domingo, 17 de março de 2013

Variações sobre Velhas Viagens XVI

Carruagem do Metro de Seoul, Vitor Vicente, Dezembro de 2012

Bem sei que o meu bairro é aquilo a que se costuma chamar não o mundo, mas um mundo. Mas daí até dar uma dúzia de passos e achar-se na Ásia é salto que só me poderia apanhar de surpresa - mesmo que me apanhasse naqueles sonhos profundos e profusos que só temos de olhos abertos e a deambular.
Convém confirmar que a paisagem de Dublin, à imagem e semelhança de toda a Irlanda, está predominantemente povoada por Pubs. A maior parte são Pubs parecidos uns com os outros,  parentes uns dos outros, primos uns dos outros. Depois, como em tudo neste mundo de cópias e baldrocas, há sempre os outros. Os que, à revelia e à rebeldia, se tentam demarcar com a elegância dos dandys. No meio desta barafunda, há o desespero das pessoas que querem encontrar por aqui uma cafetaria como há no Velho Continente. E há ainda espaço para o desespero andante da pessoa que gosta de Pubs Irlandeses e de Cafetarias charmosas e clássicas e que não encontra, nem na ilha nem no continente, quem perceba que se possa gostar das duas coisas e que havendo uma delas se possa continuar a sentir falta da outra.
Mas deixemos o desespero e o Velho Continente. Ou desloquemos o desespero para outro continente, a Ásia. A Ásia, essa meca da malta Zen. Que de zonas Zen só foi à a Zambujeira do Mar e à Festa do Avante.
No único centro comercial que há no meu bairro - de resto, nesta cidade onde chove muito e não deixa de haver poucas pessoas na rua por isso, os centros comerciais podem-se contar pelos dedos de uma mão - abriu há algum tempo uma casa de chá. Como sempre, quanto mais perto está a oportunidade, mais a adiamos. Eu, pelo menos, assumo a minha parte de preguiçoso. Não meto as mãos no fogo por mim no que toca a aproveitar chances que brotam à mão de semear.
Meto as mãos no bule de chá, e já gozo. Tive que esperar um bom bocado para que a empregada chinesa (a única que faz serviço de mesa e que foi motivo suficiente para eu nem querer saber mais do que se passa na  cozinha) viesse tomar nota do meu pedido. E outro bom bocado tive que esperar para que o chá me chegasse à mesa. O chá que, tal como a música, ocidentalíssima mas suave, não chegou da China, nem da extinta Indochina. O chá que chegou entre correrias da empregada chinesa, a tal que era a única no serviço de mesa e  que  me fez perder vontade de auscultar o ritmo da cozinha.
Prefiro as pressas do Médio Oriente. São mais humanos, mais toma-lá, dá-cá. Prefiro ouvir o senhor que se segue, de cabeça soerguida no meu ombro, a fazer o seu pedido, enquanto ainda arrumo o troco na algibeira. Prefiro essa pressa à de olhos em bico que atropelam anónimo fulano e anónimo sicrano, que se auto-atropelam, que nos olham como se fôssemos caixas de multibanco e que nos despacham quando cheiramos a centavo avaro.
Ainda assim, amo a Ásia. Aquela Ásia supersónica. Movida a uma electrónica que me é enigmática como as Esfinges o eram para os Antigos. As esfinges do Egito onde nunca fui, nem tenciono ir.
Não me percam tempo a perguntarem-me porquê. Não explico. Tivesse eu a quem explicar como consigo amar a Ásia e detestar o culto à cultura cool (digo, Zen) do continente asiático.
Dito isto, sem mais delongas, fujo do Egito e de tudo o que mais detesto. Paradas de Paddy´s Day incluídas.
Dito isto, não fosse o presente período o período do Pessach, dá-se o meu êxodo. É a minha última tentativa para gozar a glória, para experienciar uma pálida sensação de êxito. 

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Bratislava e Budapeste III


Parlamento Húngaro e Danúbio - Budapeste, Vitor Vicente, Fevereiro de 2013

As maiores termas a céu aberto no seio de uma cidade, a maior sinagoga em solo europeu. Ambas em Peste. Ou do lado sul do Danúbio. Que divide em dois a grandiosa capital da Hungria.
Grande na arquitetura. Monumental. Tão monumental que nos faz verdadeiramente sentir que estamos estar a viver o mundo. Coisa que é característico do Velho Continente. O peso da história. O caruncho decadente que, de tão belo, até consegue ser charmoso.
Grande arquitetura. Não me canso de dizer, grande arquitetura. Imponente. Tão imponente que dá a ideia de que o Império ainda está de pé. Irónico. O que se encontra de faustoso em Viena sabe a pouco. O que se encontra de blocos soviéticos em Viena parece em demasia. Em Budapeste passa-se o inverso.
Budapeste vira-nos do avesso. As miúdas bonitas de Budapeste viram-nos do avesso. A cerveja de Budapeste vira-nos do avesso. Seja com as miúdas ou com as cervejas nativas, há sempre motivos para ter uma boa noite em Budapeste. Acresce ainda que a cerveja, além do corpo (que, à imagem e semelhança das miúdas, é estupendo) é bastante barata.  Mais de oitenta por cento das miúdas de Budapeste são um chamariz para a cama. Beba-se umas quantas canecas e some-se mais dez por cento. Os restantes dez são um ou outro aborto andante, avós que  (quem sabe?) um dia terão sido jeitosas e as trapaceiras de esquina para enganar brancóide em bares que a cerveja deixa de saber bem na hora da conta; para que conste aos incautos, é cobrada a preço de noite no Hilton Hotel.
Mas deixemo-nos disso. Temos os dias a nascer, frios e azuis, no Danúbio. Temos as águas tépidas das termas para tranquilizar a testostorona e outras ânsias animais. Temos Sopas de Goulash e outras iguarias húngaras. 
Goulash. Splash. Mais palavras para quê? O seu nome é Peste, Budapeste. 

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Bratislava e Budapeste II

Entrada do Castelo de Bratislava, Vitor Vicente, Fevereiro de 2013

Primeiro, à falta de bilheteiras, incluíndo a bilheteira humana que dá pelo nome de motorista, não pagaram para vir do aeroporto até à estação de comboios da cidade. Depois, já perdidos na paisagem a preto (da noite) e branco (da neve), pagaram os olhos da cara (digo, da cara de turista) para que o táxi os levasse da estação de comboios até ao hotel.
É esta a praxe dos Gringos de Inverno. Andar ao sabor dos ventos de Leste, sem que nada nem ninguém senão eles encontrem um sentido nisso.
Porque existem Gringos de Inverno e de Verão. Existem Gringos de todos os tipos, em todos os Trópicos quando uns estão no mundo dos outros. Existem, enfim, Gringos para todas as estações do ano.
Mas não me cabe aqui enumerar Gringos e Estações. Cabe-me, sim, concentrar na estação que, durante dois dias, deu guarida aos supraditos Gringos. 
Eis a estação: Bratislava.
Bratislava, a capital da Eslováquia, tantas vezes esquecida, tantas vezes confundida com a Eslovénia. Bratislava, a cidade catita que ninguém visita, por ter como vizinhas Viena e Praga.
Enquanto Viena e Praga ficam repletas de turistas, aqui os Gringos de Inverno habitam Bratislava. Onde são capazes de subir até ao Castelo e passear junto do Danúbio. Devidamente abastecidos a canecas de cerveja nativa e filetes de queijo.
Ainda que a arrastar-se, atabalhoados, também deambulam pelo city centre lá do sítio. E a neve sempre a descer do céu e a subir à altura dos joelhos dos Gringos. 
Bratislava não é para todos. Logo, não é para os tolos. É mais talhada para os bravos. Bravo, Bratislava! Bravo, Gringos de Inverno!

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Variações sobre Velhas Viagens XV

Animação num restaurante mineiro - Ouro Preto, Vitor Vicente, Julho de 2009

Estive três vezes no Brasil. Contudo, nunca coincidi com a época do Carnaval. Nem sequer cheirei aquilo a que o saber comum chama de "Carnaval o ano todo." Ainda assim, sempre que chega o Carnaval, vejo-me a voltar ao Brasil. 
Porque há terras que deixamos para trás com despego, como se nunca lá estivéssemos estado. Em contrapartida, há países que nos são permanentes e nos deixam marcas tão perenes quanto uma peste. 
É aí que eu, ser mais dado aos subterrâneos do que às actividades sem sentido que decorrem à superfície e no seio da sociedade, é aí que eu queria chegar: ao Atlas das Almas.
Creio que o modo como encaro o Carnaval mede muito a leveza, ou falta dela, com que me tenho  relacionado com o mundo. Não fosse o mundo dos outros um medonho e - quando a mood está longe de ser a melhor - abominável baile de máscaras. 
Para começar, ainda criança, cresceu em mim uma revolta contra todos os actos calcinados pelo vale-tudo a que, em Portugal, se associa o Carnaval. Tal revolta, a par de outras, visava o que de carnavalesco se passava no bairro. Basicamente, os rapazes enchiam balões de água e arremessavam os ditos na direcção das raparigas. Assim sendo, havia que aceitar o facto de a minha irmã andar um mês inteiro a tremer de medo, ou mesmo a tremer de frio, caso estivesse ensopada, digo caso tivesse sido alvejada. Os mais maldosos - digo, os mais merdosos - também atiravam ovos. Depois, já no dia de Entrudo propriamente dito, a maior parte dos pais mascarava a maior parte dos meninos de alguma coisa. E era ver a alegria generalizada, menos em mim. 
Depois, digo uns bons anos depois, na adolescência, o fim de semana do Carnaval era dedicado a bailes com música brasileira, invariavelmente aos altos berros. Nestes eventos - eventos, escrevo eu, sem encontrar outra palavra que não enobreça estes estúpidos encontros de massas - davam-se os primeiros beijos e beliscavam-se as primeiras bundas. Os pais, rendidos ao argumentos irracionais do Carnaval, permitiam que os putos saíssem até mais tarde. Para a alegria regrada a cachaça da rapaziada. Alegria que também me era alheia. 
teenager, pré-universitário ou a dar os primeiros passos de um percurso fugaz na faculdade, o Carnaval passou a ser o segundo Halloween da comunidade gótica a que eu pertencia - no pouco a que me era permitido pertencer a grupos e tribos. Hoje em dia, já se celebra o Halloween em muita pista. Já não há razões para os góticos se gabarem de celebrarem o Halloween duas vezes. 
Seguiram-se anos de Carnavais brancos, de Carnavais incolores. Tanto nos anos antes de deixar Portugal, como nos primeiro anos que passei no outro lado da Península. Simplesmente, deixava desdenhosamente o calendário da civilização passar-me ao lado. A única coisa que me deixava lixado era, já em Barcelona, saber que em Portugal o dia de Entrudo era feriado. Mas isso depressa deitei por terra, a partir do dia em que comecei a trabalhar com turismo. Desde então que tenho um calendário à parte, às avessas dos ofícios dos carimbos.
Isso de ter trabalhado com turismo, junto com várias viagens pelo próprio pé, fez-me ver o Carnaval que nunca vi, que nunca sequer tentara ver. De olhos outrados, passei a conceber o Carnaval brasileiro como mais uma manifestação cultural e típica de uma certa etnia . Como uma daquelas coisas que nunca fez mal a ninguém ter visto uma vez na vida. Quem diz o Carnaval do Rio, diz atravessar o Canal do Panamá ou despender uma tarde num Barbecue na Austrália. 
Isso do turismo e, já na Irlanda, também o conseguir encontrar no sol o sinónimo de paz, de prazer, de preguiça. De prazer da paz, do prazer da preguiça. Tudo isso, mas também ter passado três boas temporadas no Brasil. 
Dito isto, penso que o Carnaval muda de data, mas não muda nada. A não ser nós mesmos que, mais ou menos místicos, mais ou menos viajados, tendemos a ser voláteis. O Carnaval, queira-se ou não, vai continuar lá, mesmo enquanto cambiarmos o nosso conhecimento sobre ele, que é como quem diz sobre nós mesmos. O Carnaval está lá, vai continuar lá, em datas desconhecidas, após  termos desaparecido do mapa. 
Até lá, sempre que chega a hora do Carnaval, eu vou voltar ao Brasil. Mesmo que, como nas anteriores vezes, eu volte ao Brasil sem coincidir com a época do Carnaval. 
 

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