sábado, 12 de novembro de 2011

Com a de-vida distância IV


Bandeira Portuguesa no dia da final da Liga Europa - Dublin, Vitor Vicente, Maio de 2011

Comiamos castanhas como quem come pop corn. Podíamos até chamar-lhes de pipocas sazonais. Sabíamos que só as podíamos ter ali e agora, que logo esse sabor iria embora. Um sabor que se evaporava, volátil, como a própria vida. Que, um dia, seria levado para longe, por um qualquer vento e para uma qualquer terra que não conhecíamos e para onde nos apetecia partir.
Era um cheio que viajava no tempo e no espaço. Um cheiro viajável como uma sala de cinema. Como o cheiro das castanhas assadas que, hoje, voou até Dublin e me fez ter saudades dos doces finais de tarde, às Sextas e em Lisboa.
Ainda não sabia ao certo o significado do Shabat. Ainda não atribuíra uma cor a cada cidade. Na verdade, ainda não começara a conhecer cidades. Nem pensara que, algum dia, perderia a paciência por haver pouca paleta para tanto mundo. Ainda não conotara cada cidade com um cheiro.
Mas hoje cheguei a Lisboa através do cheiro. Ou melhor, no nevoeiro do carro do assador de castanhas de Joshua Benoliel. Não me resta outra maneira de voltar senão estas manhãs messiânicas e sebastianísticas. Vivo encoberto, vivo exilado. Com a de-vida distância.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Ir à Índia II



Ter que tirar o visto transforma toda a ideia da viagem. Não só quando o visto é tirado à queima-roupa, à chegada ao aeroporto. Sobretudo, quando o temos que tirar, com antecedência, antes ainda de apanhar o avião. Aí, a adrenalia sobe.
Sobe-nos o sangue. A embaixada surge-nos como o nosso primeiro passo nesse país que, embora dado o primeiro passo, não pisámos - ainda. O passo dado não é mais do que um passo falso.
Tiradas as medidas, medidas as intenções, lá nos darão o visto de entrada. Para nos lembrar que existem fronteiras, de facto e gravata. O pessoal da embaixada parece meio parado no tempo, ou saído de uma novela de Franz Kafka. 
No tempo de Kafka, ser aceite pela alfândega americana significava abrir a porta da terra dos sonhos. Há cinco séculos, na Pérola do Atlântico, partia-se para descobrir Índias. Eu  vou atrás da ventura dos meus antepassados. Já só sei ir em frente via revivalismo revitalizado.  

domingo, 6 de novembro de 2011

Variações sobre Velhas Viagens VI


Banco de troncos - Central Park de Nova Iorque, Vitor Vicente, Abril de 2011

Os idiomas revelam muito da personalidade dos povos. Os alfabetos fonéticos vão mais longe, mais fundo, até à alma. Abrem a alma, deixam-nos em contacto directo com ela, sem interlocutores, nem intermediários.
Neste sentido, encontro-me um pouco limitado para conhecer os povos. Tenho que me limitar aos três idiomas que falo e que me são minimamente familiares.
Primeiro, aquele que me é mais próximo: o Português. Considero macabro, de mau gosto o D de Dafundo. Preferia o D de dado. Seria perfeito. Como o E e Évora, que salienta a letra em todo o seu esplendor. De resto, o nosso alfabeto fonético mais parece um comboio regional. A de Aveiro, C de Coimbra e por aí fora - até ao V de Viseu. Para não falar que os lisboetas dizem P de Portugal e os portuenses dizem P de Porto.
O mesmo se passa com os espanhóis. M de Madrid, B de Barcelona. Só não sei se os catalanistas ou o bascos já encontraram alguma alternativa politica para E de España. Numa coisa, disso estou certo, é que são unânimes no N de Navarra. Mas alguém mais senão um espanhol nativo se vai lembrar de N de Navarra?
Já o Inglês, ou o também tido por Internacional, também tem os seus regionalismos. R de Romeo, J de Juliette. Ou será que Romeu e Julieta devem ser considerados personagens cosmpolitas? Fica lançada a questão. Eu cá gostava de ouvir C de Camões ou E de Eça de Queirós. E por que não? Já ouvi dizer "Y de Nova Iorque, mas só o Ypsilon". Como se não houvesse uma cidadezinha no Reino Unido chamada York. Como se só existisse Nova Iorque, se todos nós fôssemos Nova Iorque.

P.S. - Pode não parecer, mas este post é para provar a omnipresença de Nova Iorque nas nossas vidas. À leitura das almas através do alfabeto fonético voltaremos mais tarde. Até lá, pode ser que o País de Gales comece a mandar no mundo e alguém ouse dizer "G de País de Gales, mas só o G".

Com a de-vida distância III

Na Noite da Transilvânia - Cluj-Napoca, Vitor Vicente, Janeiro de 2009


A amizade é à prova do tempo. Não importa por quanto tempo estejamos distantes, nem a diferença horária entre a terra onde cada um ergueu a tenda. Os amigos não se medem aos fusos. Os amigos estão sempre lá, na hora H.
Os amigos vivem sempre na mesma franja horária. Mesmo quando estão longe, mesmo quando estão ausentes. Entres estes últimos, incluem-se também os mortos.
Mas não é hora de falar da morte. A morte já é uma certeza, mesmo quando para a farra não é chamada. É hora de falar do Facebook, de como essa ferramenta social nos permite acompanhar o movimento contínuo e ininterrupto do mundo através das actualizações dos nossos amigos.
Pensamo-nos o centro do mundo. Pensamo-nos e, num certo sentido, somos o centro do mundo. Pelo menos, o centro do nosso mundo. Como os outros serão o centro do seu mundo. Auto-centrados, todos contentes com isso, como se fosse um título, um estatuto, consideramos que uns vão à frente e outros ficaram para trás. Nós cá, no nosso canto, estamos posicionados no meio. Privelegiados, claro está. Vemos alguns amigos a preparem-se para ir para a farra enquanto outros acabam de acordar da farra anterior. Mais tarde, somos nós que estamos com pé e meio na party, enquanto outros desaparecem com mensagens de boa noite e outros vão publicando notícias sérias e lúcidas.
Compreendemos que a viver é um acto cíclico. Que os amigos vão e e vêm, em consonância com o movimento do mundo. Haja maré vazia de amizade ou dêem corpos de amigos à costa, nós assistimos a tudo com a de-vida distância.
 

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