terça-feira, 25 de outubro de 2011

Variações sobre Velhas Viagens I


Vladivostok - Fim de Tarde, Vitor Vicente, Setembro de 2009

Assim que marco uma viagem, assim que, ansioso, começo a contar os dias no calendário, tenho também por hábito (sou homem de hábitos, de rotinas e rituais, mas essa é outra história..) consultar as previsões metereológicas para o dito destino. Mesmo que as previsões não alcancem mais do que os próximos dez dias e a data de aterragem esteja para além desse período.
Outro tique diletante - ou, se quiserem, outro anti-tédio - consiste em, nas mesmas páginas web, consultar previsões metereológicas para as cidades que, certo dia, visitei. É a minha maneira de poder voltar a vê-las. Tromso, Vladivostok, San Carlos de Bariloche são as mais recorrentes no meu itinerário de viagens a bordo das nuvens, às arrecuas.
O clima é o mais abstracto de uma cidade. Contudo, é a coisa mais concreta. É uma realidade inalienável, porém contornável. Poder-se ia dizer que existe como existe D*us - que o clima chega às cidades como um enviado de D*us.
Só conhece o clima aquele que pelo clima se fascina.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Diáspora de Dublin II



Belfast - Bairro Católico, Vitor Vicente, Outubro de 2011

Nada melhor do que atravessar a fronteira (outrora, fronteira de fogo) entre a Irlanda e Irlanda do Norte para pôr à prova o quão vão pode ser viajar para ver que tal se vive do lado de lá.
Um dos principais problemas da Irlanda, segundo os queixumes mais quotidianos, é ser uma ilha. Mas antes de virem para cá, pergunto-me, não sabiam? Não pensaram bem nisso antes de aqui assentarem arraiais? Não se deram nem ao trabalho de abrir um Atlas e tirar metade da tarde para estudar um pouco de Geografia? Numa ilha, o isolamento é encanto e magia - é auto-recriação, vertiginosa e contínua. Boring?, só para quem não sabe o que é ser (nascer) animal de arquipélago, animal em vias de extinção desde que a espécie descobriu formar uma sociedade e obrigar-nos a ganhar a vida como um bicho gregário.
Como se não bastasse o facto da Irlanda ser uma ilha - e, assim sendo, não se poder pegar no carro (há pessoas para quem as possibilidades de viajar se resumem a estar ao volante) e ir para o próximo país -, como se não bastasse isso da condição de ilhéu, e ainda acresce que é logo uma ilha e homogénea. A paisagem de qualquer cidade irlandesa é invariavelmente de povoada de paddys, pubs & pints. E o verde, sempre o verde. Na capital ou no country side, tanto faz.
Belfast, lá no Norte, não destoa, não é tão diferente. O centro, é certo, não envergonha qualquer cidade europeia. Só que, mal se dá dois passos, logo ao virar da esquina, começa o festival de fábricas e de armazéns que normalmente se encontra nos arredores. Entre os bairros católico e protestante, mantém-se o muro, agora aberto, farpado e tudo. Tudo, tudo incluídos os grafitis a pedir paz e os memoriais em honra dos mortos, tudo parte do folclore turístico que teima em não trazer curiosos à cidade. As mensagens nos muros parecem, ainda hoje, pintadas de fresco. E o cheiro a sangue, sabemos bem, continua a afligir muito boa gente.
De resto, para quem vem de Dublin, Belfast não é nada de surpreendente. A noite despe-se a rigor, com o troc troc torto que marca o ritmo das ruas do Temple Bar. Não, não estou a reclamar. Tenho aprendido a aceitar. Em Belfast, assimilei que, não importa de que lado da fronteira, somos todos filhos do fogo e que, um dia, seremos consumidos em cinzas comuns - que somos todos o sopro do mesmo Ser.

Viagística II

Huedin - Roménia, Vitor Vicente, Janeiro de 2009

Não se aborreça. Abençoe. Abrace o céu, sempre que chegue, parte ou caminhe por uma cidade.

Diáspora de Dublin I


Belfast - Parque do Bairro Protestante, Vitor Vicente, Outubro de 2011

Lembro-me de ter lido, num desses guias que desdizem mais do que dizem de Dublin, que esta cidade se caracteriza por toda a gente ter uma razão para se queixar da realidade do dia-a-dia.
O queixume mais audível, tão comum que se podiam constituir coros, é contra o clima - contra a "chata da chuva". Em Dublin, a chuva é parte constituinte da rotina. Faça frio ou sol de pouca dura, pode sempre, sempre estar prestes a cair uma chuvinha. Daquela tímida, titubeante, ainda assim, intrometida, que molha mais os que lhe reconhecem importância do que aqueles cuja pele se tornou já um impermeável. Hoje, no entanto, caíu (digo, desabou) uma chuvada que molhou a todos, conformados de mãos nos bolsos e ombros semi-erguidos ou eternos descontentes de praguejo na ponta da língua. Pela minha parte, como para tudo o que caia do céu, e de há um tempo para cá, nem uma palavra de protesto - acatei a crença de que o movimento do universo é regido pelo melhor propósito possível.
Outro queixume costumeiro tem como objecto os transportes. Entre duas linhas de eléctrico (há quem lhe chame de metro de superfície) que não cruzam, autocarros que, às vezes, passam pelas paragens como se não fosse nada com eles e comboios que só cobrem os bairros chic da cidade, é tudo uma encruzilhada sem nexo, em que custa reconhecer qual é o mais terceiro-mundista. Neste ponto, estou de acordo. Os transportes públicos da cidade querem-se eficientes e funcionais. Não se lhes pede que nos façam perder tempo, nwm que nos façam perder a noção de tempo. Para esse efeito, existem as escapadas a destinos exóticos, as andarilhagens a amazónias. Os transportes do quotidiano têm que ser prosaicos e ponto. É-lhes permitida alguma poesia quando ajudam-nos a fazer frente às intempéries e à tempestade. Mais ainda esta noite, em que um metro subterrânero teria sido um salva-vidas para tanta gente.
O fim de semana não foi muito melhor. Pelo menos, Sábado, em Belfast. Choveu a tarde toda. A chuva fez-me sentir em casa. Como se a água que cai do céu não fosse a mesma em qualquer parte do mundo.
 

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