domingo, 27 de janeiro de 2013

Que Horas são em Haaretz? X



Memorial do Atentado à Associação Mutual Israelita-Argentina - Buenos Aires, 
Vitor Vicente, Janeiro de 2012


Assinala-se, hoje, o dia da memória do Holocausto.
Reza a História que alguns homens se lembraram de condenar outros homens a campos de concentração. Com o objetivo de os torturar ou executar, consoante a sua sorte. Até extinguir a dita espécie. Sem outra justificação senão o facto de não terem direito à existência enquanto Judeus. Sem outra pseudociência senão a convicção de que se encontravam a reparar a genética.
Houve loucos que acreditavam que em Auschwitz e afins se purificava a humanidade. Houve loucos que se entretinham a dissuadir as réstias de céticos, a fazer-lhes crer que esta era a única e a última salvação possível.
Era só preciso esquecer – ou, pelo menos, deixar de estranhar – que a salvação era sinónimo de selvajaria. Sujar as mãos de sangue e dar banhos de chuva ácida era prática tão quotidiana como cada um de nós varrer a poeira de sua casa.
Hoje em dia, questiona-se como alguns alemães conseguiram ser capazes de tais atrocidades, de cometer crimes ao nível dos monstros cinematográficos. Por outro lado, pergunta-se como algumas pessoas puderam permanecer cúmplices da crueldade, como tiveram estômago para ser espectadores tácitos de atos hediondos. Não há resposta para estas reações ou falta delas, para estas realidades para lá dos limites do razoável. Entre ombros encolhidos, ouvimos, em registo mecânico e de bom burocrata, que o (departamento de) pessoal só obedecia a ordens.
Ordens de dizimar os que eram diferentes. De discriminar os que eram distintos. Tamanho era o atentado à tolerância, ao respeito recíproco. Como quem diz: Ó tu aí que não sei quem és,  mas que sei que o és. Sim, tu, que tens todos os traços interditos. Todos os traços semitas. Peguei-te de ponta. Estás tramado. Mato-te, porco, mato-te e pronto.
Tão simples como isto. Terem na ponta da mira uma etnia. Como no tempo da caça às bruxas. Tempo que, pese o mal-estar presente, já vai longe das terras do Ocidente. Tempo que ainda é tempo vigente nessas tiranias de turbante e que os tidos por libertários, à falta de outro entretenimento, defendem para assim ofender o Ocidente. Eles, os autoproclamados libertários, que experimentem ir para o meio deles. Para melhor medirem – de preferência, à própria mão - o que dizem não ter mal, não ter absolutamente mal nenhum. Só não terão oportunidade de fazer viagem de volta, para contar a sua heroica história.
Mas a história aqui é outra. Para mal da memória do mundo, é uma história verídica. Tão verídica como haver quem a queira vender como mentira. Tendo em vista negar o Holocausto, com o propósito de perpetuar a permanente perseguição ao povo semita.
Atrás de um grande criminoso, há sempre uma grande falange de cúmplices. O coração de um facínora tem frio e arrefece se votado a estar sozinho. O coração de um facínora tem as costas quentes. Sempre.
Ou terá até ao dia em que a vida de mais ninguém possa ser vítima do que quer que seja, pelo simples facto de uma pessoa poder exercer a sua essência e reger-se por um código de ética em consonância.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Com a de-vida distância IX

Merrion Street Upper - Taoiseach House, Vitor Vicente, Janeiro de 2013

De longe, literal e geograficamente de longe, prefiro receber os meus em Dublin do que encontrar os meus em Portugal. Quando digo os meus, digo os meus pais. Quando digo os meus pais, digo o meu país.
Ou, se preferirem, o meu país na pessoa dos meus pais. Com ou sem sentido figurado, ao fim de contas, tanto me faz. Desde que estejamos todos, juntos, num lugar que se possa designar como um lugar longe. Dublin, como foi o caso.
Ou, para personalizar ainda mais, na minha Dublin. Na Dublin de que é feito o meu dia à dia. Ou no que dos meus dias é feito mais em Dublin do que de Dublin.
Excepção feita a estes dias. Em que, ao acompanhar os meus pais, ao me tornar pai dos meus próprios pais, me tornei também guia turístico de tudo e todos. Até de mim próprio, que, de olhar outrado, me perguntava como a preguiça me fecha cá por casa. 
É certo que lhes dei a conhecer a minha casa. Assim como o meu bairro e o caminho pelo meu bairro que faço, todos dias, até minha casa. Não fossem o bairro e o caminho do quotidiano parte da própria casa. 
Canal acima, canal abaixo, debaixo de chuva curta ou de um sol entre o celta e o tímido, lá fomos até às margens do Liffey. Às compras, às cervejas, aos cafés que, aos olhos e às narinas dos portugueses, são chamados de cafés com cheirinho. Para dar um toque  turístico, marquei o jantar de Sábado no Johnnie Fox, restaurante a pouco mais de meia hora do centro da cidade mas que parece distar mil e uma milhas da capital da Irlanda - até porque os transportes, tirando os táxis, são falhos, e aqui em  Dublin depressa se assimila a tabuada do tempo: As distâncias não se medem em metros, mas em minutos
Ainda sem sair das distâncias, abandonando por meros momentos a matemática dos minutos, termino a dizer que, durante estes dias, voltei a Portugal. Devidamente protegido pelos meus pais, à semelhança da infância. Digo, com a de-vida distância. 

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Volta ao Mundo, Via Canadá e Coreia III


Gyeongbokgung - Seoul, Vitor Vicente, Dezembro de 2012

Antes de mais nada, ainda no ar, ou no tão no ar que se pode estar quando aceitamos estar num avião, enfim, acima de tudo e antes de mais nada, os divinos Noodles. Cujo cheiro (curioso, o primeiro contato costuma ser dado pelo olfato) me abriram os olhos adormecidos e mos arredondaram até ficarem em bico – e ainda me puseram em estado de extâsia até encontrar o tripulante que me restituísse o copo a que tinha direito com os belos dos Noodles a boiar lá dentro.
A seguir, já nessa mega cidade que é Seoul, os neons. A anunciar comida, massagens e outras indizíveis coisas que eu sei lá e que só se leem em Seoul e em cidades asiáticas que, aos olhos estrábicos dos europeus e aos ciclopes dos ocidentais continentais, parecem sempre afins. Os neons que, tal era o predomínio da noite sobre o dia, davam a ilusão de se reproduzir. De crescer, de se multiplicar que nem cogumelos. Quanto mais se multiplicavam, maior o mistério. Dir-se-ia que as letras dos neons eram um alfabeto. O alfabeto do absurdo.
Não a seguir, mas sim sempre, sempre, a neve. A cair na cabeça, no corpo, na cidade toda. Nesta Coreia e na outra. Nem conseguia pensar como seria na outra Coreia, o cair da neve em cima das pessoas que têm a cabeça e o corpo todo a descoberto pelo frio e pela fome. A neve não nos deixou ir à fronteira. Mas deixou-nos andar calmamente pela cidade. Como se a neve nada fosse. Como se não houvesse caminho que nos levasse  para fora desta terra nevada. Aconchegante e abençoada.
Quais luzes de Natal e pistas de patins em New York, qual quê? Os intermitentes neons e a inesperada neve da Coreia, isso é que é.
Mais sarcástico que isso é ter chegado a Coreia vindo do Canadá. E da Coreia voltar para o Velho Continente. Com a indiferença altiva de quem cataloga todo e qualquer acontecimento mundano - desses que abrem noticiários, se repetem e repetem no rodapé e fazem manchetes e se discutem nos quiosques - como meros atos de cumprir calendário.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Volta ao Mundo, Via Canadá e Coreia II

Beautiful British Columbia - Canadá, Vitor Vicente, Novembro de 2012


Aspirado o cheiro a cidade, avistadas as montanhas e o mar da janela do quarto, eis que chegam os amigos. Vêm-nos buscar.
Levam-nos a Granville Island, Stanley Park, Jewish Community Centre, não necessariamente por esta ordem. Nos entretantos, paramos junto de um porto e para um tenro pequeno-almoço.
Tudo isto a caminho de Whistle. Caminho celestial, à beira das brumas. Como quem navega entre nuvens e, à medida que sobe a colina, se sente crescer. Até atingir a frágil condição colossal do glaciar.
No banco de trás, eu e a minha. Ao volante, vai ele. Ao lado, vai ela. Ele ilhéu, logo autista e errante, logo aéreo. Ela expansiva e afetiva que nem uma estrela. A de David, claro está. Juntos têm quase trinta anos de casa às costas. Canadá acima, Canadá abaixo.
Eu, mais indolente que um ilhéu e mais insolente que um moço dos trópicos, eu no banco de trás, que nunca habitei os capots com ou sem tejadilho senão afundado no banco de trás, eu a conjugar, em silêncio como quem reza, o verbo onde na minha e na pessoa da minha princesa. A tentar metamorfosear o onde e o quando na medonha palavra do mundo. No futuro mais que imperfeito deste mundo e do outro.
Posto isto, postulados aquele e o outro, chega-se a Whistle. Vê-se e ouve-se neve. Não à séria, como dias depois sentiu-se em Seoul. Só que aqui temos os amigos e a solidão. É sempre assim. Seja em Seoul, seja em Vancouver.
Voltamos a Vancouver que foi de onde, afinal de contas, tínhamos acabado de chegar e, daqui a pouco, teríamos que partir. Nada mudou, porque nada mudou por termos chegado, nem mudará por termos partido. O cheiro a cidade continua por cá, a muralha de mar e de montanhas também. Assim como o viveiro de junkies no centro da cidade.
Despedimo-nos dos amigos com a promessa de nos voltarmos a ver do lado de cá do Canadá. Sabemos que, independentemente das itinerâncias, a único porta interdita é a de saída do coração. Sabemos isso por a única certeza é saber-nos sós.
 

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