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quinta-feira, 20 de junho de 2013

Via Frankfurt X

Canal Portobello - Dublin, Vitor Vicente, Junho de 2013

Há duas semanas e mais alguns dias que deixei de ser oficial de Frankfurt à distância.
Contudo, parece-me que tudo se passou noutra cidade, noutro tempo, numa realidade tão distante quanto outra reencarnação. Mas o mais estranho, diria mesmo mais espetacular, é que a rotina antiga continua lá, nada nem ninguém saíram do sítio de sempre. Nem o aeroporto de Frankfurt, nem o escritório onde eu estava em Frankfurt estando fisicamente distante.
Não guardo remorsos por ter deixado as funções de oficial de Frankfurt à distância. Tive experiências que, de outro modo, nunca teria tido oportunidade de ter durante toda uma vida. E tudo o que é inalcançável e irrepetível não tem preço ou se regateia, não tem troco, nem se troca por o que quer que seja.
A não ser por - e com isto ainda quero dizer que não me arrependo de ter sido oficial de Frankfurt à distância - por um quotidiano andante. Quanto mais andante, mais independente. Sem ninguém no teu pé ou cosido ao teu ouvido. Com poucas pressas, poucas pressões, poucos derivados da pesada palavra pessoa. 
A tudo isso, rendida e grata, a cabeça semi curva-se e agradece.
Agradece também os vinte e dois países que, em trinta meses de oficial de Frankfurt à distância, consituíram  um tão incansável quanto inimaginável périplo. Agradece, sim, mas ciente de que, antes ainda de ser staff dos ditos, já deambulara por quatro mãos cheias de nações. Trocado para números, vinte. 
O ritmo, agora, é outro. Viajo como vivo, viajo porque respiro. Não descarto que, algum dia, possa partir para outro poiso, nem  a cada tanto dar-me ao gozo nómada de adormecer nalgum lugar longe de onde acordo diariamente. 
Entretanto, tenho hoje menos margem de manobra para me mover no espaço. Em contrapartida, disponho de mais tempo para espairecer o espírito. É baseada nestas nuances que me cabe encontrar o equilíbrio entre o que disponho de espaço e de tempo e, assente nesses alicerces, simplesmente, existir.  

domingo, 16 de junho de 2013

Via Frankfurt IX

Igreja na Pedra - Helsínquia, Maio de 2013, Vitor Vicente

Sabíamos que Frankfurt, enquanto escada de ascenção às estrelas, tinha os dias contados.
Como tal, agendou-se à pressa um apressado fim de semana em Helsínquia. Naquelas condições de correria em que, há coisa de um ano atrás, fizémos da vida dois dias na Lovely Latvia.
Helsínquia, por seu lado, já sabia que era aterrar num e partir no outro dia. Se bem que, à beira do Báltico durante o mês de Maio, um dia não são dias - um dia, de tão longo e tão luminoso, são muitos dias. 
A minha carta de demissão, entretanto, já estava escrita e já fora entregue a quem cabia entregar. O relógio era agora um contra-relógio, cujos ponteiros apontavam para uma nova realidade quotidiana.
Por isso, no regresso, o aeroporto de Frankfurt acolheu-me de braços abertos. Um braço a acolher-me, outro a atirar-me para Dublin. Para que, ao mesmo tempo ficasse ciente de que o passado era um presente permanente e de que no futuro iria inaugurar a era pós-Frankfurt. 
Assim fiz. Assim, entre dentes, assumimos e, pelos ares, arrastámos a palavra fim. 

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Via Frankfurt VIII

Menorah à entrada do Aeroporto Ben Gurion - Tel Aviv, Vitor Vicente, Abril de 2013

Voltas ao mundo, dizia eu na última crónica. Mas não só, começo eu por dizer nesta. Os oficiais de Frankfurt à distância podiam tirar partido de tirar bilhete por percurso. Quer isto dizer, por cada percurso é cobrado um certo montante. Independentemente do que tende a fazer disparar uma típica tarifa, a saber o facto de se partir para um destino e voltar doutro, de se fazer uma pausa de mais de um dia numa qualquer cidade pelo caminho, ou simplesmente ter a vantagem de, a qualquer momento, poder mudar de ideias e solicitar o reembolso total de todos os voos. 
É todo um jogo de combinações em que se podiam conceber os itinerários mais inimagináveis.
Como eu já me imaginava a deixar de ser oficial à distância de Frankfurt, elaborei uma rota que tinha como  primeiro destino as Ilha Faroé e segundo Israel. Sempre com Frankfurt pelo meio, e o melhor: com Business Class para os trajetos longos. 
Quem podia imaginar que tal jornada, ir até às Faroé e voltar de Israel, nas supracitadas condições, poder-me-ia custa pouco mais de cento e tal contos de reis? Quem podia imaginar que, algum dia, eu estaria a escrever acerca de ir às Faroé e a Israel na mesma viagem?  Quem poderia imaginar que eu, algum dia, estaria a escrever com uma caneta de um hotel faroês, numa esplanada de um Pub de Dublin 4? Quem poderia imaginar que se podia desfrutar na Irlanda de uma sexta-feira solarenga, tão solarenga que nem a Smithwicks que eu bebia, nesse dia, podia sobreviver ao calor? 
Ninguém. Nem naqueles momentos mortos dos aeroportos ou naqueles momentos mais expasperantes do expediente em que nos imaginamos em todas as ilhas do Pacífico. Nem em Frankfurt, antes de embarcar para Tel Aviv e ir pela primeira terceira vez a Israel. 
Donde, alguns dias depois, voltei para Dublin. Desta vez para, finalmente, deixar de ser oficial à distância de Frankfurt.  

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Via Frankfurt VII

A caminho do Aeroporto de Incheon - Seoul, Vitor Vicente, Dezembro de 2012

Existem experiências que fazem sentido num certo período da vida. Algumas delas, como percorrer a Europa num Inter Rail ou atirar-se aos setes ventos e aos ares da Ásia por um par de meses, ficaram-me pendentes. Poderei ainda fazê-lo, mas com a agravante que o cumpri tarde e que a principal piada vai passar por isso mesmo, por ainda ter tido fôlego para curtir algo tardiamente. 
O mesmo vale para dar a volta ao mundo, à custa de meia-dúzia de mantimentos e de uns rendimentos intermitentes e obtidos à custa de um outro biscate disfarçado de trabalho.
Se bem que, para ser muito sincero, nunca consegui encarar com seriedade essa brincadeira de me desfazer do poiso, nunca me seduziu sobremaneira. Sou um bicho de hábitos, de rotinas e rituais. Sou até quadrado no meu quotidiano. Sou um chato e dou graças ao Senhor por ir ainda havendo quem me consiga aturar. 
Daí que decidi, juntamente com quem tem o condão de me aturar, dar uma volta ao mundo à minha burguesa maneira, isto é com duas paragens: uma em Vancouver, outra em Seoul, como se estas cidades fossem vizinhas e de uma para outra se pudesse ir sentado num comboio suburbano. 
Vancouver e Seoul nem são para esta crónica chamadas. Só para dizer que, como sempre, foi de Frankfurt que demos o salto para chegar à costa oeste do Canadá e foi também em Frankfurt que,enfim, fizémos uma pausa após voar da capital da Coreia do Sul.
Sempre cientes de que  Frankfurt está aqui para nos fazer chegar à frente. Para nos fazer crer que o mundo parece maior e parece menor do que quando estamos parados, que vai parecendo menor à medida que nos movemos - mas também vai parecendo maior por percebermos que, por mais que nos movamos, ficar-nos-à sempre uma parcela de mundo pendente.
Todas as voltas do mundo passavam inevitavelmente por Frankfurt. Seja como ponte para partir para longe, seja como pausa antes de voltar ao poiso. 

domingo, 9 de junho de 2013

Via Frankfurt VI

Centro financeiro de Frankfurt, Vitor Vicente, Janeiro de 2012

Lembro-me de, certo dia, ter lido numa certa e pretensa crónica de viagem que ir a uma cidade não é a mesma coisa que ir ao aeroporto que serve essa cidade. Lembro-me que primeiro imaginei uns quantos eucaliptos, a seguir já era eu uns desses eucaliptos e depois  me perguntava porque me abatiam a mim e aos meus semelhantes para se erguerem estantes e publicarem revistas com frases tão fabulosas como essa que os meus incrédulos olhos acabaram de ler. 
Já refeito da ideia de ser um eucalipto abatido, podia então começar este parágrafo e dizer que ir a Frankfurt é diferente do que ir ao aeroporto de Frankfurt. Podia ir em frente com a palermice e dizer que acompanhar meu pai e minha mãe no aeroporto de Frankfurt foi uma espécie de recuo à infância. 
Podia, pois podia. Para o bem dos eucaliptos e em nome da ecologia em geral, vou parar por aqui.
Para frisar que Frankfurt fez parte do inesquecível itinerário de uma mão cheia (cinco!) de países que visitei, durante dez dias, na companhia de meu pai e de minha mãe. 
Foi uma viagem plena. Perfeita.
Logo em Frankfurt, enquanto esperava pelo voo que vinha de Lisboa, fui tomado por uma febre de ansiedade que nunca haverá medicina tropical que consiga, algum dia, inventar a cura. Queria não só mostrar aos meus pais a cidade de Frankfurt, como o mundo que é o aeroporto de Frankfurt. Esse mundo onde desfilam todos os tipos de semblantes e trajes, onde os tapetes rolantes parecem elevar-nos até às estrelas, numa mistura de tapetes persas e tapetes vermelhos.
No regresso, quando me despedi de meu pai e de minha mãe junto à porta de embarque para Lisboa, foi como se não estivéssemos mais no aeroporto de Frankfurt, mas no próprio aeroporto da Portela. Tal como todas as vezes que parto de Portugal em direção a Dublin, também não foi em Frankfurt que fomos capazes de aprender e de dizer a palavra adeus.  

sábado, 8 de junho de 2013

Via Frankfurt V

Casamento em Jaipur para o qual não fui convidado, Vitor Vicente, Novembro de 2011

Ir à Índia era algo que, agora que era oficial à distância de Frankfurt, já não era inimaginável. Já imaginar que iria de viagem na companhia doutros oficiais, no caso dois franceses, jamais me passara pela cabeça. Na verdade,  ir à Índia acompanhado ou a qualquer outro lado, sempre me pareceu irreal. Mais depressa me vejo a ir sozinho às Índias deste mundo e do outro do que ir com quem que seja ao café (em dublinês diria pub) da esquina.
Como devem calcular, nunca concordei (nunca fui de concordar) com a ideia de que três cabeças pensam melhor que uma. Estou até convencido de que uma cabeça iluminada está sujeita a ser decapitada, quando posta em confronto com cabeças ocas. Não quero com isto reclamar possuir uma cabeça iluminada. Quero apenas deixar claro que foi às escuras que as ideias para a Índia se imiscuíram, se amontoaram, e assim o plano inicial acabou algo atabalhoado, mais feito de atalhos e de retalhos do que de programas e de prioridades.
Muito havia para contar sobre a ida à Índia, na companhia de dois franceses, um dos quais de traços indianos e que era confundido com os locais a toda a hora.
Mas o foco que nos toca, nesta hora de restrospetiva, é Frankfurt. (Sobre o fiasco que foi a Índia, já por aqui barafustei que baste.) 
Chegámos a meio da manhã ao aeroporto de Frankfurt. Durante o tempo de espera (uma mão cheia de chatas horas) para o voo com destino a  Deli, fomos reabastecer o estômago no Starbucks do hall de desembarques. No meu caso, socorri-me de um scone sêco, que é como se querem os scones e quem como eu nunca conseguiu desertar do deserto, e um capuccino que, tivesse eu a arrogância anacrónica dos italianos que ainda não entranharam a derrocada do império romano, teria deixado muito a desejar. Já os franceses, claro que marfaram croissants, depois de apontar para as sandochas cheias de molhos e merdas que designaram de iguaria para irlandeses.
Na volta, já não de Deli, mas vindos de Bombaim, só deu tempo para que eu e o francês francesíssimo mudássemos de avião e seguíssimos viagem de volta para Dublin. Já o francês índico foi acabar as férias com a família, para Paris. 
O melhor de tudo isto (Índias, scones de Frankfurt, franceses) foi ter voado, tanto na ida como no regresso, em Business Class. Banquete a bordo, cognac e champagne à discrição, dormir e só acordar para dizer que não querìamos comer mais nada, não.  A comida na Índia  também era excelente. Uma viagem menos para os olhos, mais para a barriga. Uma viagem para testar o estômago. Para o lembrar que há muito boa gente que trava uma luta permanete para mater a fome, antes que a fome os mate. 

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Via Frankfurt IV


Anúncio da Nike com Cristiano Ronaldo - Macau, Vitor Vicente, Setembro de 2011

Se por um lado os bilhetes para os Oficiais de Frankfurt estavam sujeitos à disponibilidade de lugares, por outro eram muito baratos. Mais baratos ainda eram - quando  comparados com o preço de venda ao público - os bilhetes em Business Class. Podia-se também dar o caso - pode acontecer muita coisa em viagem, sobretudo se se viaja com bilhete staff - de se ter bilhetes em económica e, por esta classe se encontrar cheia, receber-se um upgrade por cortesia para Business. Ou o contrário, como foi o caso em questão.
Vamos descer à terra, pois é em terra que acabei por ficar. O voo para Hong Kong estava completamente lotado. No embarque, os colegas aconselharam-me a tentar ir via Munique. 
E lá fiz eu a ponta aérea alemã, estendido ao comprido na fila da saída de emergência, enquanto roía uns amendoins e as unhas que não tenho. 
Em Munique, tal como em Montreal, tive que esperar até à ultima. Esperei sentado, ao lado de outro stand by, que era namorado de uma hospedeira da United Airlines, que tinha vindo dos States para Singapura, com o objetico de assistir a uma prova de Fórmula 1 e que ia tentar usar Hong Kong como escala para o destino final. Era normal o pessoal stand by confraternizar cinicamente junto às portas de embarque, a fim de fazer perguntas-chaves (para que companhia trabalhas? há quantos anos? és piloto, cabin crew ou quê?) e assim averiguar quem estava à frente de quem em caso de escassez de lugares. 
Como eu era oficial de Frankfurt, ainda que à distância, acabei por entrar primeiro que o meu colega. 
Dentro do avião, já quase a aterrar, reencontrei-o e trocámos aquele sorriso cúmplice que, traduzido em palavras, era algo como "conseguimos que este pessoal, entre celebrações toscas do October Fest, nos desse um lugarzinho a bordo".
Muita coisa acontece a quem viaja com um bilhete patrocinado pelo aerofício.
Muita coisa se sonha. Muito sonhei eu enquanto marcava e remarcava bilhetes para aqui e para ali. Muita coisa sonhei nos períodos mortos do expediente. 
A Ásia era agora a porta aberta para um sonho imenso. Após ter estado na Ásia, o mundo nunca mais me foi o mesmo, a noção de nação nunca voltou ao sítio. 
Só ficou Frankfurt. À espera que eu dividisse os meus dias por Hong Kong, Macau e China, à espera que   eu só aceitasse voltar de viagem, se me fosse permitido começar a ver da próxima viagem. 

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Via Frankfurt III


Centro da cidade de Frankfurt, Vitor Vicente, Abril de 2011

A minha primeira viagem enquanto oficial de Frankfut à distância foi a New York. Antes de ver o mundo, quis conhecer a cidade que serve de modelo ao mundo inteiro, incluindo aquelas cidades-contra, que se constroem à imagem e dessemelhança,numa palavra, às avessas, das modas americanas. 
Apanhei um voo direto de Dublin. Não tive problema algum para passar a alfândega americana. No caso, bastava passar a alfândega ainda do lado de cá do Atlântico, antes ainda de chegar à América, em pleno aeroporto de Dublin. Tanto assim que, ao aterrar no aeroporto JFK, os passageiros vindos da Irlanda só precisam de levantar as malas no terminal de voos domésticos. Como se, em vez de Dublin, tivessem partido de Dallas ou de Detroit.
Mais chato foi passar o controlo policial do aeroporto de Montreal. Demorou quase tanto tempo quanto demorara o voo de New York até ao Quebec. Ainda me lembro de um passageiro americano que se queixava disso e se queixou também disto e também daquilo durante o voo, que todo ele era queixume o tempo todo. Um daqueles americanos que eu - que considero comportamento de anta o dos anti-americanos primários - considero obtusos e quadrados, americanos até ao absurdo.
Estivesse eu pouco acostumado a viajar com bilhetes staff (leigos, leiam bilhetes stand by que custam tuta e meia e que só se traduzem em embarque quando há algum lugar vago) e muito teria refilado por, ainda em Montreal, ter esperado até à última para me darem o cartão de embarque para Frankfurt. Onde, depois de dez horas de voo, não entrei na primeira partida para Dublin. O que me custou dez horas extra de viagem, agora de espera pelo voo seguinte para a capital da Irlanda.
E lá fui eu a Frankfurt. Que não é propriamente a cidade dos sonhos, mas a cidade onde se consegue sonhar com todos os sítios. Parei um pouco na praça principal, entrei na Catedral. Em Frankfurt, enfim, fiz uma pausa para respirar fundo o ar continental.
E entranhar que ir da Europa para a Irlanda e vice-versa parecia-se a um voo inter-continental. 

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Via Frankfurt II


Shabbat em Jerusalém, Vitor Vicente, Setembro de 2010

First time in Frankfurt, I mean, in Frankfurt Airport...foi...longa história.
Foram as minhas primeira férias, desde que começara a trabalhar em Dublin, num escritório execrável. As primeiras férias, mas não a minha primeira viagem. Pois já antes a febre de viajar me levara a um fim de semana a Londres e outro à Noruega. 
Desta vez, não eram dois dias, mas dez. Depois, conforme confessara à minha mãe, encontraria emprego. Entenda-se a promessa, se é que é passível de haver quem encaixe esta: assim que voltasse de viagem, já teria trocado de escritório.
Comecei a trocar  antes, ainda estava em Israel. 
Estava em Jerusalem, debaixo de uns trinta graus que, ao fim de meia dúzia de meses em Dublin, já me pareciam desajustados ao meu dia-a-dia. Sem como conseguir fazer frente ao calor, enquanto a tarde caía, decidi dedicar algum tempo à Internet. Visto o email e a feira de vaidades do Facebook, ocorreu-me espreitar algumas páginas de empregos na Irlanda. Numa delas estavam à procura de Oficiais de Frankfurt à distância, digo à distância de Dublin.
Primeiro, fiz uma pausa para pensar. Depressa concluí que seria preferível não conseguir ir à entrevista por não estar no Èire do que nem sequer concorrer. Sempre preferi ficar fodido pelo que faço do que por aquilo que deixei de fazer. 
Pensado e feito isto, recebi imediatamente uma resposta escrita a pedir um contato telefónico. A que, por sigilo, respondi apenas que estava a viajar no Médio Oriente, sem telefone e que voltava na Segunda Feira. (Era tipo Quarta ou Quinta.) 
Nisto, pediram-me o contato do hotel. Que, não fosse o anti-semitismo tecê-las, me recusei a dar. Desolado, voltei ao quarto, onde deixara o telemóvel que, até então, não apanhara rede e que, vá lá saber-se como, voltara a estar ativo e registara as chamadas perdidas dos recrutadores. 
Corri para os computadores do hotel e pedi que me ligassem de novo. Tarde demais para que me ligassem hoje. Mas cedo para marcar uma entrevista para o dia seguinte, em que já estaria em Tel Aviv.
Dois dias depois, feita a entrevista telefónica horas antes do Yom Kippur, parti de Tel Aviv para Dublin, com paragem no aeroporto de Frankfurt. Dois dias depois de aterrar em Dublin, pedi a demissão do escritório execrável para assumir as funções de oficial de Frankfurt à distância. 

domingo, 2 de junho de 2013

Via Frankfurt I


Iron Bridge - Frankfurt, Vitor Vicente, Janeiro de 2012

Para dizer a verdade, nunca se pôde denominar de viagem. A não ser que force muito, só nesse caso, me posso referir às vezes que estive em Franfkfurt como a uma velha viagem.
É por isso que, em vez de ser parte da série "Variações sobre Velhas Viagens", este post dá o pontapé de saída de uma outra série. Será, sim, o primeiro do que chamarei de "Via Frankfurt".
O primeiro que, como querem os cabalistas, assinala o fim - o fim das viagens via Franfkfurt. Sejam por Frankfurt como trampolim para todos os sonhos, sejam por Frankfurt como  plataforma onde fazer uma pausa e lembrar que todas viagens têm  um regresso à realidade da rotina. 
Rotina que, de hoje em diante, deixará de ter com Frankfurt no horizonte.
Durante dois anos e oito meses, trabalhei à distância (à distância de Dublin) com o aeroporto de Frankfurt. Dadas as distâncias físicas, assim como o frio que daí advém, não guardarei desse aeroporto o mesmo carinho que guardo do aeroporto de Barcelona, onde trabalhei (fisicamente falando) durante dois anos. 
O aeroporto do Prat, que é como é conhecido o principal aeroporto da Catalunya entre os cromos aeronáuticos, tornou-se-me todos os aeroportos deste mundo e do outro. Especialmente os aeroportos espanhóis, onde, sempre que aterro e ouço qualquer gravação de aviso aos passageiros, volto a ter os vintes e tais anos que deixei de ter há um par de meses. 
O aeroporto de Frankfurt vai-me ficar, enfim, como a porta de embarque para as estrelas. 
Mas deixemos as estrelas e, de momento, fiquemos em Frankfurt. Essa escola onde aprendi que há mais mundo do que o mundo que vinha no mapa nas aulas de geografia, que há mais mundo do que pensava mas que isso não quer dizer que o mundo seja  maior do que nos ensinaram. Que todo e qualquer sítio é sempre um fim ficticio, mas sim o princípio doutra coisa qualquer.
Até quando, sem o saber, vindo de Tel Aviv, vinha também a caminho de me tornar oficial de Frankfurt. Mas essa é outra história. É para aqui chamada para dar o mote ao próximo post
 

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