Mostrar mensagens com a etiqueta Diáspora de Dublin. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Diáspora de Dublin. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 31 de julho de 2012

Diáspora de Dublin XVI


Port Vell - Barcelona, Vitor Vicente, Agosto de 2011

Chego a casa após cumprir um caminho de chuva, ligo o computador como quem liga a ignição de um carro, e vejo vídeos da costa da Catalunya. Com um olho no écran e o outro na janela, de sobrolho meio que  desconfiado, meio que nostálgico, pergunto-me: que me faltou para ser feliz durante os quase quatro anos que vivi em Barcelona?
Sei bem que o sol, ou o sol de sobeja, com fartura até ao enjoo, não me chega. Sei - sim, tenho a certeza - de um certo sorriso solar que me alumia mais a alma do que uma sucessão de tardes ensolaradas. Ainda assim, a dez minutos a pé ou mesmo a a alguns minutos mais de metro do Mediterrâneo, continuo a interrogar-me como foi que não encontrei a fórmula (fórmula fácil, à mão beijada pelo mar!) para a felicidade nessas terras?
Talvez seja só a ansiedade por voltar a essas terras que, noutras temporadas, me pareciam a Terra Prometida. É certo que o regresso é só em Setembro. Que haverá mar e mar, e Malta também. 
Também sei que não sofro de ânsia de férias. Por mais que trabalhe - e olhem que trabalho muito, demasiado para o meu gosto de dândi - posso permitir-me a dizer que jamais faço férias e que apenas  viajo. 
Entre viagens e regressos à base, cargas de trabalho e regressos a casa, chego então à conclusão que a felicidade não é facto ou objecto palpável nesta ou naquela terra. A felicidade é uma faísca. De quem só nós podemos ser o fôlego, sempre que animados pelo Sopro.
Falte-nos o fôlego e - é fatal - pouco mais somos do que um fantasma .

sábado, 28 de julho de 2012

Diáspora de Dublin XV

Uma charrete no meu bairro - Dublin, Vitor Vicente, Maio de 2012

Maneiras conformados com a morte, agarramo-nos ao poder da memória.  Por outras palavras, esforçamo-nos - ainda que padecidos de preguicite crónica, esforçamo-nos - por existir contra o esquecimento. E tudo o que resvale no esquecimento e não erija nenhuma torre etérea, tudo isso, esmorece-nos o espírito e embala-nos até ao bocejo.
É o caso das viagens do dia-a-dia, a caminho do ou vindos - chamemos-lhe assim, tal é a pouca poesia  - do  trabalho. Se pensarmos bem, ou se ainda nos for permitido pensar bem, perceberemos que a presença do trabalho é contra-natura no quotidiano daquele que viaja.
Dessas viagens não trazemos mais que recordações de realidades vagas, infinitos imprecisos e intermitentes, em suma impressões embaçadas de quem vislumbra o que não lhe é dado a ver e, ainda assim, vê sem pouco ou nada fazer por issso. Dessas viagens trazemos o desconsolo de não termos ido mais além, quando às viagens devemos o termo ido longe, assim como as lembranças que, a posteriori, se revelarão as mais longas. Mais longas e mais verdadeiras, tal era o vigor, a entrega, a estrela que brilhava dentro de nós.
Não consigo descortinar se essas viagens se fazem demasiado depressa ou demasiado devagar para que possam reter a requintada vigília do viajante. Digo sim, e com a segurança de quem tem a certeza, que são viagens que fazemos dormidos, com a alma na almofada e o corpo coberto por uma couraça.
Digo ainda que essas viagens podem ser feitas em Dublin ou noutra cidade - de preferência, capital - qualquer. Da igual, rematariam, como quem cospe, os espanhóis. É indiferente, concluíram, de ombros caídos, os portugueses. A mim tanto se me dá, pois de tão cansado nada tenho a dar a ninguém.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Diáspora de Dublin XIV

Canal do Portobello, Vitor Vicente, Maio de 2012

Portobello. Porto donde nunca parti e onde agora regresso. Canal, quase-cais, cidade chamada Dublin que ainda não conheço, nem me conhece, nem me chama pelo nome. Cidade que, tantas vezes, tem sido o meu trampolim para ir em frente, para Frankfurt, e de Frankfurt chegar a outro lugar.
Portobello. Ponto de partida para, passados dois anos da chegada à cidade onde já devia ter chegado há quase seis, reconstruir o dia-a-dia dublinense a partir de outra formatação que não a da realidade do bairro de Rathmines. 
Como se não houvessem outro olhos que não os nossos. Como se nos fosse permitido outrar outra coisa que não os próprios olhos. Como se as cidades pudessem ser de papel de cenário para o cidadão comum e não só património exclusivo dos sonhadores e dos sonâmbulos fora de horas.
Daqui a uma semana, sigo viagem para Israel. Só de ida, pois viagens para Israel só têm ida, não incluem saída. 
Sei que não actualizo aqui a Diápora há mais de um mês. Tenho andado ocupado a adaptar-me à ideia de regressar a uma realidade onde nunca residi.
Não me vou perder em pedidos de desculpas. Vou aproveitar o sol. A luz. O teu sorriso solar. O nosso céu. Essa mesma nuvem-navio que sobe e desce um canal que é só meu e teu. 

domingo, 1 de janeiro de 2012

Diáspora de Dublin XIII

Irish Sea - Howth, Vitor Vicente, Janeiro de 2012

Uma cidade costeira, com o mar por perto, jamais terá o deserto dentro.
O mar, dada a sua natureza auto-nutritiva, é inesgotável. Traz à costa os corpos daqueles que, um dia, partiram e contém as ânsias por novos horizontes aos que, mais ou menos acomodados, ficam ou vão ficando.
Mas há mares e mares. O Mar Irlandês (que outro nome poderia ter este mar, quando tudo aqui é pretexto para usar Irlandês como uma marca?) não convida a ir a banhos. Antes, a contemplá-lo. Com respeito. A lembrar que a realidade merece o nosso inteiro respeito.
Que seria da realidade senão fôssemos todos nós o micro-rio onde desaguámos o respeito? Sejamos afins ou anti-absoluto, todos somos seus afluentes. Alheios, nunca - nem por sombras.  

Diáspora de Dublin XII

Ovelhas a pastar em Drumnaochit - Escócia, Vitor Vicente, Dezembro de 2009

Deixemos de lhe chamar calendário greogoriano. Doravante, companheiros e camaradas, passemos a chamar-lhe de calendário gregáriano. Não se preocupem em passar palavra. Como bons animais gregários, rapidamente atingiremos o estado de pensamento único. Celebremos. Seja 2012 o ano da mudança.
Abrandem-se as euforias nas hostes e nas hortas. Entenda-se que se trata de uma mudança meramente de nome. Fique salvaguardado que o nome da nossa brigada, revolucionário rebanho milenar, estará associado a essa mudança. Constará até na grande galeria de quem escreve entre as estrelas. Exagerados?
Verão que não.  Depressa o dirá quem sabe. Depressa cantará, pelos quatro cantos do mundo, aquele que viaje. Que já tenha ouvido a mesmíssima familiar voz com um outro acento e com o receio de sempre.
Não tenham medo da mudança. O velho Yeshua está aqui para governar o caminho de todos nós. Sejamos cristãos, cristãos-novos, descristãos,  anti-cristãos, ou simplesmente castiços tristãos. Em suma, somos todos irmãos.
Nem se apoquentem, irmãos, camaradas...Outrora, as revoluções de rua mais não mudaram do que os traseiros que assentavam no trono. Esta revolução é ainda mais cómoda: podem soltar o grito do Ipiranga sem sair do sofá.
Ipirangas do Twitter e do Facebook, uni-vos sem sair de casa! Sejamos um só a clamar pela independência do mundo real, ou a aceitar a morte. Sejamos um único animal gregário, vergados, a prestar vassalagem à obsoleta máquina absoluta. Sempre.

P.S. Este post, à falta de outra categoria, vai directamente para a "Diáspora de Dublin". Apenas por ter sido escrito em Dublin. Tivesse sido escrito no Dubai e abria-se uma Diáspora por essas bandas.   

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Diáspora de Dublin XI

Missa Cristã em Goa, Vitor Vicente, Dezembro de 2011

Nada melhor do que o impacto do Natal na Irlanda para avaliar o alcance universal da palavra de Yeshua (para os amigos e para os inimigos: Jesus Cristo) na História da Humanidade.
Para começar e para que conste: o Natal irlandês pára literalmente o trânsito, fecha lojas e escritórios; em suma, anula a azáfama citadina desde a manhã do dia 24 até à manhã do dia 28 de Dezembro. (Mais um esforço, ó irlandeses, e podeis ombrear com os israelitas e seu Hanukkah).
É certo que nada se compara à paralização operada pelos católicos e por cá. Contudo, e em  todo o mundo, nada nem ninguém logra passar despercebido à pseudo-data de nascimento de Yeshua. E o mais incrível é que toda a gente sabe que essa data é uma grande treta; desde os agnósticos que são anti-cristãos o ano todo e se rendem às rabanadas na noite da Consoada, passando pelos Judeus que não vêem o Messias naquele menino que nasceu em Belém, até aos islâmicos extremistas que têm raiva dele e ódio de quem lhe presta culto. 
Eis chegados ao ponto: todos temos uma palavra a dizer, uma posição sobre a vida do homem que, como nenhum outro, governa o curso do mundo. Ninguém lhe é indiferente, logo todos lhe reconhecemos (ainda que inconscientemente) importância. Um pouco como, hoje em dia, para com a América. Apaixonados ou completamente avessos pela cultura americana, sentados no sofá de comando remoto na mão ou a colar cartazes com a foto do "Tio Sam" e a grafitar a legenda: "Wanted: Dead or Alive" - todos deixamos a nossa energia ser consumida pela América.
Eu cá estou a consumir o cérebro por esta semana, todo o santo o dia, sair directamente do trabalho para o sofá; sem conseguir chegar a tempo de ir ao ginásio que, enquanto ainda for Natal por estas terras, fechará a horas próprias para católicos. 

sábado, 17 de dezembro de 2011

Diáspora de Dublin X

La Fitness - Dublin, Vitor Vicente, Julho de 2010

Last night, I left the Pub after the third pint...a fim de, esta manhã, cumprir a segunda sessão semanal de Spin.
Confesso: custa-me comungar através dos copos com os outros corpos. Chegar às outras almas, sei de antemão que não consigo, que jamais serei capaz; pela simples razão de que a noite é um baile de corpos de que esvaziaram o espírito.
Não, não me tornei anti-noite. Agrada-me a "petit-mort" que se e só se pode experimentar à luz de néons. Contudo, não aceito que a noite me comprometa o dia seguinte. Por isso - e, como estas micro-revoluções não se fazem sozinhos, também por me encontrar na Irlanda - começo a noite cedo.
E cedo levanto no dia seguinte. No caso do Sábado para a sessão de Spin. Onde, calado e às pedaladas, entro em comunhão com os outros corpos que, como eu, montam bicicletas para abater os abdominais.
Amanhã, Domingo - para quem não for tomado pela febre de Sábado à noite - amanhã há mais.

P.S - Esta fotografia não é do ginásio onde faço Fitness e levanto halteres. É do primeiro ginásio de Dublin onde me matriculei. Nesse dia deslumbrante em que, feita a matrícula, pela primeira vez senti que acabara de inaugurar um novo quotidiano.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Diáspora de Dublin IX

Goa - Mercado da Cidade Velha, Vitor Vicente, Dezembro de 2011

A Índia, ainda. Já não enquanto pátria propriamente dita. Antes enquanto pátria transmutada no que trouxemos dentro de nós e reencontramos no quotidiano. 
Primeiro, e principalmente, os pedintes. Dá vontade de lhes dar pontapés, de atirá-los da ponte, às águas frias do rio Liffey. Toda a gente soube - mesmo os que, como eu, não têm televisão em casa - do documentário sobre os pedintes que fazem turnos para se ajoelharem numa ponte ou perto de um ATM de Dublin.
Mas essa é a realidade da rua. Que conhecemos na do condição de transeuntes, de deambulantes armados e alimentados até aos dentes. Ao chegar a casa, ao sentir o conforto nos cumprimentar na cara, lembramo-nos do quanto e do quando nos lamuriámos por esse dia ter sido mais uma cópia de todos os outros dias. Porém, passámos a saber que são cópias a cores, que onde víamos cinzento e chuva, vemos agora abundância e arco-íris.  
Assim nos ofusca a nossa aparente opulência.
Até que, já semi-adormecidos, deparamos com um, dois, dez, uma data de indianos. Paramos e perguntamo-nos: que fazem aqui? Como se fossem personagens. Como se fossem pertença de um filme e se tivessem evadido do ecran. 
Assustados, acordamos. Nunca estamos preparados para que ponham à prova a nossa tolerância.

sábado, 19 de novembro de 2011

Diáspora de Dublin VIII

Irish Rail, Iarnród Éireann - Dublin, Vitor Vicente, Julho de 2010

Escrevo da estação de Heuston. Não estou à espera de embarcar, nem espero por ninguém embarcado. Escrevo desta estação com a urgência de partir e sem outro ponto de partida que não o papel.
Pensando bem, posso dizer que acabei de desembarcar nesta estação. Durante as últimas horas, consegui perder-me na cidade onde vivo.
A cidade onde vivo é um labirinto. Tudo o que é edifício e construção é cópia dos demais edifícios e construções. Os bairros sociais são iguais em todos os bairros onde, ao lado dos chamados bairros normais, os plantaram: com o fim de integrar os irlandeses com os irlandeses. Não há volta a dar. Dublin é uma cidade eminentemente homogénea. Enquanto capital, cabe-lhe cumprir o estatuto de arquétipo, de modelo a partir do qual se criam as demais cidades.
O ambiente é favorável à familiaridade. Onde quer que estejamos, dá a ideia de que já estivemos aqui. Pensamos que pertencemos a este país, ou pelo menos à paisagem deste país. Ou, no mínimo, que já fazemos parte desta cidade. Só que a familiaridade não traz nenhuma luz, tão-só um lusco-fusco que nos deslumbra e em nada nos ajuda. A beleza, sabemo-lo desde sempre, jamais foi talhada para a utilidade.
Podia agora apanhar um comboio para outra cidade. Não preciso. Atrás de mim, estende-se uma cidade em que ainda me posso permitir a perder-me. Uma cidade assim, que nos perde no encalço dos próprios passos, não pode saber a pouco. 

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Diáspora de Dublin VII


Guinness - Galway, Vitor Vicente, Março de 2011

A Irlanda, como ainda tem idade para se comportar como uma criança, pode-se permitir a certos caprichos. Como o narcisismo, que no caso das Pátrias é tido por nacionalismo. Ou a exaltação desmedida de si e de suas façanhas, que no caso das nações se nomeia épica de pacotilha. Isso sem que nada nem ninguém a leve a sério. Este país infantil e ternurento que é a Irlanda pode até ter o prazer de vender pão com a marca "Irish Pride". Sem que os países graúdos lhe venham pedir explicações ou a obriguem a pedir perdão. Era o que mais faltava. De tantos são os produtos com o autocolante, "Buy Me. I`m Irish", que abundam por esses supermercados de Dublin. 
Já o grande colosso germânico não pode cantar as glórias da casa. Se alguém sequer as ensaia, não tardam a temer e a espalhar o temor que o Terceiro Reich está de volta. Se cair uma telha na judiaria ali ao lado, então não faltarão acusações contra os alemães que se voltaram a achar os maiores. Isto enquanto, numa  esquina não muito distante, enquanto, dizia, não há clientes para a kebab, um dos muitos turcos por estas bandas se lembra de erguer a bandeira da Alemanha.
Na América todo o patriotismo é possível por se passar na América. Claro que é logo tido por tolice por parte dos comunistas e por sionismo por parte dos pró-palestinos. De resto, não creio que se faça caso. É cultural. Aceita-se como parte do chamado show off.   
Em Portugal, à falta de toalhas e de lençóis, usa-se a bandeirinha para tapar a miséria moral. Os nacionalistas de naftalina aproveitam a ocasião para fazerem ouvir a sua velha orquestra. Os esquerdistas chamam a atenção para um possível regresso do exército de fantasmas salazarentos e espalham o medo pelas sete quintas e quinas da Lusitânia. Fica conjugada a circunstância para todos tentarem fazer vingar os seus interesses, sem que no assunto sejam tidos nem achados nem chamados.
Em toda a parte, o miolo é mais do mesmo. Só a côdea cambia. Eu cá como do pão que o irlandês amassou.  E mais não digo: que eu saiba, ainda é  falta de educação falar de boca cheia. 

sábado, 12 de novembro de 2011

Diáspora de Dublin VI


O Trânsito mais longo do Mundo - Transiberiano, Vitor Vicente, Setembro de 2009

Por mais que o cansaço possa ser parte do quotidiano, por mais que a realide pareça sinónimo de desgaste, estou ainda convencido que todas as experiências são únicas e irrepetíveis e que, ao mesmo tempo, todas as experiências são uma experiência - a experiência do mundo. 
Considero o caso de viajar de comboio. Todas as vezes que viajo de comboio volto a andar no Transiberiano. Seja o trajecto de Dublin para Belfast ou o caminho de ferro que vai de Guangzhou até Schenzhen.
Gira o disco e toca o mesmo. A sequência é a de sempre. Só que o passo de qualquer dança, de tão milimétrica, jamais será como antes. Seja dança, seja exercício de ginástica.
No ginásio de Dublin, por vezes, tenho a sensação que todos os atletas estão sincronizados como a melhor orquestra de Viena. Estejam eles a trabalhar os trícepes, a pedalar na bicicleta ou a fazer flexões. Para mim é um facto: somos todos um corpo, movimentamo-nos todos dentro uns dos outros.
Assim seja. Assim como a play list aqui do gym é a mesmíssima todo o santo dia. Gosto de um ginásio assim - que me imponha uma rotina, uma disciplina.

domingo, 6 de novembro de 2011

Diáspora de Dublin V

Grafton Street - Dublin, Vitor Vicente, Março de 2011

O Poeta (Pessoa, se não me falha a memória) terá dito que o melhor do mundo são as crianças. Pode ser que assim seja em todo o mundo, menos nesses país infantil que é a Irlanda. Em que as crianças, debaixo do nariz complacente dos pais, correm pelos pubs, como se fossem pistas olímpicas.
E mais não digo, para manter a honra do convento e o bom nome da Diáspora.

sábado, 29 de outubro de 2011

Diáspora de Dublin IV


Irlanda - A bordo da linha férrea Dublin-Sligo, Vitor Vicente, Agosto de 2010

Durante algum tempo, tive o hábito de atribuir uma côr a cada cidade que visitava. Associei o azul a Estocolmo, o laranja a Madrid, o verde a Dublin. Depois, cansei-me. Cansei-me de ter pouca paleta para tantos países, de não ter côres que chegassem para o tamanho do mundo.
Em Dublin, vista agora da perspectiva de residente, continua a reinar, soberano e absoluto, o verde. Por mais que, em Portugal, algumas pessoas tendem a lamentar-me que Dublin é uma cidade cinzenta. Alguns nem conhecem Dublin. Conhecem, se tanto e de um fim de semana, Londres. E por terem visto Londres, ao vivo ou num filme, acham que já conhecem todo o Reino Unido e que a Irlanda é ainda parte do Reino Unido.
Outro preconceito popular, este não só entre portugueses mas entre os latinos em geral, é que a côr do frio é o cinzento. Como se a neve fosse branca escura. Aqui em Dublin quase nem neva. Esta cidade nem se demarca das demais por ser fria. Isso é lá para os lados do Leste, caros latinos, não aqui no Norte. E mais, amigos latinos, os povos louros do Leste não são todos iguais aos povos louros do Norte da Europa. Ou também consideram certo que, abaixo da França, sejamos todos tidos por espanhóis ou italianos e que no Médio Oriente só há árabes e Mesquitas?
Dublin, caros latinos, é chuvosa. Quando chove, em temporada de Inverno, as temperaturas tendem a subir. Não é que se tratem de chuvas tropicais. Aqui podem cair todo o tipo de chuvas, a qualquer altura do ano. Até em pleno Verão, quando a cidade é iluminada durante quase todo o dia, quando o céu oferece um lento lusco-fusco, um crepúsculo capaz de parar o trânsito no dia em que todos os que estiverem ao volante forem poetas, ou, pelo menos, sensíveis à beleza do Poente.
Para isso a Poesia teria que abrir telejornais. A maior precipitação, mundial por sinal, é continuar a crer-se que a côr do frio é o cinzento. Como se não houvesse frio de céu claro e aberto, frio azul. Ou o frio verde e celta da Irlanda. Ou o frio azul-esverdeado que se sente à beira de todos os mares do mundo.

Diáspora de Dublin III


Praça do Palácio Real - Copenhaga, Vitor Vicente, Junho de 2011

E o novo presidente da Irlanda é um poeta. Michael Higgins, de seu nome.
Nome que, diga-se, assenta melhor a uma das porfiadas cadeiras do poder do que à escreveninha esquizofrénica onde se redigem versos. Não digo isto por qualquer suspeita sobre este senhor. Se esta eleição fosse em Portugal, decerto que teria suspeitas. Como, algunos anos atrás, questionei as reais pretensões de Manuel Alegre. Mas não estou aqui para entrar em polémicas com ninguém. Longe de mim citar qualquer nome da Praça Pública e tratar os bois pelo nome próprio. Ainda que isso aumentasse o número de visitas do Blog. Tenho mais que fazer.
Tenho que dizer - é uma necessidade, e é sempre a necessidade que me obriga a escrever - que o meu olhar está nublado por uma certa inocência, uma lúcida ingenuidade sobre os irlandeses mediáticos e do mundo em geral. Com os de Portugal, por lá ter crescido, nem pensar. Para os de cá fora - adoro dizer, cá fora e não lá fora -  sai de mim um perdão instintivo e irreflectido, um deixa-passar de quem se acha distante, um deixa-passar de que não é nada comigo. Apenas aprovo, sem análise de espécie alguma e com toda a tolerância deste mundo e do outro.
Afinal, seja em que país for, tanto me faz a figura do presidente. O papel do presidente não é nada mais do que isso: representar um papel no regime corrupto até à medula que é a República. Para exercer tal cargo, sem olhar a interesses de terceiros, nem a meios para proteger partidos e parceiros, já temos o Rei. Sempre será mais sábio que alguém que confuda o Thomas Moore com o Thomas Mann. Ou que tenha uma Obra poética digna de arrebatar prémios de Jogos Florais. Mas eu, como disse, não quero cá entrar em polémicas com ninguém. Chega. Como disse, apenas aprovo, sem análise de espécie alguma e com toda a tolerância deste mundo e do outro.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Diáspora de Dublin II



Belfast - Bairro Católico, Vitor Vicente, Outubro de 2011

Nada melhor do que atravessar a fronteira (outrora, fronteira de fogo) entre a Irlanda e Irlanda do Norte para pôr à prova o quão vão pode ser viajar para ver que tal se vive do lado de lá.
Um dos principais problemas da Irlanda, segundo os queixumes mais quotidianos, é ser uma ilha. Mas antes de virem para cá, pergunto-me, não sabiam? Não pensaram bem nisso antes de aqui assentarem arraiais? Não se deram nem ao trabalho de abrir um Atlas e tirar metade da tarde para estudar um pouco de Geografia? Numa ilha, o isolamento é encanto e magia - é auto-recriação, vertiginosa e contínua. Boring?, só para quem não sabe o que é ser (nascer) animal de arquipélago, animal em vias de extinção desde que a espécie descobriu formar uma sociedade e obrigar-nos a ganhar a vida como um bicho gregário.
Como se não bastasse o facto da Irlanda ser uma ilha - e, assim sendo, não se poder pegar no carro (há pessoas para quem as possibilidades de viajar se resumem a estar ao volante) e ir para o próximo país -, como se não bastasse isso da condição de ilhéu, e ainda acresce que é logo uma ilha e homogénea. A paisagem de qualquer cidade irlandesa é invariavelmente de povoada de paddys, pubs & pints. E o verde, sempre o verde. Na capital ou no country side, tanto faz.
Belfast, lá no Norte, não destoa, não é tão diferente. O centro, é certo, não envergonha qualquer cidade europeia. Só que, mal se dá dois passos, logo ao virar da esquina, começa o festival de fábricas e de armazéns que normalmente se encontra nos arredores. Entre os bairros católico e protestante, mantém-se o muro, agora aberto, farpado e tudo. Tudo, tudo incluídos os grafitis a pedir paz e os memoriais em honra dos mortos, tudo parte do folclore turístico que teima em não trazer curiosos à cidade. As mensagens nos muros parecem, ainda hoje, pintadas de fresco. E o cheiro a sangue, sabemos bem, continua a afligir muito boa gente.
De resto, para quem vem de Dublin, Belfast não é nada de surpreendente. A noite despe-se a rigor, com o troc troc torto que marca o ritmo das ruas do Temple Bar. Não, não estou a reclamar. Tenho aprendido a aceitar. Em Belfast, assimilei que, não importa de que lado da fronteira, somos todos filhos do fogo e que, um dia, seremos consumidos em cinzas comuns - que somos todos o sopro do mesmo Ser.

Diáspora de Dublin I


Belfast - Parque do Bairro Protestante, Vitor Vicente, Outubro de 2011

Lembro-me de ter lido, num desses guias que desdizem mais do que dizem de Dublin, que esta cidade se caracteriza por toda a gente ter uma razão para se queixar da realidade do dia-a-dia.
O queixume mais audível, tão comum que se podiam constituir coros, é contra o clima - contra a "chata da chuva". Em Dublin, a chuva é parte constituinte da rotina. Faça frio ou sol de pouca dura, pode sempre, sempre estar prestes a cair uma chuvinha. Daquela tímida, titubeante, ainda assim, intrometida, que molha mais os que lhe reconhecem importância do que aqueles cuja pele se tornou já um impermeável. Hoje, no entanto, caíu (digo, desabou) uma chuvada que molhou a todos, conformados de mãos nos bolsos e ombros semi-erguidos ou eternos descontentes de praguejo na ponta da língua. Pela minha parte, como para tudo o que caia do céu, e de há um tempo para cá, nem uma palavra de protesto - acatei a crença de que o movimento do universo é regido pelo melhor propósito possível.
Outro queixume costumeiro tem como objecto os transportes. Entre duas linhas de eléctrico (há quem lhe chame de metro de superfície) que não cruzam, autocarros que, às vezes, passam pelas paragens como se não fosse nada com eles e comboios que só cobrem os bairros chic da cidade, é tudo uma encruzilhada sem nexo, em que custa reconhecer qual é o mais terceiro-mundista. Neste ponto, estou de acordo. Os transportes públicos da cidade querem-se eficientes e funcionais. Não se lhes pede que nos façam perder tempo, nwm que nos façam perder a noção de tempo. Para esse efeito, existem as escapadas a destinos exóticos, as andarilhagens a amazónias. Os transportes do quotidiano têm que ser prosaicos e ponto. É-lhes permitida alguma poesia quando ajudam-nos a fazer frente às intempéries e à tempestade. Mais ainda esta noite, em que um metro subterrânero teria sido um salva-vidas para tanta gente.
O fim de semana não foi muito melhor. Pelo menos, Sábado, em Belfast. Choveu a tarde toda. A chuva fez-me sentir em casa. Como se a água que cai do céu não fosse a mesma em qualquer parte do mundo.
 

Seguidores