domingo, 9 de junho de 2013

Via Frankfurt VI

Centro financeiro de Frankfurt, Vitor Vicente, Janeiro de 2012

Lembro-me de, certo dia, ter lido numa certa e pretensa crónica de viagem que ir a uma cidade não é a mesma coisa que ir ao aeroporto que serve essa cidade. Lembro-me que primeiro imaginei uns quantos eucaliptos, a seguir já era eu uns desses eucaliptos e depois  me perguntava porque me abatiam a mim e aos meus semelhantes para se erguerem estantes e publicarem revistas com frases tão fabulosas como essa que os meus incrédulos olhos acabaram de ler. 
Já refeito da ideia de ser um eucalipto abatido, podia então começar este parágrafo e dizer que ir a Frankfurt é diferente do que ir ao aeroporto de Frankfurt. Podia ir em frente com a palermice e dizer que acompanhar meu pai e minha mãe no aeroporto de Frankfurt foi uma espécie de recuo à infância. 
Podia, pois podia. Para o bem dos eucaliptos e em nome da ecologia em geral, vou parar por aqui.
Para frisar que Frankfurt fez parte do inesquecível itinerário de uma mão cheia (cinco!) de países que visitei, durante dez dias, na companhia de meu pai e de minha mãe. 
Foi uma viagem plena. Perfeita.
Logo em Frankfurt, enquanto esperava pelo voo que vinha de Lisboa, fui tomado por uma febre de ansiedade que nunca haverá medicina tropical que consiga, algum dia, inventar a cura. Queria não só mostrar aos meus pais a cidade de Frankfurt, como o mundo que é o aeroporto de Frankfurt. Esse mundo onde desfilam todos os tipos de semblantes e trajes, onde os tapetes rolantes parecem elevar-nos até às estrelas, numa mistura de tapetes persas e tapetes vermelhos.
No regresso, quando me despedi de meu pai e de minha mãe junto à porta de embarque para Lisboa, foi como se não estivéssemos mais no aeroporto de Frankfurt, mas no próprio aeroporto da Portela. Tal como todas as vezes que parto de Portugal em direção a Dublin, também não foi em Frankfurt que fomos capazes de aprender e de dizer a palavra adeus.  

sábado, 8 de junho de 2013

Via Frankfurt V

Casamento em Jaipur para o qual não fui convidado, Vitor Vicente, Novembro de 2011

Ir à Índia era algo que, agora que era oficial à distância de Frankfurt, já não era inimaginável. Já imaginar que iria de viagem na companhia doutros oficiais, no caso dois franceses, jamais me passara pela cabeça. Na verdade,  ir à Índia acompanhado ou a qualquer outro lado, sempre me pareceu irreal. Mais depressa me vejo a ir sozinho às Índias deste mundo e do outro do que ir com quem que seja ao café (em dublinês diria pub) da esquina.
Como devem calcular, nunca concordei (nunca fui de concordar) com a ideia de que três cabeças pensam melhor que uma. Estou até convencido de que uma cabeça iluminada está sujeita a ser decapitada, quando posta em confronto com cabeças ocas. Não quero com isto reclamar possuir uma cabeça iluminada. Quero apenas deixar claro que foi às escuras que as ideias para a Índia se imiscuíram, se amontoaram, e assim o plano inicial acabou algo atabalhoado, mais feito de atalhos e de retalhos do que de programas e de prioridades.
Muito havia para contar sobre a ida à Índia, na companhia de dois franceses, um dos quais de traços indianos e que era confundido com os locais a toda a hora.
Mas o foco que nos toca, nesta hora de restrospetiva, é Frankfurt. (Sobre o fiasco que foi a Índia, já por aqui barafustei que baste.) 
Chegámos a meio da manhã ao aeroporto de Frankfurt. Durante o tempo de espera (uma mão cheia de chatas horas) para o voo com destino a  Deli, fomos reabastecer o estômago no Starbucks do hall de desembarques. No meu caso, socorri-me de um scone sêco, que é como se querem os scones e quem como eu nunca conseguiu desertar do deserto, e um capuccino que, tivesse eu a arrogância anacrónica dos italianos que ainda não entranharam a derrocada do império romano, teria deixado muito a desejar. Já os franceses, claro que marfaram croissants, depois de apontar para as sandochas cheias de molhos e merdas que designaram de iguaria para irlandeses.
Na volta, já não de Deli, mas vindos de Bombaim, só deu tempo para que eu e o francês francesíssimo mudássemos de avião e seguíssimos viagem de volta para Dublin. Já o francês índico foi acabar as férias com a família, para Paris. 
O melhor de tudo isto (Índias, scones de Frankfurt, franceses) foi ter voado, tanto na ida como no regresso, em Business Class. Banquete a bordo, cognac e champagne à discrição, dormir e só acordar para dizer que não querìamos comer mais nada, não.  A comida na Índia  também era excelente. Uma viagem menos para os olhos, mais para a barriga. Uma viagem para testar o estômago. Para o lembrar que há muito boa gente que trava uma luta permanete para mater a fome, antes que a fome os mate. 

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Via Frankfurt IV


Anúncio da Nike com Cristiano Ronaldo - Macau, Vitor Vicente, Setembro de 2011

Se por um lado os bilhetes para os Oficiais de Frankfurt estavam sujeitos à disponibilidade de lugares, por outro eram muito baratos. Mais baratos ainda eram - quando  comparados com o preço de venda ao público - os bilhetes em Business Class. Podia-se também dar o caso - pode acontecer muita coisa em viagem, sobretudo se se viaja com bilhete staff - de se ter bilhetes em económica e, por esta classe se encontrar cheia, receber-se um upgrade por cortesia para Business. Ou o contrário, como foi o caso em questão.
Vamos descer à terra, pois é em terra que acabei por ficar. O voo para Hong Kong estava completamente lotado. No embarque, os colegas aconselharam-me a tentar ir via Munique. 
E lá fiz eu a ponta aérea alemã, estendido ao comprido na fila da saída de emergência, enquanto roía uns amendoins e as unhas que não tenho. 
Em Munique, tal como em Montreal, tive que esperar até à ultima. Esperei sentado, ao lado de outro stand by, que era namorado de uma hospedeira da United Airlines, que tinha vindo dos States para Singapura, com o objetico de assistir a uma prova de Fórmula 1 e que ia tentar usar Hong Kong como escala para o destino final. Era normal o pessoal stand by confraternizar cinicamente junto às portas de embarque, a fim de fazer perguntas-chaves (para que companhia trabalhas? há quantos anos? és piloto, cabin crew ou quê?) e assim averiguar quem estava à frente de quem em caso de escassez de lugares. 
Como eu era oficial de Frankfurt, ainda que à distância, acabei por entrar primeiro que o meu colega. 
Dentro do avião, já quase a aterrar, reencontrei-o e trocámos aquele sorriso cúmplice que, traduzido em palavras, era algo como "conseguimos que este pessoal, entre celebrações toscas do October Fest, nos desse um lugarzinho a bordo".
Muita coisa acontece a quem viaja com um bilhete patrocinado pelo aerofício.
Muita coisa se sonha. Muito sonhei eu enquanto marcava e remarcava bilhetes para aqui e para ali. Muita coisa sonhei nos períodos mortos do expediente. 
A Ásia era agora a porta aberta para um sonho imenso. Após ter estado na Ásia, o mundo nunca mais me foi o mesmo, a noção de nação nunca voltou ao sítio. 
Só ficou Frankfurt. À espera que eu dividisse os meus dias por Hong Kong, Macau e China, à espera que   eu só aceitasse voltar de viagem, se me fosse permitido começar a ver da próxima viagem. 

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Via Frankfurt III


Centro da cidade de Frankfurt, Vitor Vicente, Abril de 2011

A minha primeira viagem enquanto oficial de Frankfut à distância foi a New York. Antes de ver o mundo, quis conhecer a cidade que serve de modelo ao mundo inteiro, incluindo aquelas cidades-contra, que se constroem à imagem e dessemelhança,numa palavra, às avessas, das modas americanas. 
Apanhei um voo direto de Dublin. Não tive problema algum para passar a alfândega americana. No caso, bastava passar a alfândega ainda do lado de cá do Atlântico, antes ainda de chegar à América, em pleno aeroporto de Dublin. Tanto assim que, ao aterrar no aeroporto JFK, os passageiros vindos da Irlanda só precisam de levantar as malas no terminal de voos domésticos. Como se, em vez de Dublin, tivessem partido de Dallas ou de Detroit.
Mais chato foi passar o controlo policial do aeroporto de Montreal. Demorou quase tanto tempo quanto demorara o voo de New York até ao Quebec. Ainda me lembro de um passageiro americano que se queixava disso e se queixou também disto e também daquilo durante o voo, que todo ele era queixume o tempo todo. Um daqueles americanos que eu - que considero comportamento de anta o dos anti-americanos primários - considero obtusos e quadrados, americanos até ao absurdo.
Estivesse eu pouco acostumado a viajar com bilhetes staff (leigos, leiam bilhetes stand by que custam tuta e meia e que só se traduzem em embarque quando há algum lugar vago) e muito teria refilado por, ainda em Montreal, ter esperado até à última para me darem o cartão de embarque para Frankfurt. Onde, depois de dez horas de voo, não entrei na primeira partida para Dublin. O que me custou dez horas extra de viagem, agora de espera pelo voo seguinte para a capital da Irlanda.
E lá fui eu a Frankfurt. Que não é propriamente a cidade dos sonhos, mas a cidade onde se consegue sonhar com todos os sítios. Parei um pouco na praça principal, entrei na Catedral. Em Frankfurt, enfim, fiz uma pausa para respirar fundo o ar continental.
E entranhar que ir da Europa para a Irlanda e vice-versa parecia-se a um voo inter-continental. 
 

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