto o tempo nos der permissão. Até chegar a hora de partir. O tempo, esse que parece que por aqui não passa ou que por aqui petrificou, o tempo não pára. Amanhã é hora de ir embora.
As paisagens permanecem incrivelmente quietas. Tenho a certeza que estarão na mesma posição, se o nosso síndroma de impermanência não nos hipotecar o regresso e voltarmos às fugidias Ilhas Faroé.  
O tempo destas - e suas primas- ilhas é inacessível. É o tempo de facto. Tão efectivo que dá a ideia de ser feito de fantasia. É o tempo do infinito. 

sábado, 4 de maio de 2013

Diáspora de Dublin XXIV

Entrada e/ou Saída de St Stephen´s Green - Dublin, Vitor Vicente, Março de 2011

Através da vitrine de um dos poucos bares que não enchem as medidas da palavra Pub (ou devo dizer de um dos poucos pubs que não preenchem os requisitos da palavra Bar?) vejo: um jardim que tanto podia ser aqui como do outro lado do Celtic Sea e a paragem terminal (ou inicial, consoante o caminho de cada um ) de uma espécie de metro de superfície (ou devo dizer elétrico?) cujas linhas não cruzam e obrigam o pobre do passageiro a asseguar as conexões pelo próprio pé.
Pelas ambiguidades listadas no primeiro parágrafo - digo eu, que sou sempre cético - já dá para adivinhar a índole dúbia de Dublin. Digo, e escrevo, do Dandelion, o tal metade Pub, metade Bar (e ainda, nas febris noites de fim de semana, metade Discoteca), que fica em pleno coração da cidade que, de tão campónia e cheia de gente generosa, não pode ser chamado de centro da cidade, nem nos proporcionar o aperto disfarçado de abraço que nos dá a multidão duma metrópole.
Eu cá tenho encontrado espaço. Já lá vão três anos a habitar esta cidade como trampolim para outras cidades, outros mundos. Entre os quais o meu mundo que, tantas e tantas vezes, é feito sentado a uma mesa qualquer, acompanhado de pints que não devem ser chamadas só e simplesmente de cervejas, mas sim - e esse ensinamento colhi aqui -serem tratadas pelo nome próprio.
Não estou propriamente triste. Só consigo entristecer-me até onde o meu temperamento de trevas e de pedras me permite. É apenas a nostalgia da cidade faz-de-conta, do tempo que não dava nada por ninguém, nem ninguém podia prestar-me contas por coisíssima nenhuma. Uma cidade e um tempo que existiram há três anos atrás, quando vim para aqui viver. Que por aqui vivia com a leveza que, há seis anos atrás, por aqui andei de visita.
O truque, anuncio eu, sem saber se estou num Pub ou num Bar, é viver na cidade onde se mora com o ânimo e alma leves de quem vem de visita. Não fosse este mundo pouco mais que um local de visita, que um lugar onde nos deixaram vir dar uma volta. 

terça-feira, 23 de abril de 2013

Variações sobre Velhas Viagens XVII

Baía de Vancouver, Vitor Vicente, Dezembro de 2012

Volto a Vancouver, donde sonhei nunca mais sair, desde o dia em que a visitei e, não fosse a distância e a idade avançada do meu país (digo, trocando o acento aos is, dos meus pais), lá quis fazer vida, construir um qualquer atabalhoado quotidiano que, enfim, me permitisse ver as estrelas encimar as montanhas através da janela de um escritório qualquer.
Volto a Vancouver via um livro de Malcolm Lowry. Volta-se sempre a vagamundear, volta-se sempre a algum lugar quando se lê Lowry. Mais não seja ao nenhum lugar que ocupa o inglório saber daquele que tem um alcance cerebral que vai mais além de abrir uma lata de conservas ou assar umas sardinhas. Esse nenhum lugar ambulante e amaldiçoado. Algo entre o embriagado e a estrela cadente. Algo assim, semelhante a um nenhum lugar sem espaço e de espírito transpirado.
Parece que o conto em questão, "The Bravest Boat", tem como cenário a baía de Vancouver. Onde Lowry viveu durante uns tempos. Tempos tão atordoados quanto os que passou na Sicília. Quase tão atormentados quanto os que decorreram no México, de Tequila e ceroulas na mão. 
Ao fim e ao cabo - que no caso não é mas bem podia ser o cabo das Tormentas - tanto faz. Este barco pertence à mesma frota de "O Barco Bêbedo", do timoneiro Arthur Rimbaud. Ambos podiam navegar nestas águas, como nas águas do Alaska, ou até Cote d`Azur.
Mudam-se as águas, arrancam-se as páginas do calendário. Mantém-se o desespero diário. A água, quando alguém se quer afogar, é mais da mesma em qualquer parte do mundo. Serve aquele que aspira se asfixiar, serve para quem quer simplesmente estar submerso. Água para naufragarmos em menos que nada. Para subirmos à superfície sob a forma de carcaça carcomida. Para voltarmos a Vancouver sem termos que atravessar o Atlântico. 

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Que Horas são em Haaretz? XI

Recordações de Haaretz - Jerusalém, Vitor Vicente, Junho de 2012

Não tenho televisão. Ou antes, ter, até tenho. Mas está desactivada. Ou talvez deva dizer desligada. Ter alguma coisa em casa sem fazer-lhe caso é o mais indigno modo de desprezo.
Tenho computador. O que, hoje em dia, é como ter televisão, rádio, leitor de dvd e biblioteca, incluíndo a senior seção dos jornais. 
Tenho conta no Facebook. O que, hoje em dia, em que toda a gente se pode dar ao direito de impôr aos amigos o dever da partilha, é como ter a casa cheia com os computadores dos outros. Quem diz computadores, diz também esses aparelhos irritantes que são as televisões. 
Tudo isto começa a ser muita coisa para a minha casa. Para a minha cabeça. Faz muito tempo que eu queria fazer frente às adições do Facebook e afastar-me desse desfile de partilhas durante uns dias. 
Tenho conseguido encontrar um dia ou outro em que me alheio dos audiovisuais. Um dia sabático que, nem sempre, assumo, coicinde com o Shabbat. É que sabático, para quem não saiba, é o período decretado por D-us para que o seu povo se dedicasse ao descanso. 
Mas descanso não se pode ter quando outrém - ainda por cima, outrém que se auto-proclama como Anónimos - ameaça atacar toda e qualquer pessoa afim a Israel ou ao Judaísmo. Assim, por motivos de força maior, pelo poder dos ditos anónimos, enfim, dos outros, fui forçado a estar fora do Facebook que é do mundo inteiro e também é meu - e que só deixa de ser meu quando eu quiser.
Que eu declare (e reclame) o direito ao descanso, não é novidade nenhuma. Que eu não o tenha feito com frequência devido a preguiça, também não é nada de novo. O que tem que ficar claro é que o descanso tem que ser decretado em nome próprio. Nunca por anónimos. Jamais por anti-semitas. No fundo, dois nomes para o mesmo mal: a intolerância, a obstinada inaceitação do outro enquanto outro. Pior, a incapacidade de ter vida  própria e o instinto de obter prazer em perturbar a paz de quem se pode permitir, neste mundo de partilhas e mentiras, a alguma paz e de se querer separar em troca de um certo sossego. 
 

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