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sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Variações sobre Velhas Viagens XVIII

Anoitecer na marina de Tórshavn - Ilhas Faroé, Vitor Vicente, Abril de 2013

As Ilhas Faroé são, simultaneamente, umas ilhas inócuas e fodidas. Enquanto lá estamos, parece que não se passa nada. Quando na verdade, quer o queiramos, quer não, o tempo passa. Isto é, o nosso tempo. Pois o tempo das Ilhas Faroé, tal como o de todas as ilhas, é um tempo imenso e infinito. 
E o pior é que, findo o tempo que nos coube nas Faroé, há lugares no mundo que nos hipotecam. Esses lugares, é certo, existem. Como possibilidades tão plausíveis como o Pub ao virar da esquina. Mas não nos apetece. Em poucas palavras e muito simplesmente, ao pé das Faroé não são nada.
É então preciso dar um tempo preciso ao tempo. Precisamente, o tempo para que tudo volte a ser precioso. Até ao dia em que não tenhamos presente mais do que uma memória desfocada das Faroé e possamos voltar a desfrutar do que, no momento, relegamos para a segunda divisão dos verdes arquipélagos.
Até lá, as Faroé serão sempre o lugar tão fantástico como as cidades que só se podem ler nos livros ou só se passam na cabeça daqueles que olham o mundo à luz da lombada. 
No fundo, as Faroé ficarão no  álbum da memória futura, lado a lado com as fábulas e contos feéricos da infância. Senão o mesmo que o próprio período da infância.
Se as Faroé podem aspirar a ser algo figurativo, podemos dizer que são um farol que ofusca todos os oceanos daqueles que já não sabe para onde se virar, nem tem para onde viajar. Um farol  que nos diz que somos pouco mais que nada e tão frágeis como um náufrago. Que nos recorda que todos os regressos são irreais.
Após as Faroé - novamente, à semelhança da infância - só nos resta ir em frente. Não há modo de mandar parar o mundo. Às escuras, avançamos. Sem que, alguma vez, tenhamos pedido para começar, nem nos tenham explicado que tudo isto teria um fim.  

terça-feira, 23 de abril de 2013

Variações sobre Velhas Viagens XVII

Baía de Vancouver, Vitor Vicente, Dezembro de 2012

Volto a Vancouver, donde sonhei nunca mais sair, desde o dia em que a visitei e, não fosse a distância e a idade avançada do meu país (digo, trocando o acento aos is, dos meus pais), lá quis fazer vida, construir um qualquer atabalhoado quotidiano que, enfim, me permitisse ver as estrelas encimar as montanhas através da janela de um escritório qualquer.
Volto a Vancouver via um livro de Malcolm Lowry. Volta-se sempre a vagamundear, volta-se sempre a algum lugar quando se lê Lowry. Mais não seja ao nenhum lugar que ocupa o inglório saber daquele que tem um alcance cerebral que vai mais além de abrir uma lata de conservas ou assar umas sardinhas. Esse nenhum lugar ambulante e amaldiçoado. Algo entre o embriagado e a estrela cadente. Algo assim, semelhante a um nenhum lugar sem espaço e de espírito transpirado.
Parece que o conto em questão, "The Bravest Boat", tem como cenário a baía de Vancouver. Onde Lowry viveu durante uns tempos. Tempos tão atordoados quanto os que passou na Sicília. Quase tão atormentados quanto os que decorreram no México, de Tequila e ceroulas na mão. 
Ao fim e ao cabo - que no caso não é mas bem podia ser o cabo das Tormentas - tanto faz. Este barco pertence à mesma frota de "O Barco Bêbedo", do timoneiro Arthur Rimbaud. Ambos podiam navegar nestas águas, como nas águas do Alaska, ou até Cote d`Azur.
Mudam-se as águas, arrancam-se as páginas do calendário. Mantém-se o desespero diário. A água, quando alguém se quer afogar, é mais da mesma em qualquer parte do mundo. Serve aquele que aspira se asfixiar, serve para quem quer simplesmente estar submerso. Água para naufragarmos em menos que nada. Para subirmos à superfície sob a forma de carcaça carcomida. Para voltarmos a Vancouver sem termos que atravessar o Atlântico. 

domingo, 17 de março de 2013

Variações sobre Velhas Viagens XVI

Carruagem do Metro de Seoul, Vitor Vicente, Dezembro de 2012

Bem sei que o meu bairro é aquilo a que se costuma chamar não o mundo, mas um mundo. Mas daí até dar uma dúzia de passos e achar-se na Ásia é salto que só me poderia apanhar de surpresa - mesmo que me apanhasse naqueles sonhos profundos e profusos que só temos de olhos abertos e a deambular.
Convém confirmar que a paisagem de Dublin, à imagem e semelhança de toda a Irlanda, está predominantemente povoada por Pubs. A maior parte são Pubs parecidos uns com os outros,  parentes uns dos outros, primos uns dos outros. Depois, como em tudo neste mundo de cópias e baldrocas, há sempre os outros. Os que, à revelia e à rebeldia, se tentam demarcar com a elegância dos dandys. No meio desta barafunda, há o desespero das pessoas que querem encontrar por aqui uma cafetaria como há no Velho Continente. E há ainda espaço para o desespero andante da pessoa que gosta de Pubs Irlandeses e de Cafetarias charmosas e clássicas e que não encontra, nem na ilha nem no continente, quem perceba que se possa gostar das duas coisas e que havendo uma delas se possa continuar a sentir falta da outra.
Mas deixemos o desespero e o Velho Continente. Ou desloquemos o desespero para outro continente, a Ásia. A Ásia, essa meca da malta Zen. Que de zonas Zen só foi à a Zambujeira do Mar e à Festa do Avante.
No único centro comercial que há no meu bairro - de resto, nesta cidade onde chove muito e não deixa de haver poucas pessoas na rua por isso, os centros comerciais podem-se contar pelos dedos de uma mão - abriu há algum tempo uma casa de chá. Como sempre, quanto mais perto está a oportunidade, mais a adiamos. Eu, pelo menos, assumo a minha parte de preguiçoso. Não meto as mãos no fogo por mim no que toca a aproveitar chances que brotam à mão de semear.
Meto as mãos no bule de chá, e já gozo. Tive que esperar um bom bocado para que a empregada chinesa (a única que faz serviço de mesa e que foi motivo suficiente para eu nem querer saber mais do que se passa na  cozinha) viesse tomar nota do meu pedido. E outro bom bocado tive que esperar para que o chá me chegasse à mesa. O chá que, tal como a música, ocidentalíssima mas suave, não chegou da China, nem da extinta Indochina. O chá que chegou entre correrias da empregada chinesa, a tal que era a única no serviço de mesa e  que  me fez perder vontade de auscultar o ritmo da cozinha.
Prefiro as pressas do Médio Oriente. São mais humanos, mais toma-lá, dá-cá. Prefiro ouvir o senhor que se segue, de cabeça soerguida no meu ombro, a fazer o seu pedido, enquanto ainda arrumo o troco na algibeira. Prefiro essa pressa à de olhos em bico que atropelam anónimo fulano e anónimo sicrano, que se auto-atropelam, que nos olham como se fôssemos caixas de multibanco e que nos despacham quando cheiramos a centavo avaro.
Ainda assim, amo a Ásia. Aquela Ásia supersónica. Movida a uma electrónica que me é enigmática como as Esfinges o eram para os Antigos. As esfinges do Egito onde nunca fui, nem tenciono ir.
Não me percam tempo a perguntarem-me porquê. Não explico. Tivesse eu a quem explicar como consigo amar a Ásia e detestar o culto à cultura cool (digo, Zen) do continente asiático.
Dito isto, sem mais delongas, fujo do Egito e de tudo o que mais detesto. Paradas de Paddy´s Day incluídas.
Dito isto, não fosse o presente período o período do Pessach, dá-se o meu êxodo. É a minha última tentativa para gozar a glória, para experienciar uma pálida sensação de êxito. 

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Variações sobre Velhas Viagens XV

Animação num restaurante mineiro - Ouro Preto, Vitor Vicente, Julho de 2009

Estive três vezes no Brasil. Contudo, nunca coincidi com a época do Carnaval. Nem sequer cheirei aquilo a que o saber comum chama de "Carnaval o ano todo." Ainda assim, sempre que chega o Carnaval, vejo-me a voltar ao Brasil. 
Porque há terras que deixamos para trás com despego, como se nunca lá estivéssemos estado. Em contrapartida, há países que nos são permanentes e nos deixam marcas tão perenes quanto uma peste. 
É aí que eu, ser mais dado aos subterrâneos do que às actividades sem sentido que decorrem à superfície e no seio da sociedade, é aí que eu queria chegar: ao Atlas das Almas.
Creio que o modo como encaro o Carnaval mede muito a leveza, ou falta dela, com que me tenho  relacionado com o mundo. Não fosse o mundo dos outros um medonho e - quando a mood está longe de ser a melhor - abominável baile de máscaras. 
Para começar, ainda criança, cresceu em mim uma revolta contra todos os actos calcinados pelo vale-tudo a que, em Portugal, se associa o Carnaval. Tal revolta, a par de outras, visava o que de carnavalesco se passava no bairro. Basicamente, os rapazes enchiam balões de água e arremessavam os ditos na direcção das raparigas. Assim sendo, havia que aceitar o facto de a minha irmã andar um mês inteiro a tremer de medo, ou mesmo a tremer de frio, caso estivesse ensopada, digo caso tivesse sido alvejada. Os mais maldosos - digo, os mais merdosos - também atiravam ovos. Depois, já no dia de Entrudo propriamente dito, a maior parte dos pais mascarava a maior parte dos meninos de alguma coisa. E era ver a alegria generalizada, menos em mim. 
Depois, digo uns bons anos depois, na adolescência, o fim de semana do Carnaval era dedicado a bailes com música brasileira, invariavelmente aos altos berros. Nestes eventos - eventos, escrevo eu, sem encontrar outra palavra que não enobreça estes estúpidos encontros de massas - davam-se os primeiros beijos e beliscavam-se as primeiras bundas. Os pais, rendidos ao argumentos irracionais do Carnaval, permitiam que os putos saíssem até mais tarde. Para a alegria regrada a cachaça da rapaziada. Alegria que também me era alheia. 
teenager, pré-universitário ou a dar os primeiros passos de um percurso fugaz na faculdade, o Carnaval passou a ser o segundo Halloween da comunidade gótica a que eu pertencia - no pouco a que me era permitido pertencer a grupos e tribos. Hoje em dia, já se celebra o Halloween em muita pista. Já não há razões para os góticos se gabarem de celebrarem o Halloween duas vezes. 
Seguiram-se anos de Carnavais brancos, de Carnavais incolores. Tanto nos anos antes de deixar Portugal, como nos primeiro anos que passei no outro lado da Península. Simplesmente, deixava desdenhosamente o calendário da civilização passar-me ao lado. A única coisa que me deixava lixado era, já em Barcelona, saber que em Portugal o dia de Entrudo era feriado. Mas isso depressa deitei por terra, a partir do dia em que comecei a trabalhar com turismo. Desde então que tenho um calendário à parte, às avessas dos ofícios dos carimbos.
Isso de ter trabalhado com turismo, junto com várias viagens pelo próprio pé, fez-me ver o Carnaval que nunca vi, que nunca sequer tentara ver. De olhos outrados, passei a conceber o Carnaval brasileiro como mais uma manifestação cultural e típica de uma certa etnia . Como uma daquelas coisas que nunca fez mal a ninguém ter visto uma vez na vida. Quem diz o Carnaval do Rio, diz atravessar o Canal do Panamá ou despender uma tarde num Barbecue na Austrália. 
Isso do turismo e, já na Irlanda, também o conseguir encontrar no sol o sinónimo de paz, de prazer, de preguiça. De prazer da paz, do prazer da preguiça. Tudo isso, mas também ter passado três boas temporadas no Brasil. 
Dito isto, penso que o Carnaval muda de data, mas não muda nada. A não ser nós mesmos que, mais ou menos místicos, mais ou menos viajados, tendemos a ser voláteis. O Carnaval, queira-se ou não, vai continuar lá, mesmo enquanto cambiarmos o nosso conhecimento sobre ele, que é como quem diz sobre nós mesmos. O Carnaval está lá, vai continuar lá, em datas desconhecidas, após  termos desaparecido do mapa. 
Até lá, sempre que chega a hora do Carnaval, eu vou voltar ao Brasil. Mesmo que, como nas anteriores vezes, eu volte ao Brasil sem coincidir com a época do Carnaval. 

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Variações sobre Velhas Viagens XIV


Carruagem de teleférico pintada com as cores da bandeira do Brasil - Hong Kong
Vitor Vicente, Setembro de 2011

A um país pede-se que, pelo menos, se pareça a um país. Uma capital quer-se que, no mínimo, corporize o conceito de capital e que, no máximo, seja uma metrópole cosmopolita.
A Irlanda não está preocupada com isso. Na verdade, a Ilha Esmeralda não está preocupada com quase nada. Dublin cheira mais a campo do que a cidade. Ainda que esse seja - para quem o aprecia, claro - o seu encanto.
No entanto, não é este o encanto que é para aqui chamado a trazer caso. O encanto em causa é o de Dublin 4. Que é como se chama, à falta de código postal por estas bandas, a um conjunto de bairros que conseguem cheirar a cidade. Que conseguem até cheirar a cidades.
Que conseguem até cheirar a países deste continente e do outro. É sentir o cheiro que emana desta e daquela embaixada. Como uma constelação de chaminés. Eles são os Emirados Árabes Unidos, os Estados Unidos, a Ucrânia, o Quénia, a Turquia,o México, a Bélgica, a Holan...
A Holan...não. À Holanda só logrei chegar eu por esta enxorrada de embaixadas me transportar à primeira micro-cidade de embaixadas que conheci. Coisa que se deu, certo dia, quando uma tour ao sul do país das Tulipas me deixou deslumbrado com Den Haag. E me vi entre montes de mansões construídas à imagem e semelhança da casa típica das respectivas nações. 
Ontem voltei a Den Haag. Eu já sabia que Dublin se parece com a paisagem plana e pouco urbana de Amsterdam. Com a diferença de que Amsterdam cheira tanto a cidade como a campo. Eu já sabia que, ao voar daqui da ilha para a Europa, o impacto é idêntico ao de uma viagem inter-continental. Só desconhecia é que se podia ir a Den Haag sem sair de Dublin.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Variações sobre Velhas Viagens XIII

Eléctrico de Praga, Vitor Vicente, Maio de 2009

Há viagens que evocam velhos livros e livros que evocam velhas viagens. 
"A Viagem de Théo”, a avaliar pelo próprio título, parecer tratar-se do caso óbvio de livro que convoca as nossas velhas viagens. Óbvio, tão óbvio que pode levar a suspeitar aqueles que sabem que o verbo viajar, quando praticado no pretérito mais que imperfeito do papel, se pode conjugar num tempo que não encontra espaço nos países que, à falta de melhor termo, chamarei de países propriamente ditos.
Os céticos – que, entre a categoria dos dogmáticos, são os mais ferrenhos nas suas convicções - creem então tratar-se de mais um embuste de capa e lombada. Isto enquanto o romance de Cathérine Clement, sorrateiramente, se passeia neste mundo e não no outro.
Algumas das terras visitadas por Théo mexeram com mais algumas das minhas velhas viagens do que com outras. Como foi o caso de Israel e de Praga, cujas paisagens, vá lá explicar-se porquê, trago sempre presente. Pelo contrário, os episódios no Rio de Janeiro e em Atenas parecem-me passados em cidades que nunca pisei, que nem de relance conheci.
Mas fiquemos por aqui. Tal como o itinerário de Théo, também eu tive e vou tendo o meu, assim como também o leitor terá ou vai tendo o seu. Quem diz viagens, diz leituras.
As viagens e as leituras, tal como todas as coisas, são sempre as mesmas e prova disso é que todas se distinguem entre si e de si. Permitem-se a ser elas próprias e a converter-se no seu contrário. A possibilidade de serem a oposição da sua essência é a afirmação da sua unidade. Em última instância, é a afirmação do Ser, do sopro, do sentido. Daqui à existência de D-us dista um pequeno passo.
Mas fiquemos por aqui em matéria de Filosofia. Que cada um possa cambalear de acordo com o seu passo. Ciente que todos os caminhos vão dar a Théo.

domingo, 28 de outubro de 2012

Variações sobre Velhas Viagens XII

Porta de Brandenurg, Berlim, Vitor Vicente, Novembro de 2009

Ainda a memória. A morte. A memória em permanente combate contra a morte.
Nem sempre as viagens que temos mais presentes são as mais recentes. Há viagens de que guardamos apenas uma vaga e imprecisa ideia, outras, ainda que feitas há milénios, parecem ter ocorrido ontem. Levando ao extremo, há viagens que nunca parecemos ter feito e viagens que parecem não terem terminado, nem terem como terminar. 
Houve um tempo em que me recusava a tirar fotogafias em viagem. Houve outro tempo em que me recusava a escrever. Houve ainda outro tempo em que não queria registar de maneira nenhuma as realidades que testemunhava, excepto na memória. Há sempre um tempo para tudo, quando nada se tem a perder - além da inxepiável culpa de termos nascido.
Às vezes, dá-me vontade de voltar às cidades onde estive e nada nem ninguém o diria. Seria o regresso real.  Do meu mundo nada lá ficou e de lá nada trouxe de tamanho suficiente para poder dizer que o trouxe comigo.
Às viagens pedem-se episódios. Pitorescos ou plenos de preguiça e de paz, tanto faz. Despojar-se de epísódios é igual a viver sem nunca ter existido. É como fazer do funeral uma cerimónial memorável para todos, menos para o defunto. 
Ficam por mencionar as viagens feitas de memórias intraduzíveis. Tão particulares e pessoais que se tornam impossíveis de partilhar. Estão condenadas a enterrar-se no esquecimento. A serem construídas com o material imune ao eco, com o material oco dos caixões. Ao mutismo gritante dos mortos. 

domingo, 21 de outubro de 2012

Variações sobre Velhas Viagens XI


Belfast Cab, Vitor Vicente, Outubro de 2011

Talvez algumas viagens apenas valham a pena pelas memórias. Talvez todas as viagens. 
São os extras que nos enchem a existência. As excentricidades elegantes, os encontros que o mundo nos marcou na agenda, sem antes nos consultar a disposição para o quotidiano.
No dia antes de viajar para Belfast - no tanto que é possível viajar para Belfast, para quem vem de Dublin - nesse dia de preparativos, encontrei-a. Era o dia em que fazia um ano e meio que deixara Barcelona, em direcção a Dublin, alguns anos após ter partido de Portugal para Barcelona e após de Portugal ter planeado partir para me mudar para Dublin.
Mas deixemos essa encruzilhada. Concentromo-nos no caminho que me levou a este encontro, que é como quem diz na eternidade descida à terra.
Entretanto, já numa festa e em Belfast - no tanto que é possível estar em festa numa cidade feia e agreste como Belfast - deixei que uma certa senhora celta me mexesse na berguilha. Quis congratular o gesto com um beijo. Sem sucesso. A noite de hotel em Belfast que eu não marcara revelou-se um banco do Bus Eireann que liga as Irlandas a altas horas da madrugada.
Excesso de confiança, de soberba. Semanas antes, numa cidade chinesa chamada Guanzghou, outrora conhecida como Cantão, houvera fugaz história com uma garota do Uganda. 
Não houve bela em Belfast. A haver uma bela em Belfast, houve na véspera.
As vésperas são parte da viagem. Tanto quanto o dia que se segue ao dia do regresso. Tanto quanto os encontros que, por estarem escritos nas estrelas, são patrocinados pela eternidade.
Ela já era parte da viagem sem o sabermos. Ela já era parte da vida sem o sabermos.
Talvez algumas viagem apenas valham a pena pelas memórias. Talvez todas as viagens. Talvez o próprio mundo. Talvez a própria vida. Ou mais não se anda a fazer deste mundo do que um mero lugar onde se veio dar uma volta. 

domingo, 22 de julho de 2012

Variações sobre Velhas Viagens X


Belfast Ball, Vitor Vicente, Outubro de 2011

Há muito tempo que não escrevo sobre velhas viagens.
Na verdade, todas as viagens que fiz, por mais vivas que as memórias se mantenham, parecem-me velhas. Digo, todas as viagens que fiz antes de ti. E todas as viagens que fiz antes de ti são quase todas as viagens que fiz.
A fotografia – já me esquecia de escrever – tirei-a em Belfast. Mas podia ter tirado noutra cidade qualquer. A cidade nem vai aqui para o caso. Podia ter ilustrado com uma fotografia doutra cidade, ou das cidades em que viajei nos tempos em que não tirava fotografias.
Outros tempos. Mesmo as realidades visitadas recentemente, parecem-me realidades remotas, pertença de uma vida prévia, de um tempo que ficou para trás.
Agora todas as viagens são velhas. Amareleceram por serem anteriores a ti. Todas as viagens, assim como todos os trânsitos por todo o tipo de viadutos, são uma só viagem. Tanto mais velhas, mais verdadeiras.
Há o antes e o depois de ti. O antes abarca todas essas viagens que, juntas, são o trânsito mais que absurdo. O depois é desde o nosso primeiro dia a dois.
Adiante. Adiante que as viagens se fazem velhas e amarelas. A vida também. O amor é o único antídoto à prova da velhice.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Variações sobre Velhas Viagens IX

Um dos cerca de cento e cinquenta canais de Veneza, Vitor Vicente, Maio de 2009 

A Veneza do século XXI pouco mais mantém de Marco Polo do que o Aeroporto a que atribuíram o nome do viajante.
Ainda assim, Veneza continua a ser uma cidade de valor venal. Ao invés de viver do comércio externo, de explorar a condição de porto privelegiado entre o Velho Continente e o Oriente, a Veneza de hoje vive de vender as suas entranhas aos turistas, de expôr o seu esplendor, a sua beleza. Esta cidade e seus cerca de cento e cinquenta canais são como uma velha prostituta. Parada no tempo, é certo. Charmosa, contudo.
Prometi a mesmo próprio que só voltaria a Veneza no Carnaval ou se tomado por uma paixão. As ruelas de Rialto e arredores só são desfrutáveis a dois ou imersos no baile de máscaras. Mas eis-me de volta a uma Veneza onde nunca estive - no encalço da biografia do viajante Marco Polo.

Variações sobre Velhas Viagens VIII

Final da Tarde no Mar Morto, Vitor Vicente, Setembro de 2010

Pronto, o Mar Morto não foi eleito para as Sete Novas Maravilhas da Natureza. Está feita a vontade de mais de meio mundo. Só interessava a Israel. Caso lograsse a conquista de um lugar, teriam dito que o júri era pró-judaico. Como não foi o caso, pronto ó Mar Morto, dá-se o caso por encerrado. Para gáudio dos que só ganham com a derrota de outrém.
Sendo assim, sobra-nos mais Mar Morto. Israel continuará imune a tempestades de turistas. Só flutuarão, à superfície do sal, os elitistas de espirito. 
Ó Mar Morto, quanto do teu sal são lágrimas diasporizadas por Portugal?  

sábado, 12 de novembro de 2011

Variações sobre Velhas Viagens VII

Panorâmica do Rio de Janeiro, Vitor Vicente, Agosto de 2008


Muitos portugueses dizem "que já lá dizia o Poeta" sem fazer a menor ideia de quem é o Poeta. Trata-se de Fernando Pessoa, o poeta que mais é citado por pessoas que nunca lhe leram uma letra. Pessoa representa todo o tipo de português. Incluídos os incorrigiveis. Desde os iletrados, ignorantes, até aos próprios poetas, essa pária podre que são os poetas.
A condição de peste é próprio da vida de qualquer Poeta, em qualquer parte do globo. Não importa a Pátria: o Poeta sempre vai aparentar ser um apátrida. Não sei qualquer será o equivalente de Pessoa no Brasil. Mas sei que no meu Brasil seria Hilda Hilst.
Visitei a Casa do Sol, em Campinas, onde Hilda viveu e onde viviam alguns dos seus amigos. Trouxe alguns livros de poesia e muitas lembranças - as suficientes para, sempre que me chega alguma referência a Hilda, me doer o coração com saudades do Brasil.
A pedido da namorada da época, tirei uma foto ao lado da estátua de Drummond. Entretanto, soube que a estátua foi vandalizada. E eu a pensar que os políticos estavam a limpar as cidades, com vista à Copa e às Olímpiadas. Ah mas atentar contra os poetas, ah isso perdoa-se. Criminoso contra criminoso, concluem os corruptos, os putos do parlamento, podem muito bem combater e combater: até que não sobre ninguém para contar a história.

domingo, 6 de novembro de 2011

Variações sobre Velhas Viagens VI


Banco de troncos - Central Park de Nova Iorque, Vitor Vicente, Abril de 2011

Os idiomas revelam muito da personalidade dos povos. Os alfabetos fonéticos vão mais longe, mais fundo, até à alma. Abrem a alma, deixam-nos em contacto directo com ela, sem interlocutores, nem intermediários.
Neste sentido, encontro-me um pouco limitado para conhecer os povos. Tenho que me limitar aos três idiomas que falo e que me são minimamente familiares.
Primeiro, aquele que me é mais próximo: o Português. Considero macabro, de mau gosto o D de Dafundo. Preferia o D de dado. Seria perfeito. Como o E e Évora, que salienta a letra em todo o seu esplendor. De resto, o nosso alfabeto fonético mais parece um comboio regional. A de Aveiro, C de Coimbra e por aí fora - até ao V de Viseu. Para não falar que os lisboetas dizem P de Portugal e os portuenses dizem P de Porto.
O mesmo se passa com os espanhóis. M de Madrid, B de Barcelona. Só não sei se os catalanistas ou o bascos já encontraram alguma alternativa politica para E de España. Numa coisa, disso estou certo, é que são unânimes no N de Navarra. Mas alguém mais senão um espanhol nativo se vai lembrar de N de Navarra?
Já o Inglês, ou o também tido por Internacional, também tem os seus regionalismos. R de Romeo, J de Juliette. Ou será que Romeu e Julieta devem ser considerados personagens cosmpolitas? Fica lançada a questão. Eu cá gostava de ouvir C de Camões ou E de Eça de Queirós. E por que não? Já ouvi dizer "Y de Nova Iorque, mas só o Ypsilon". Como se não houvesse uma cidadezinha no Reino Unido chamada York. Como se só existisse Nova Iorque, se todos nós fôssemos Nova Iorque.

P.S. - Pode não parecer, mas este post é para provar a omnipresença de Nova Iorque nas nossas vidas. À leitura das almas através do alfabeto fonético voltaremos mais tarde. Até lá, pode ser que o País de Gales comece a mandar no mundo e alguém ouse dizer "G de País de Gales, mas só o G".

sábado, 5 de novembro de 2011

Variações sobre Velhas Viagens V

O Inverno de Cluj-Napoca, Vitor Vicente, Janeiro de 2009

Chegámos a Cluj-Napoca a altas e avançadas horas da noite. Deixadas as armas e as bagagens no Hotel Transilvânia, ao cuidado de um recepcionista muito magro, Olívio de seu nome, e que durante dois dias só vimos comer maçãs, deixadas as ditas, fomos à cidade para comer qualquer coisa.
Estava tudo fechado. O único estabelecimento aberto era um supermercado. Às cegas, como quem não sabe a coisa, comprámos um par de pães embalados.
Cá fora, assim que mordi o primeiro pão, praguejei um palavrão. O meu colega perguntou-me se não gostara do pão.
- Não. É que não tem nada dentro. Pão com pão. Pão.
Desatámos a rir. Eu acabara de ecoar um velho atleta do ginásio, dos anos da adolescência e que tinha por hábito involuntário acabar as frases como as começava. Por exemplo, se lhe perguntassem pelos músculos que iria trabalhar na sessão de hoje, o rapaz diria "Peito e bícep. Peito." Quem diria que, passados todos estes anos e tão longe, as suas famosas deixas se fizessem ouvir na Transilvânia?
Estávamos ainda a rir. Nem conseguíamos comer os pães. Naquele momento, toda a Roménia se resumia ao riso.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Variações sobre Velhas Viagens IV

Nova Iorque - Broadway, Vitor Vicente, Abril de 2011

É de comum conhecimento que o clássico "O Fantasma da Ópera" passa-se em Paris. Só que na minha cabeça a acção passa-se em Nova Iorque, em pleno e sujo século XXI. Sem damas nem nenhum dandy que as corteje, nada.
Comprei este livro em Dublin, é certo, alguns dias antes de voar para os Estados Unidos. Contudo, é como se o tivesse comprado do outro lado do Atlântico, como se sempre que o leio eu volte a estar na Big Apple, como se a América fosse um cerco e de nunca de lá tivesse saído.
Assisti a "O Fantasma da Ópera" na famosa Broadway. A rua (há quem lhe chame bairro) foi uma decepção. O espectáculo não. Para começar, a encenação - esplendorosa. Depois, uma acústica tremenda. Num nível de envolvimento que só os americanos poderiam executar. Ainda hoje ouço ecos desse espectáculo. Chega-me até a custar concentrar-me na leitura do livro de Leroux.
Na verdade, o meu livro já nem é o livro de Leroux. É o livro que me faz voltar a viajar por Nova Iorque. É que cada exemplar de cada livro é único e irrepetível. Como a vida. Como D`us. Como tudo o que participa da essência do sagrado.

sábado, 29 de outubro de 2011

Variações sobre Velhas Viagens III

Hong Kong - Mar da China, Vitor Vicente, Setembro de 2011

Mas o Mar da China não conseguiu de todo fazer-me sentir em casa. Ao olhá-lo nos olhos, não aparenta ter nada de diferente dos demais mares. Nenhum traço oriental flagrante. Não emite sons que nos pareçam ditongos, não é amarelado, não é em bico.
O Oceano Pacífico também não me fez sentir em casa. Pelo contrário, certificou-me de que me encontrava longe. Fez-me pensar que mercadorias transportariam os navios que atracavam em Vladivostok. Imaginava se podia ser contrabordo, se o faziam às claras ou na calada da noite. À noite, através da janela do quarto de hotel, punha-me a contar navios como quem conta carneiros. Como quem não tem outra alternativa para conseguir adormecer, para levar de vencidos o fuso horário e a insónia.
Eis a prova viva, que deita por terra toda a objecção em como este argumento é mentira, de que o mar nunca é o mesmo. Já das pessoas, por mais que possam parecer diferentes, por mais que se esforcem em reivindincar identidades e forjar trejeitos típicos, não se pode dizer o mesmo. Mais depressa se encontram ecos de Europa e de Nova Iorque em Hong Kong, do que um búzio oriundo do Mar da China dá à costa de Casablanca.

Variações sobre Velhas Viagens II


Docas de Copenhaga, Vitor Vicente, Junho de 2011

A fotografia, como se pode ler na legenda, foi tirada em Copenhaga. A "foto de autor", à direita, também. Apesar de Copenhaga não estar propriamente no coração do Continente - a capital da Dinamarca é a ponte entra a Europa e a Escandinávia - esta fotografia é eminentemente europeia. Europeíssima.
Considero-me europeu pelo simples motivo de me sentir em casa em qualquer parte do continente. Podia até exagerar, apresentar-me como nascido na Europa, na província europeia de Portugal. Mas não. Ninguém nasce europeu. Torna-se europeu. Eu rima com europeu. Eu rima com outra coisa que não vem para o presente caso.
Ou então não sou europeu, mas sim atlântico-mediterrânico. À beira destas águas, sinto sempre que o cenário é familiar como o de  casa. Seja o Atlântico que banha o Brasil (onde, pela primeira vez, percebi que existia o estatuto de europeu), seja o Mediterrânico que se estende das praias até às efervescentes esplanadas de Tel Aviv. Sou até mais do mar do que da terra. Jamais enjoei embarcado e já passei mal no convívio terreno com a espécie.
Posso agora dizer que, em vez de europeu, sou atlântico-mediterrânico. E reconhecer que Paul Theroux tinha razão quando, certo dia, chamou a atenção dos literatos: The misperception is that the travel book is about a country. It`s really about the person who`s travelling.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Variações sobre Velhas Viagens I


Vladivostok - Fim de Tarde, Vitor Vicente, Setembro de 2009

Assim que marco uma viagem, assim que, ansioso, começo a contar os dias no calendário, tenho também por hábito (sou homem de hábitos, de rotinas e rituais, mas essa é outra história..) consultar as previsões metereológicas para o dito destino. Mesmo que as previsões não alcancem mais do que os próximos dez dias e a data de aterragem esteja para além desse período.
Outro tique diletante - ou, se quiserem, outro anti-tédio - consiste em, nas mesmas páginas web, consultar previsões metereológicas para as cidades que, certo dia, visitei. É a minha maneira de poder voltar a vê-las. Tromso, Vladivostok, San Carlos de Bariloche são as mais recorrentes no meu itinerário de viagens a bordo das nuvens, às arrecuas.
O clima é o mais abstracto de uma cidade. Contudo, é a coisa mais concreta. É uma realidade inalienável, porém contornável. Poder-se ia dizer que existe como existe D*us - que o clima chega às cidades como um enviado de D*us.
Só conhece o clima aquele que pelo clima se fascina.
 

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