sábado, 5 de novembro de 2011

Viagística VI

Berlin - Porta do Metro, Vitor Vicente, Novembro de 2009

Aparentemente, o cenário é o de sempre. O mesmo autocarro, à mesma hora, a transportar a mesma massa de passageiros.
Só que é Sexta. À Sexta de manhã, todos os passageiros brilham por se encontrarem prestes a terminar outra viagem de cinco dias. 
Mais ainda aqueles para quem o fim desta viagem marca o início de outra. São facilmente identificáveis por trazerem trolleys. Junto deles, todos apetrechados com objectos alados e com rodas, sentimo-nos passageiros pequenos e menores, passageiros faz-de-conta, de segunda categoria.
Desconhecemos o seu destino. Invejosos, imaginamos. Imaginamos até ao infinito. Levam-nos para longe. Agradecidos, perdoamos.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Variações sobre Velhas Viagens IV

Nova Iorque - Broadway, Vitor Vicente, Abril de 2011

É de comum conhecimento que o clássico "O Fantasma da Ópera" passa-se em Paris. Só que na minha cabeça a acção passa-se em Nova Iorque, em pleno e sujo século XXI. Sem damas nem nenhum dandy que as corteje, nada.
Comprei este livro em Dublin, é certo, alguns dias antes de voar para os Estados Unidos. Contudo, é como se o tivesse comprado do outro lado do Atlântico, como se sempre que o leio eu volte a estar na Big Apple, como se a América fosse um cerco e de nunca de lá tivesse saído.
Assisti a "O Fantasma da Ópera" na famosa Broadway. A rua (há quem lhe chame bairro) foi uma decepção. O espectáculo não. Para começar, a encenação - esplendorosa. Depois, uma acústica tremenda. Num nível de envolvimento que só os americanos poderiam executar. Ainda hoje ouço ecos desse espectáculo. Chega-me até a custar concentrar-me na leitura do livro de Leroux.
Na verdade, o meu livro já nem é o livro de Leroux. É o livro que me faz voltar a viajar por Nova Iorque. É que cada exemplar de cada livro é único e irrepetível. Como a vida. Como D`us. Como tudo o que participa da essência do sagrado.

Que horas são em Haaretz? II


Jerusalém - Porta de Sião, Vitor Vicente, Setembro de 2010

Trocaram o jovem soldado Shalit por mil prisioneiros palestinos. Seja. Há que honrar o preceito de salvar uma vida humana. Sempre.
Só que, mais do que mil facínoras à solta, Israel acabou de dar ideias a alguns países árabes. Ocorreram-lhes artimanhas como capturar uns soldados. Para mais tarde, pedi-los para a troca. Como os cromos das cadernetas que trocávamos, quando éramos crianças.
Parece brincadeira, mas a Palestina passou a pertencer à Unesco. Um pequeno passo para a independência, um grande passo para os islamistas estarem mais perto de poder destruir Israel.
Mas essa manobra ninguém viu. Nem que Shalit chegou pálido e magro diante das câmaras e que as suas primeiras palavras foram a pedir paz. Isto enquanto os palestinos foram soltos em carrinhas da cruz vermelha e, mal chegaram a casa (digo, a Gaza), gritaram que a luta (armada) e a guerra continuam. Isso também ninguém viu.
Nem que o Avante acabou de apontar os sionistas e os states como os responsáveis pela crise mundial. Na verdade, ninguém lê o Avante, a não ser nas capelas da foice vermelha. Menos lida ainda é a coluna de poesia do dito jornal. Quem gosta de poesia não abre o Avante e quem o abre não tem cá pachorra para os poetas, esses preguiçosos que nada fazem em prol de nada, que é como quem diz em prol do proletariado.
Só a poesia pode salvar Sião.

Com a de-vida distância II


Brasov - Cárpatos, Vitor Vicente, Janeiro de 2009

Enquanto vivi na Catalunya, viajei duas vezes com os meus pais. Uma a Amsterdão, a outra entre Paris e Bruxelas. Alguns colegas espanhóis tentaram convencer-nos a não querer conhecer a capital do continente: "Por que no te vas a Brujas?". Repeti: "Brujas?". Eles insistiram: "Si, tio. Brujas. En Belgica.". Pareceu-me ter percebido e dei uma palpite: "Ah Bruges!". E assentiram: "Eso es.". Só então entendi os espanhóis.
Entretanto, já entendera que o Halloween quase não existia em Espanha. Espantei-me. Em Portugal havia um crescendo de celebrações. Pensava eu que assim era em toda a Europa. Em Dublin toda a cidade o celebra. Durante dias. Como um Carnaval, com direito a traje a rigor e tudo. E em tudo o que é pub, nightclub e até restaurantes.. Em Barcelona "la noche de las brujas" passa em claro, excepto às discotecas dark e alguns pontos nocturnos pontuais.
O Halloween é melhor medidor de anglofilia. Quanto mais anexados à América, mais efusivos são os festins das abóbaras e afins. Além da América, todos os países anglófilos o comemoram com pompa e circunstância. Depois estão os países que, como Portugal, estão convencidos que tudo o que fale inglês nativo é nobre. E por aí fora, até à Espanha, até aos que vivem de costas para a civilização, como Cuba ou a Coreia do Norte.
O Halloween está para os Estados Unidos como o Carnaval para o Brasil. Já imaginaram como seria o impacto de um exército de vampirosos em Habana ou um desfile de mulatas no reino igualitário de Kim?
Eu não. A minha viagem foi outra. Deu-se no único club gótico de Dublin. Sempre que aterro num gueto deste cariz, não importa em que cidade, sinto que estou em Lisboa, que recuei aos anos idos e alcoólicos da adolescência. Sou então capaz de gestos e atitudes que supunha enterrados dentro de mim. Surge-me um monstro no meu próprio corpo. Eis o mais autêntico assombro de Halloween, eis-me a ter medo de mim. Eis-me a viver Portugal com a de-vida distância.
 

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