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domingo, 16 de março de 2014

Diáspora de Dublin XXXVI

Canal em Dublin 4, Vitor Vicente, Junho de 2013

É curioso. Dublin 4 é uma das minhas zonas preferidas da cidade e, ao mesmo tempo, onde mais sou alvo de racismo. Outras zonas (digo, de racismo) são a margem norte, O' Connell Street e arredores, onde o obram vagabundos e drogados que, dada a falta de cérebro, não são dignos do termo bandidos. Aí o racismo é do tipo rural, em que a deplorável prática consiste em pouco mais que detestar tudo o que aparente ser diferente e desconhecido. Em Dublin 4 é outra fruta: trata-se de um racismo depurado e que resulta de uma diligente triagem entre quem segregar e quem tolerar e até aceitar. Tal como em Portugal.
É- novamente - um caso curioso. Em Portugal, no que toca a esse termo controverso que é a raça, eu sou branco. Na Irlanda e na Europa - digo e, por tratarem-se de realidades separadas - eu sou escuro. Daí que quando me refiro aos branquelas, regra geral, não sou entendido pelos portugueses. Na verdade, o desentendimento não é de agora. Já quando vivia entre eles, os brancos, não nos entendíamos. Nem com os pretos, quero dizer, os negros. Ou vai se dar o caso de me chamarem caucasiano, coisa que, diga-se, até combina mais com a minha tez. 
Mas deixemos para trás o Cáucaso e o Atlântico. O caso aqui é o de Dublin 4, a zona da cidade mais inglesa e menos irlandesa, logo um bocadinho mais continental, em tudo de bom e de mau que esse título acarreta. O racismo, esse, continua. Porque os irlandeses, para lá das portas dos "pubs" e sem "pints" em punho, são tão racistas quanto os outros brancóides. Um complexo de superioridade tão cretino quanto o dos pretos com a valentia da verga ou dos latinos que pensam poder enganar meio mundo à custa de manhas e artimanhas.
Nesta mixórdia, eureka, consigo encontrar a explicação para o meu conforto enquanto alvo de racismo pelas bandas de Dublin 4. Tão simples como sentir-me ainda mais distinto.  

sábado, 8 de março de 2014

Diáspora de Dublin XXXV

Estátua de Alfredo da Silva - Barreiro, Fevereiro de 2014, Vitor Vicente

É fato: retomei o gosto pelo negro, no que à vestimenta toca. Não se trata, todavia, da velha vestimenta, de que hoje faço chacota, quando a ostenta aqueles a quem já caducou a rebeldia de sair à rua conforme lhes dita a gana. No meu caso, o revivalismo pelo negro tem que ver com a constante revisão a que me sujeito. É, de resto, por isso que me olho ao espelho: para ver se ainda me revejo no meu reflexo.
O roupeiro - como, aliás, a própria casa - reflete o nosso estado de espírito. O roupeiro revela-me que eu voltei - e assim volto ao assunto - ao negro e que esse regresso tem que ver com o revisitar-me, com o redescobrir-me.
Eis o sentimento de voltar a envergar a velha casaca. Não que com isso queira dizer que tenho andado com a casaca virada do avesso. Foi tudo tão simples como ter questionado a casaca, experimentá-la ao contrário, para depois escolher a que melhor entendo combinar comigo. Exercício espiritual que muito boa e dogmática gente, sejam politicamente de direita ou de esquerda, jamais fez. Quem é que, alguma vez na vida, se atreveu a pôr em cheque as suas convições e/ou crenças e a ver o mundo na versão inversa do que habitualmente vê? Aposto que poucos, quase nenhuns de nós.
Posso parecer pretensioso, mas eu não quero ser pertença desse grupo. Por outro lado, também não assinalarei o luto pelo abate de consciências e pela decadência da cidadania, tanto na urbe, como no campo. O meu luto é outro. O meu negro também. Existem várias tonalidades de negro, assim como as há de todas as cores. Eu só reivindico duas coisas. Uma é aquela cor que seja só minha. A outra é que se extinga no mundo o pior dos racismos - que consiste, nada mais e nada menos, do que em segregar aquele que tenha uma cor que seja só a sua. 

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Diáspora de Dublin XXXIV

Carrer Aribau - Barcelona, Vitor Vicente, Setembro de 2012

Lá no escritório, tenho um colega que anda todo contente porque se vai casar. Normal. Tal sentimento de sedentária e gregária satisfação nem deveria servir de mote para o que se quer de uma crónica. 
Só que o meu colega, além de contente com o casório, está super feliz com o fato de mudar de casa, por estar convencido que, desta, será de vez. É que esta vez será a quadragésima vez que o compincha do meu colega mudará de casa em quarenta errantes anos de idade.
É muito, é mais que muito. É de nómada. Ao ouvir isto, calado, pus-me a fazer contas à vida, mais propiamente a contabilizar em quantas casas vivi, com menos dez anos de vida no pêlo que o meu colega. 
Antes de avançar com o resultado, quero dizer que nunca tinha feito tal conta. Eu até sou maluquinho pelos cálculos e pelas mentais matemáticas. Várias vezes, já dei por mim a contar tanto o número de países que já visitei, como o número de parceiras com quem já dormi. 
Não vou revelar o resultado da segunda contagem. Posso apenas dizer que é superior ao número de casas onde vivi e menor que os países que já pisei e que são quarenta e seis. Quanto às casas, até agora, foram dezasseis. (Digo até agora, por lembrar-me do meu vizinho do lado, um Catalão de gema que mora no mesmo estúdio há dez anos e o confessa, ciente dos tempos corridos em que vivemos, com vergonha e cabisbaixo). 
Também não me vou pôr aqui a contar, caso a caso - que é como quem diz, casa a casa - as peripécias épicas que me levaram de um lado para o outro. Tal empresa merecia outro post, um só post
A este post apenas cabe confessar que, às vezes, me parece que sou um andarilho há séculos, há milénios mesmo. E que a única coisa que aprendi é que, afinal de contas e ao contrário do que os acomodados contam e nos querem fazer crer, andarilhar não consiste em trazer a casa às costas, mas sim em saber que a nossa única casa são as nossas próprias costas. 
Porque esta nossa casa levamos até para a nossa derradeira morada, para o qualquer desterro onde a morte nos dê abrigo ou nos deixe entregues e à mercê do relento. 
Eu cá só espero que, antes da hora da minha morte, o "google maps" já tenha uma versão de "google mortos" e nos mostre para onde vamos depois da vida. Uma espécie de sinistro "Street view".

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Diáspora de Dublin XXXIII

Amanhecer em Rathmines - Dublin, Vitor Vicente, Janeiro de 2014

Das poucas vezes que, daqui de casa, tenho tido oportunidade para mandar parar o mundo e assistir à realidade a um ritmo alternativo, durante um desses magistrais momentos, tenho-me intrigado com a cúpula verde - verdíssima, à noite - da igreja que, sentado no sofá, vejo através da janela.
Antes de avançar na intriga, sinto-me no dever (que é como quem diz, ser direito do leitor estar ao corrente) que se trata da primeira vez que, aqui em Dublin, moro numa casa com vista digna desse nome. Primeiro, morei num pequeno quarto de uma grande casa e cuja única vista era o quintal e as criancas que brincavam nesse quintal. Depois, habitei numa casa-cave e que dava também para as traseiras. Por fim, bem grado o upgrade, mudei-me para um apartamento de condomínio fechado, cujas janelas também davam para o lado de trás do edifício. 
Voltamos então à igreja que, de momento só avistamos mas onde, várias vezes, já estivemos. Uma delas, memorável, em que o meu pai, senhor de aparência anglo-saxónica ou irlandesa mas marxista-leninista convicto, foi confundido com um dos fiéis que, todo o santo domingo, pica o ponto na missa. Até o coitado do Cristo ia caindo da cruz e, por pouco, lá se iam dois mil e tal anos de histórias da caroxinha e de outras historietas mal contadas afins.
O caso aqui não é o da cruz, mas o da cúpula. Dessa cúpula verde, verdíssima, à noite, e que quanto mais verde, mais me dá a ideia que nos vê. Que nos observa com o olhar furtivo de detetive.
Na verdade, esta sensação não é nova. Tambem não é do tempo em que os apóstolos falavam, mas quase. Data - para ser mais preciso -de quando morava no topo desta rua e, ao descê-la, na direção do centro da cidade, me parecia que a cúpula desta igreja queria conversa e que, à falta de interlocutor, dava-me que falar com os meus confessores botões.
Como alguns atrás, algures entre o tempo dos apóstolos e o dia em que cheguei (oh, odisseia ferro-marítima!) a Dublin, quando ainda vivia em Barcelona, e me parecia que, de lá do alto, a igreja que mais tarde soube ser a igreja do Tibidabo, essa igreja tão turística quanto profana, controlava toda a cidade, Ramblas incluídas. As igrejas sempre me intrigaram. Desde a infância, passando pela ateia adolescência. Até nos anos épicos de Barcelona, em que vivia a menor das realidades com a etiqueta do mais romântico e exagerado dos estetas. 
Ate pode ser que, tanto a igreja do Tibidabo e a cúpula verde - verdíssima, à noite - da igreja nao me estejam a ver, nem sequer a controlar. Contudo, estou certo que uma casa não é só a casa, que uma casa não se esgota nas quatro paredes. Que uma casa também se compõe do caminho de casa, do quotidiano. Do que de mundo chega até dentro de casa.  

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Diáspora de Dublin XXXII


Rathmines - Dublin, Vitor Vicente, Janeiro de 2014

Mudei de casa há, mais ou menos, dois meses e meio. Tirando o fato de agora não ter mais ninguém entre as quatro paredes, não foi grande mudança. Geograficamente falando, mudei-me para, mais ou menos, meio quilómetro de distância do lugar onde antes vivia. Semelhante distância separa-me do lugar onde morei antes de me mudar para o lugar donde me fui embora. Parece complicado, mas podia ser pior. Mais não é do que viver em círculos e em ciclos do mais do mesmo.
Ou em circos. Circos de indomáveis feras que, de há dois meses e meio para cá, me têm ocupado a cabeça com mais mundo do que a minha cabeça pode portar e que me têm obrigado a dar mais e mais de mim e do meu comportamento, numa dose superior à que o mundo, só a custo, consegue aceitar.
Conclusão: que o quotidiano desta casa tem tido demasiado mundo para que se possa permitir à leveza de postular viagens verídicas ou de fantasia, ou simplesmente vaguear em périplos passados. Nessa sequência, nem poeira, nem ventos têm sacudido esta casa, de quarto e sala separados. Antes uma aragem de entra e sai que nao me dá nem um segundo para agradecer ao sopro sagrado que nos anima no dia-a-dia.
Hajam Ásias nos horizontes de Abril e uma viagem para Portugal daqui a pouco mais que duas semanas. Hajam asas para os voos domésticos. Além de asas, haja fôlego, quando o quotidiano, a casa e sei lá mais quem, numa só voz, num uníssono orquestral, querem de mim fazer um falcão.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Diáspora de Dublin XXXI

Vende-se: Igreja  - Dublin, Vitor Vicente, Maio de 2012

Durante alguns anos, despendi o meu tempo de leituras entre os clássicos e os contemporâneos. Com o passar do tempo, continuo a ler os clássicos., já só leio os poucos contemporâneos que parecem ter centelha de clássicos, e também livros de divulgação que antes, meio por snobismo, meio por pressa, não achavam estatuto na minha estante, nem se estendiam na minha mesa de cabeceira (sim, eu leio e escrevo deitado e, sobretudo,na cama).
Hoje, como disse, dedico um bom tempo aos livros de divulgação. Ultimamente, tenho-me focado em divulgação de história. Não em livros que rebatem nos acontecimentos-chave da história da espécie humana. Antes no passado recente de pessoas, cujos retratos ou relatos, ainda muito têm em comum com as cidades do presente calendário.
No que toca a Dublin, entre outras coisas que não vêm agora aqui ao caso, fiquei a saber que um dos maiores bares da cidade - que  também é um dos poucos que não se trata de um Pub tradicional - foi, em tempos, uma estação de comboios. Para ser sincero, não me espanta. Sempre pensei ter-se tratado de um teatro ou de uma estação de comboios. Primeiro, por saber que, naquela área e em tempos, houve uma estação de comboios. Segundo, por toda a estação de comboios ter o seu quê de teatro e vice-versa.
Isto ilustra sobremaneira o atabalhoado aproveitamento urbanístico de Dublin. Posso adicionar outros dois exemplos: um Pub chamado "The Church" que, como o próprio nome indica, era uma igreja e uma outra igreja aqui do bairro que se tornou num complexo de apartamentos. Foram-se os fiéis, ficaram as pessoas e as pints. Estes são só dois exemplos, mas há mais pela cidade fora. Só aqui no Portobello está outra igreja para venda, com tabuleta e preço, como se fosse uma vivenda.  
Que vai ser do futuro, quando estivermos embalados num saco ou fechados numa caixa? Que construirão por cima do nosso cadáver? Por cima de que carcaças caminhamos? Continuará a Irlanda a improvisar neste mirabolante modelo de organização urbanística que nem se lembrou de ligar duas linhas de metro de superfície? Essa façanha é um clássico. Já se podiam aceitar apostas (atenção Paddy Power!) para adivinhar qual é a geração que vai ser contemporânea do grande acontecimento irlandês que vai ser ligar duas (as únicas existentes, assinale-se) linhas de metro de superfície que se encontram separadas. 

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Diáspora de Dublin XXX

Stephens Green Shopping Centre - Dublin, Vitor Vicente, Janeiro de 2013

Com certeza que haverá muito cretino que ainda não compreendeu que o mundo é redondo e que continua a crer que o Planeta Terra é um retângulo mais-que-perfeito. Ou, pelo menos, que aprendeu que assim não é mas que aje como se assim fosse. Como se o mundo fosse forçado a ser uma cópia do seu quadrado quotidiano. Do tipo, as quatro faces do quadrado têm que ser iguais em todo o lado. Ou é assim, ou - rica ressalva - haverá algo de errado. 
Errado, quer dizer, que se trata de algo que não reflete a sua realidade. Estamos a falar dos antropocêntricos, no mínimo dos autocêntricos. Para quem o universo existe enquanto extensão do seu umbigo. Gente que, hoje em dia, se dá ao luxo de se espantar com o facto de ainda haver quem não espelhe o que de melhor se passe no mais perfeito dos quadrados - a saber, o seu.  
Dito isto, neste tom, até dá para ser levado a crer que esta gente leu Leibniz. Não leu. Não leram nada. Quando muito, nos tempos do liceu e da universidade, leram resumos para tirar positiva. De resto, tudo o que leram, resumos e pouco mais, leram sempre através da lupa míope que é o seu quadrado entendimento. Sem serem sequer capazes de associar alguma coisa a - ao quê?, perguntam nesta altura do campeonato- a alguma outra coisa. 
Era aqui que eu queria chegar: às pessoas que, aqui em Dublin, assumem que a cidade é uma mistura do bairro onde moram e do bairro onde trabalham. Isto quando não se tratam do mesmo bairro. Pois, para muitas pessoas, a vivência da cidade cinge-se a trabalhar e sair com pessoas que conheceram no trabalho. 
Depois há os que fazem férias onde o pessoal é diferente. Oh que diferente, que exótico. Toca de tirar foto, publicar no Facebook, de preferência lado a lado com os locais, como se essas gentes fossem jibóias. 
No fundo, somos todos paradigmas. Uns do que é normal e natural, outros do curioso que parte à procura da essência humana nos pobres coitados que se contentam com uma côdea de pão. Preconceitos, temos todos. Ou então não poderíamos ter opiniões. O problema é haver mais opiniões do que pessoas. Na verdade, o problema divide-se em dois e multiplica-se no número de pessoas que personificam esse problema: pessoas com opiniões a mais do que o diminuto inteleto lhes devia permitir e pessoas completamente desprovidas de opinião própria ou baseada naquilo que ouviu por aí. 
Logística nunca foi o forte da espécie. Ainda está para vir o dia em que a distribuição seja justa em Dublin e no mundo inteiro. 

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Diáspora de Dublin XXIX

Autocarro de uma excursão pelo County Clare, Vitor Vicente, Março de 2011

Tenho então um quotidiano andante. O poder nas pernas, nos pés. O privilégio de não depender dos transportes, nem de estar refém do estado das estradas ou das vicissitudes dos veículos desta vida para poder fazer da minha vida ainda mais a minha vida. 
Pois pertenço a uma multidão de andarilhos anónimos  que não se conhecem, que nunca foram, nem almejam- de tão assustadiços e ensimesmados - vir a ser apresentados. Que, à semelhança dos caprichos dos génios, querem ser singulares e não aceitam ajuntamentos, nem constituir parte de grupos.
Posso cruzar-me com os mesmos caminhantes todos os dias, à mesma hora, sempre no mesmo semáforo, mas nenhum de nós vai se lembrar do outro no dia seguinte. É um pacto perfeito, sem que nada, nem ninguém tenha de mover uma palha por isso. 
Já dos passageiros que, todos os dias e antigamente, apanhavam o mesmo autocarro que eu, desses lembro-me muito bem. Como se, todos os dias do tempo que atiro para longe ao chamar de antigamente, tivesse sido ontem.
Lembro-me que alguns deles já diziam olá entre eles e entre dentes e que outros, embaraçados, viravam os focinhos para o lado ou atiravam-nos para o chão. Lembro-me - seria impossível não me lembrar - de um maluco que, como todos os malucos em qualquer parte do mundo, ia sempre sentado no banco de trás (no caso Irlandês, do andar de cima do autocarro) e que levava sempre sacos de plásticos. Além de se sentar sempre no banco de trás e de trazer sempre sacos de plástico, este maluco também falava sozinho e dizia sempre as mesmas coisas e sempre quando passávamos junto às mesmas paragens. A saber, "For Fuck´s  Sake. For Fuck´s Sake. She doesn`t care. No, she doesn`t care. She`s a fucking bitch!". 
Era claro que nem eu, nem nenhum dos passageiros frequentes deste autocarro, se sentava perto dele. Era tão claro como perceber que quem se sentava perto dele não nos acompanhava no autocarro, diariamente, desde a sombria Segunda até à ansiada Sexta.
À Sexta, tínhamos todos o semblante aberto e o ambiente era tão descontraído que mais parecia um autocarro para a praia. Como se Sexta fosse sinónimo de férias. Até era: férias de dois dias. Mais dias houvera e andar nesse autocarro seria uma verdadeira viagem. Assim não sendo, esta crónica está votada a não pertencer às Variações sobre Velhas Viagens. Antes a dar o corpo à andante Diáspora de Dublin

domingo, 30 de junho de 2013

Diáspora de XXVIII


Temple Bar - Dublin, Vitor Vicente, Outubro de 2010

A língua faz os modos como vemos o mundo e como o mundo nos vê. Até para quem tende a andar calado ou a fazer beicinho, a língua define-nos a configuração da cara. A nossa expressão, ou a sua ausência, é o nosso eu exterior.
É um espetáculo. Os expatriados, a falar com a língua, com as mãos, com o corpo todo, são um espetáculo. O meu espetáculo de eleição - digo eu daqui da plateia, meu lugar preferencial - é ver como as suas origens vêm ao de cima, como que saltam à flor da pele, como que sobem à superfície, depois de os desgraçados linguarajar num idioma e respetivos gestos que não lhes são obviamente próprios. 
Dois expatriados, caso estejam num país de língua Inglesa ou em viagem por uma terra que não é a de nenhum deles, instintivamente, como animais que se encontram subitamente na selva, são forçados a comunicar em Easy English. Que, traduzindo para miúdos, é uma espécie de sub-idioma que se cola facilmente aos lábios e é composto por palavras e intenções ao alcance dos símios. Não há aqui lugar à poesia, a não ser à poesia que está sempre presente quando duas criaturas distintas logram entender-se.
Passe-se da poesia para a paixão. Há casais de latinos que logram - preparem-se para passar para o plano do pasmo e da imaginação -  apaixonar-se. Daqui da plateia, volto a dizer: é um espetáculo vê-los a dizer uma coisa com a boca e dizer outra com as mãos, com o corpo todo. Coisa tão hilariante como ainda haver metade da humanidade com paciência para aturar a outra metade da humanidade. 
Depois há ainda os que acham chic expressar-se em Easy English - digo falar, pois não é propriedade destas gentes o poder de se expressar, por mais que alguns deles tenham gosto em emitir opiniões sobre assuntos sociais ou em elogiar as vantagens de praticar Yoga. Os Portugueses, digo eu ainda da plateia por ter o privilégio de designar os Portugueses por Portugueses, acham-se especiais por serem menos obviamente Portugueses a falar Easy English do que a vizinhança do Sul do continente. Mal sabem eles que, por votarem a letra h ao mutismo e não terem um tom de voz de quem fala ao altifalante como os nuestros amigos da Andaluzia, os Portugueses parecem-se aos Polacos - inclusivé a canalha de Polacos, pseudo-arraçados, que tanto gostam de se fazer passar por Alemães. Enfim, como os Espanhóis dizem o H de maneira gritante e o tuguinha não, o tuguinha nada disso, vale-lhes a velha máxima que mais vale não fazer do que fazer mal. 
Eu, que já adotei a plateia como habitat natural, é que já não digo nada e deixo toda a gente dizer, desdizer ou deixar de dizer. Não me cabe a mim ser o corretor das gramáticas das gentes, nem pôr tento na ponta da língua a quem ganhar o juízo é uma tarefa que, em nome das audiências, se vai agendando para mais tarde. 
Façam mas é o favor de continuar o espetáculo. Quem está na plateia não quer que chamem a si mais atenções. 

sábado, 29 de junho de 2013

Diáspora de Dublin XXVII

Cartazes pró-Catalunya lado a lado com Quadros da Catalunya clássica - Barcelona
Vitor Vicente, Setembro de 2012

Existem expatriados a quem o estatuto de expatriado merece ser questionado, senão mesmo posto em cheque. Refiro-me ao tipo de expatriado que se parece a um pedaço evadido de sua pátria.
São pessoas que, por mais anos que passem num país que não aquele onde vieram ao mundo, jamais deixarão de fazer parte da mobília nativa. Pelo simplório motivo de continuarem a comungar uma das  caraterísticas particularmente partilhadas pelos seus compadres. 
A alguns destes expatriados, por mais que se esmerem, nem se coloca a clásica e milenar questão: de onde vim? Basta abrirem a boca e já sai um fio de noodles ou de spaghetti. Outros nem é preciso abrir a boca e já sabemos com que modos, ou falta deles, se sentam à mesa. Há também quem seja traído pela roupa, pelo corte de cabelo - penso em suspensórios ou em riscos ao meio, respetivamente e pouco respeituosamente. Nesta galeria global, sobra ainda espaço para o tipo de expatriado que, quanto mais tenta escamotear a sua condição, mais se aproxima do expatriado escancarado. Sem esquecer, nesta era do cosmopolita de baixo custo, os ingleses e seus descendentes, para quem, em qualquer parte do mundo, o Pub é palco para toda a obra. 
Perante esta panóplia, aqui em Dublin ou noutra cidade qualquer, o que ainda me apraz é encontrar alguém que não renega as suas raízes enquanto, com a mesma naturalidade, colhe conhecimentos e condutas e que os contrapõe às que, até então, tinha vindo a assumir como acertadas e até definitivas. Alguém que se foi fazendo homezinho, sem ter que forçar tiques, nem trejeitos identitários, seja para integrar-se entre expatriados ou no seio dos nativos, seja para afirmar os valores do berço - espetáculo que, aos olhos de gente graúda, bem vivida e bem viajada, se assemelha a uma curiosa quermesse lá das berças. 
Alguém assim é autêntico. Alguém que se sabe assim, pode dar e viver assente na harmonia, na humildade e no humanismo.  

terça-feira, 25 de junho de 2013

Diáspora de Dublin XXVI

Caminho pedonal paralelo ao canal do Portobello, Vitor Vicente, Junho de 2013

Todos os dias ando durante um hora. Meia hora a patear até ao escritório, meia hora a caminhar para casa. Não me canso com isso. Pelo contrário, estou extremamente contente e, não fossem as poucas vezes que chove copiosamente (por estas bandas, em oposição ao que pensam os portugueses, caem frequentemente alguns aguaceiros que quase nunca são dignos de serem chamados de chuva), a juntar ao exercício diário de andarilho, poderia agradecer diariamente a D-us pela oportunidade de cumprir tal caminhada.
Os invejosos, que são praticamente os mesmos que os portugueses que se rejubilam por saber que por cá está a chover, os invejosos acham que estou a ser irónico, que "lá está ele a desconversar, a não falar a sério." Afirmam, do alto da sua solarenga arrogância, que aqui o desgraçado não tem é dinheiro para "pagar o passe" que "lá na Irlanda o transporte é caro, tudo é caríssimo naquela cidade". (Alguns, mais audazes nos dizeres, ainda acrescentam que "Dublin deve ser como Londres. Paga-se cinco libras para percorrer meia dúzia de estações de metro".)
Sem nenhum ressentimento, sem necessidade de me render, reconheço parcial razão aos invejosos. Lá do alto da sua solarenga e cegueta arrogância, eles adivinharam: os transportes são mesmo caros em Dublin. Que tudo seja caro, já é um exagero de quem nunca deu voltas ao mundo senão sentado no sofá enquanto via os périplos dos brancóides no Travel Channel. O que por aqui há é muita coisa que fica aquém do preço que custa.
O que também me custa é que uma pretensa capital como esta tenha transportes terceiro-mundistas. Como se podem construir duas linhas de metro de superfície (subterrâneo, como há em Londres e no Continente, aqui não há)  sem uma paragem comum e assim se obrigue o pobre do passageiro a fazer a conexão pelo próprio pé? Interfaces na Irlanda são inexistentes. De terceiro mundo - ou  devo dizer saídos doutro mundo? - são também a maioria dos médicos. Pobres diabos que, face à displicência dos dubliners com a sua própria saúde, não dedicassem boa parte do seu expediente a serem verdadeiros vendedores de baixas, há muito que teriam ido à falência. (Acreditem: os médicos cobram por consulta, com ou sem baixa por  baixo da mesa, qualquer coisa como cinquenta e tal euros!)
Antes que fiquemos doentes e não tenhamos quem nos acude, deixemos os médicos. Voltemos a apanhar o tema dos tranportes. No caso, podemos apanhar o autocarro e ir até onde aqui o desgraçado trabalha. Só temos que andar dez minutos, esperar um tempo indeterminado pelo dito, desesperar durante, no mínimo, outros quinze para que consigamos atravessar o centro da cidade (quase todos os autocarros vão pelo centro e ficar atascado é aceitável, tão aceitável como haver uma paragem de cem em cem metros,  uma das quais serve de cenário para se aguardar passivamente que um motorista venha substituir o outro) e finalmente chegar à nossa paragem e daí andar os derradeiros dez minutos até ao escritório. Tudo isto somado dá muitas dores de cabeça, de costas e de coluna e de sei lá mais o quê - dá certamente mais da meia-hora que, a penantes, se tarda da porta de casa até à secretária onde um tipo se senta durante sete horas.
Por isso, abençoo e digo: bem-ditos pés, bem-dita terra. Que me permite ir a pé, lado a lado com outras pessoas que não dependem de nada, nem de ninguém, senão dos próprios pés. Pessoas que se podem sentir senhoras do seu nariz. Que podem trabalhar por conta de outrém, ter um horário a honrar. Que podem não ter o o mundo a seus pés. Mas têm a cidade nos seus pés. Uma cidade que se torna sua, só por ter o poder nos seus pés. 

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Diáspora de Dublin XXV


Guinness e Rascunho num bar da Baia de Howth - Dublin, Vitor Vicente, Janeiro de 2012

Chamem-me xamã, chamem-me cabalista, chamem-me o que quiserem, mas para mim o mundo é uma extensão do nosso estado de espírito, um prolongamento daquilo que os ingleses, tão dados à economia, reduzem à palavra mood. A mood, que também se pode traduzir por alma ou ânimo, a mood é que nos mede o mundo. 
Pelo menos, pode medir o quanto de mundo permitimos que nos perturbe. Quanto mais mundanos, mais mandados. Em contrapartida, os autistas são aqueles a quem a mood está ausente de mundo e se sobrepôe às manifestações da mundaniedade.
O mutismo é a manifestação-mor, enquanto manifestação nenhuma, do autismo. Quer dizer, o autismo deliberado. Que, rezam as histórias, era o meu modo de habitar o mundo enquanto animal de berço e em todo e qualquer dos habitats ermos da minha infância. Quem vinha ver-me (sobretudo, quando se tratavam dos vizinhos) e me esperava ouvir falar as palavras que já havia falado, ficava votado a um espetáculo silencioso - e que, quanto mais silencioso, mais ensurdecedor. É que, dizem, do fundo de um berço onde eu me aninhava como no fundo dum poço, eu só abria a boca quando bem me apetecia. Quando muito, abria a boca para sorrir,para me rir das pessoas que me vinham ver e me queriam ouvir falar - para me rir das pessoas com todos os dentes que ainda não tinha na boca. Alguns anos mais tarde, na adolescência, não voltei a falar aos vizinhos e alegava "nunca me terem sido apresentados e conhecer de vista como se conhece o carteiro". Hoje em dia, quando volto a ver os velhos vizinhos cada vez mais velhos, digo bom dia e boa tarde com o mesmo sorriso escarninho que, nos anos idos da infância, recebia, do fundo do poço disfarçado de berço, aqueles que me queriam ver e ouvir falar.
Voltando à adolescência, agora nos avançados da adolescência, em pleno liceu, fluência em idiomas nunca foi o meu forte. Pelo irrefutável facto que implicava falar. A minha glória era mais nas matérias de Filosofia e de História.
Na Faculdade, falei e bebi muito. Mandei tanta gente à fava, meti-me em simpósios com a postura daquele que, à falta de faca ou navalha, simplesmente avacalha. 
Já enquanto expatriado, vi-me em Espanha com um nível de Inglês de trazer por casa e um nível de Portuñol que daria para dar umas direções a algum Paquito perdido no outro lado da Península que não este para onde me mudara. No meu primeiro ano na Catalunya, pouco mais que fiz que apurar o ouvido para distinguir o que era Castelhano do que era Catalão. Trabalho vão - tudo entrou-me por um tímpano e escapou pelo outro. Só mais tarde, ao me darem trabalho no Aeroporto, uma onda de alegria rebentou-me na ponta da língua e ensinou-me Espanhol instantâneo. Meio que por milage, meio que por magia.
O Inglês, desde que estou na Irlanda, ilha que tão bem trata o Inglês em sentido literário e em sentido literal, tem sofrido as oscilações própria de quem, desde que cá chegou, tem se questionado por que cá tem estado. Comecei por andar de língua desenvolta, depois enrolei-a como quem se fecha num casulo. Depressa Dublin, à imagem e semelhança de Barcelona, fez-se trampolim para outras terras. Nessa aero-época, fui especialmente fluente nas vésperas das viagens e nos dias em que se regressa das ditas e em que se continua a estar mais para lá do que para cá. Fluência assim, em que se fala pelos cotovelos e não há dor nos ditos por não nos preocuparmos com os feitos dos outros, só quando sinto que a Ilha Esmeralda fica com feições de Ilha Eterna. Aí falo e aconteço, não falo nem deixo acontecer, e partilho o meu autismo ambulante com o alheio numa aliança tão transbordante de alegria que até consigo conectar o volátil e leve mundo das fantasias e das fábulas com o penoso mundo dos factos e dos fardos.
A mesma fluência que vale para a fala, vale também para escrita. Tendo a escrever mais e - falta-me a modéstia -a escrever melhor, quando estou feliz. Escrever é-me uma espécie de celebração calada. 

sábado, 4 de maio de 2013

Diáspora de Dublin XXIV

Entrada e/ou Saída de St Stephen´s Green - Dublin, Vitor Vicente, Março de 2011

Através da vitrine de um dos poucos bares que não enchem as medidas da palavra Pub (ou devo dizer de um dos poucos pubs que não preenchem os requisitos da palavra Bar?) vejo: um jardim que tanto podia ser aqui como do outro lado do Celtic Sea e a paragem terminal (ou inicial, consoante o caminho de cada um ) de uma espécie de metro de superfície (ou devo dizer elétrico?) cujas linhas não cruzam e obrigam o pobre do passageiro a asseguar as conexões pelo próprio pé.
Pelas ambiguidades listadas no primeiro parágrafo - digo eu, que sou sempre cético - já dá para adivinhar a índole dúbia de Dublin. Digo, e escrevo, do Dandelion, o tal metade Pub, metade Bar (e ainda, nas febris noites de fim de semana, metade Discoteca), que fica em pleno coração da cidade que, de tão campónia e cheia de gente generosa, não pode ser chamado de centro da cidade, nem nos proporcionar o aperto disfarçado de abraço que nos dá a multidão duma metrópole.
Eu cá tenho encontrado espaço. Já lá vão três anos a habitar esta cidade como trampolim para outras cidades, outros mundos. Entre os quais o meu mundo que, tantas e tantas vezes, é feito sentado a uma mesa qualquer, acompanhado de pints que não devem ser chamadas só e simplesmente de cervejas, mas sim - e esse ensinamento colhi aqui -serem tratadas pelo nome próprio.
Não estou propriamente triste. Só consigo entristecer-me até onde o meu temperamento de trevas e de pedras me permite. É apenas a nostalgia da cidade faz-de-conta, do tempo que não dava nada por ninguém, nem ninguém podia prestar-me contas por coisíssima nenhuma. Uma cidade e um tempo que existiram há três anos atrás, quando vim para aqui viver. Que por aqui vivia com a leveza que, há seis anos atrás, por aqui andei de visita.
O truque, anuncio eu, sem saber se estou num Pub ou num Bar, é viver na cidade onde se mora com o ânimo e alma leves de quem vem de visita. Não fosse este mundo pouco mais que um local de visita, que um lugar onde nos deixaram vir dar uma volta. 

sábado, 6 de abril de 2013

Diáspora de Dublin XXIII

Portobello Harbour - Dublin, Vitor Vicente, Maio de 2012

Parece que, por fim, a Primavera chegou. A Portugal, ao velho Continente, e aqui às Ilhas - no pouco que é permitido de Primavera e de espécie de Estio por estas cinzas bandas.
Durante muito tempo, detestei a Primavera. Sobretudo, quando andava na escola, por toda a adolescência fora. É aquele período em que todo o parvo se esfola para obter uma boa nota. E com essa boa nota convencer o stôr a não dar-lhe uma nega que o pudesse comprometer, vulgo chumbar. (Hoje em dia, volvidos todos estes anos, chumbar passou a ser daqueles verbos que me lembram velhos ventos, que, seja em relação à escola, seja em relação a uma ida ao dentista, por  ter caído tão em desuso nos meus dentes, acabei por associar a algo datado e  atribuír requintes de uma qualquer relíquia ridícula. Mas essa, enfim, é outra história). 
Desde que estou em Dublin, e já lá vão quase três anos, que a Primavera passou a ser minha estação preferida. É quando chove menos por cá e os dias são longos, intermináveis que nem o Infinito. Dias lôngevos, como idosos teimosos que, de bengala em punho, sobrevivem a tempestades e enfermidades. Dias luminosos, dias compridos. Dias descomprimidos. Quentes é que nem tanto. São até bastantes os dias que se vestem de um azul que não consigo catalogar de azul escuro ou azul claro. São antes de um azul da côr do frio. 
Como não quero deixar esquecidas as outras estações, passo a um pequeno apontamento que não se prolongorará mais que um parágrafo. O Verão é húmido, tão húmido que nos pode humilhar com uma copiosa chuva a qualquer altura do dia. Mas depressa o dia se recompôe com sol de pouco dura. O Verão Irlandês são as quatro estações do ano a acontecerem em menos de vinte e quatro horas. Já o Inverno é de tez escura, tipo um túnel onde nem a neve Europeia nos acende o nosso lado lúdico mais súbito, nem nos deita a todos debaixo do mesmo impúdico manto branco. O Outono, outrora o meu período preferido do ano,  outrora  a época dos crepúsculos elegantes, degenerou num velho agoirento que, em pleno Agosto, nos anuncia que nos estamos a encaminhar para a escuridão extrema - e que, por nunca termos deixado de  estar às escuras, nem demos por isso. 
No fundo, a nossa preferência é volátil e pode variar consoante assentemos a nossa casa no mundo dos outros. Contudo, os nossos alicerces ambulantes sobrepôem-se a todos os caprichos e actualizações espontâneas do atlas. Sobrepôe-se, sim, só que não parece. Sobrepôe-se, sim, só que nem sempre. Subsistem as vezes que simplesmente sucumbe. 

sábado, 17 de novembro de 2012

Diáspora de Dublin XXII

Centro de Dublin visto do Comboio Sub-Urbano, Vitor Vicente, Janeiro de 2012

Nalgumas casas na Catalunya tinha televisão, noutras não. Nos primórdios de Dublin também não tinha, mas agora o dito aparelho até se arrasta cá por casa. 
Mas vai sempre dar ao mesmo: a televisão condenada ao silêncio, a ser um mero objeto de decoração, ridicularizada, ao nível da jarra.
Às vezes, vejo televisão no ginásio. Tanto agora em Dublin, como antes em Barcelona. Vejo, mas não a ouço. Ouvir, só me ouço a mim, a viajar com o desfile de imagens das cidades onde nasci e onde acabei por vir viver.
Os sentimentos destas viagens são, todavia, completamente difererentes.
Em Barcelona experienciei o deslumbre. Era uma espécie de luz, de segunda infância, por me encontrar a morar num lugar onde a vida acontecia, onde o quotidiano dos outros era parte do mundo. Eu limitava-me a sentir parte duma cidade que, ainda assim, não me podia pertencer. Como uma mulher que, por mais que cortejamos, apenas permite que preenchemos a sua agenda  enquanto mais um mero pretendente.
De Dublin, seja em direto ou em diferido, dá-me um misto de pena e de revolta. Considero esta pequena-grande cidade demasiado parecida com um conto de fadas (incluindo os bairros sociais que, ao contrário do que é comum, estão integrados nos demais bairros) para que a possam passar no grande ecran. A população de Dublin parece-me ainda mais pateta e o verde ofuscante das paisagens dá ideia de se tornar opaco. Como se a capital da Irlanda, assim como toda a ilha, não se levasse suficientemente a sério para ser invadida pelo aparato bélico das câmaras.
Ou talvez seja esta crónica que não mereça seriedade. E mais não consiga transmitir que a minha má relação com a televisão.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Diáspora de Dublin XXI

Late Shop in Rathmines - Dublin, Vitor Vicente, Julho de 2010

Lembro-me de, algures na infindável Internet, ter lido um artigo sobre a actual importância dos restaurantes de kebab na paisagem das cidades europeias. A linhas tantas, recordo ainda, perguntavam: "Que seria das cidades do Velho Continente sem as carnes penduradas dos Restaurante Turcos?".
Dito assim, parece um artigo em prol da entrada da Turquia na União Europeia. Ou, dirão os mais desconfiados, tratar-se-á o autor de um desses europeístas e etnocêntricos que não querem que a Turquia vá mais longe do espaço europeu do que servir-nos à mesa.
Eu cá contento-me com os kekabs na mesa e os turcos longe das portas de Viena. Mas também não boicoto kebabs árabes, nem me arrasto quilómetros até encontrar o congénere israelita.
Também não é minha intenção tomar nesta crónica qualquer posição política. Não há aqui mais tema a pôr na mesa do que a própria mesa.
No caso, a mesa do Zaytoon, um restaurante Persa, onde vim pela primeira vez há coisa de cinco e tal anos atrás, quando ainda morava em Barcelona e estive em Dublin de visita. Na época, acostumado aos kebabs bons e baratos dos Paquistaneses do Raval, amaldiçoei os Persas e achei a refeição um roubo. Hoje, ou desde que moro em Dublin, é rara a semana que não vou ao Zaytoon. Já não o que está no Temple Bar, mas na Camden Street, a rua que, a seguir ao Temple Bar, tem mais bares por metro quadrado na cidade - assim como o melhor restaurante, logo a poucos minutos a pé de minha casa.
O facto do Zaytoon ser o melhor restaurante de kebab cá do sítio e, a situá-lo em Barcelona, arriscar-se-ia a ser o pior de toda a cidade, senão mesmo de toda a Catalunya - isso só abona contra as opções gastronómicas em Dublin. Ao contrário de Portugal, onde há várias ofertas para comer bem, ao contrário dos Portugueses em Dublin  que acham que cá só se come bem em casa, por só em casa se poder comer como em Portugal, desta cidade eu só encontro razão de queixa por se pagar demasiado por uma comida que, seja onde for, sabe quase sempre ao mesmo. 
Não é que as cidades se meçam aos kebabs. Mas os ditos, ao contrário do que por aqui e aí se diz, não sabem sempre ao mesmo. Nem são comida para, a altas horas da noite, se enfardar e atenuar o álcool - até porque são comida tradicional de muito país onde não há bares onde se beba com boca de beber. 
Nem o kebap é fast food, nem a cerveja é a cachaça dos pobres. Ambos podem ser refinados. Mas essa é outra história. Por aqui, vai-se continuar a ter proveito de kebap e cerveja de qualidade. 
Com licença.

sábado, 10 de novembro de 2012

Diáspora de Dublin XX

A Cultura de Pub em Galway, Vitor Vicente, Fevereiro de 2011

Nem à distância, nem de dentro. O ideal é ter passado por isso e agora analisar com a sobranceria altaneira de quem se assume alheado.
A análise, neste caso, é a Dublin. Mais propriamente a Dublin enquanto cidade nocturna. 
Não há grandes diferenças entre a Dublin de dia e a Dublin em modo noite. O único movimento brusco é o que acontece em qualquer cidade, enquanto cai a noite, e uma micro-cidade nasce no seio da própria cidade.
Tal como toda a Irlanda se parece a si própria, a paisagem nocturna só se assemelha a si e a mais nada nem a ninguém. Fenómeno que ocorre na capital, como nas cidades de província cá da ilha.
Os Pubs predominam. Multiplicam-se. Como aqui só se conseguem multiplicar as crianças. De resto, a noite irlandesa já é uma criança crescida e vacinada quando no Continente a noite ainda é uma criança recém-parida. No Verão, ou no pouco de Verão que é permitido ver-se por estas bandas, pode-se sair à noite em plena luz do dia.
Discotecas em Dublin - digo discoteas dignas desse nome, monstros de sete pistas e mil e um néons - nem vê-las. Cabe aos Pubs, em que a música é sempre a mesma todo o ano e de há uns bons anos para cá, transformar-se em discotecas. Um pouco como no Oriente, onde (Rússia incluída) os restaurantes viram karaokes e bares nocturnos.
Deve ser esse o motivo por que, desde que me mudei para Dublin, tanto se me dá o tipo de música. Dou prevalência às pessoas. Às vezes, à falta delas. Assim como à falta de música. Em suma, aprendi a lição de Dublin e, como nesta cidade a noite merece um sinal mais, sempre que saio - divirto-me. Empurrado por uma outra pint, isso é ponto assente.
Tão assente como a homogeneidade de toda a Irlanda. Como boa ilha, a Irlanda limita-se a imitar-se a si mesma. Em nenhuma outra cidade como Dublin é injusto dizer-se que é como comparar a noite ao pé do dia.
Compare quem queira. Compare e, se quiser, me contradiga. Eu cá, ciente de que é Sábado à noite, ficarei entre a cama e o sofá. 

sábado, 20 de outubro de 2012

Diáspora de Dublin XIX


O anoitecer e o amanhecer são a mesma coisa - Reykjavík, Vitor Vicente, Junho de 2011

Tenho trabalhado com tipos de toda a parte do mundo. Desde Nepalenses de metro e meio chamados Dick, passando por Franceses a bocejar vinte e quatro sobre vinte e quatro horas, até Alemães devotos ao dever como Merkel manda. Poucos Irlandeses, por na Irlanda não haver falta de trabalho mas sim  por não haver falta de gente que não quer trabalhar, e também por a maioria dos escritórios por onde passei serem guetos de expatriados. Alguns Espanhóis, alguns Catalães e mais Catalães muito Espanhóis do que Espanhóis muito Catalães. A tudo isto e, tanto em Espanha (digo, na Catalunya) como na Irlanda, se têm intrometido bastantes Italianos, tão dados aos serviços mínimos como os Espanhóis (não digo,  Catalães) e os Irlandeses e nunca tão serviçais quanto os Portugueses na condição de emigrantes.
Um destes Italianos, certa manhã, acompanhado doutro italiano, entrou no Shuttle Bus que, todas as manhãs do mundo, transporta cargas de ensonados (Franceses, Irlandeses e não só) ao East Point, um dos parques empresariais mais arranjadinhos de Dublin, localizado numa das áreas mais desarranjadas da cidade.
Arranjar, lá tive eu que arranjar a carantonha quando o tal Italiano me foi apresentado como um novo colega, pelo seu compatriota e que não era outro Italiano qualquer, mas um dos Managers da empresa. De imediato, nessa manhã nublada, como nubladas tendem a ser todas as manhãs neste lado do mundo, congratulei-o por ser o seu primeiro dia no escritório. Esforcei-me por parecer animado com a nossa rotina laboral, mais para agradar ao Manager (na altura, eu ainda não tinha contrato efetivo) do que para propriamente com o propósito de animar o recém-chegado. 
Passaram-se meses e, já eu pertencia aos quadros da companhia aérea e podia voar ao preço com que a chuva cai em Dublin, quando também o rapaz acabou o chamado período de prova. Logrou atingir os objectivos, recebeu o cartão da empresa e todos os descontos inerentes a ser staff
Depois, pouco depois, descobriu que estava doente. Emagreceu. O estômago nem o deixava comer. Desapareceu.
Vi-o visitar-nos um par de vezes. Queria voltar à empresa. Queria voltar a voar. 
Não voltámos a trocar mais palavras. Ficou-me a manhã em que chegou, pela primeira vez, à empresa. Em que parecia mais um entre tantos, vindos de um dos pigs para o menos pig dos pigs.
Sejamos parte dos pigs ou tomemos alguns países por pigs, ou nem sequer que saibamos que significa essa sigla, somos todos mais um - mesmo. A morte também é mais uma, mas chega para nós todos.   

domingo, 2 de setembro de 2012

Diáspora de Dublin XIX


Representação do Poeta Yeats a falar ao povo irlandês, Vitor Vicente, Maio de 2011

Diz-se que os Domingos são iguais em toda e qualquer cidade. É verdade. São iguais - democratictamente iguais -  por que deixam cada  cidade afirmar a sua diferença.
Digo mais: aos Domingos não há cá deveres senão o descanso. E o descanso é o único período da vida em que podemos ditar e decidir o que fazer da nossa vida e quotidiano, a nosso belo e principesco prazer.
Tédio? Tédio, o tanas! O tédio permite-nos ser do nosso próprio tamanho. Talvez, ao princípio, possa parecer assustador.  Porque poder ser do nosso próprio tamanho é um privilégio, um acto de poder.
Sem que acarrete uma valente carga de trabalhos, voltemos atrás. Aos Domingos as grandes cidades são uma grande merda. Ou então não são grandes cidades. Ou estão condenadas a não conseguirem mostrar o quão grandes são nos dias seguintes.
O inverso passa-se connoco, meros cidadãos e meros constituintes da cadeia alimentar desse monstro chamado civilização. Nós não somos nós, ou, vá lá, pouco mais somos do que uma sombra de nós próprios, de Segunda a Sexta. Podíamos ser qualquer outro, em qualquer outra cidade. Estaremos sempre à mercê dos crocodilos citadinos, como quaisquer fantasmas de fato e gravata. Excepto, ao Domingo. O dia em que podemos preencher de nós próprios, sem ser mediados pelo mundo, onde quer que estejamos. O Domingo é o único dia em que aquele que somos impôe-se ao lugar onde estamos.
É quando nos sobrepômos à cidade. À sociedade insensível que nos espezinha a existência dia após dia e que, estúpida, obriga até a mais cintilante e solitária estrela a esperar pela noite para, por fim, poder brilhar.
Só para terminar. Este texto foi escrito na Diáspora de Dublin. Mas podia ter sido escrito debaixo de qualquer extensão da Diáspora. Desde que o Domingo fosse Domingo como quer o Calendário Cristão. Ou, pelo menos, estivesse eu num país como estou, um país em que ainda me é possível dizer a palavra Não.  

sábado, 11 de agosto de 2012

Diáspora de Dublin XVII


Entrada da minha primeira casa - Dublin, Vitor Vicente, Março de 2011

Já devo ter escrito, algures, que viajar é um ato voyeurista. Quando viajantes, queremos ver a olho nu o que vimos do outro lado do ecrã da televisão ou do computador ou, no caso dos letrados, alguma coisa que lemos nalgum livro.
A vida do dia-a-dia, por mais comezinho que seja o quotidiano, também tem as suas micro-viagens. Nem que seja esse trânsito de ida e volta que cumprimos a caminho do trabalho. Em que do mundo, de tanto sempre parecer tratar-se da mesmíssima e parada paisagem, só trazemos imagens monótonas.
Duranta a semana, é certo, tendemos a andar submersos. Só à Sexta, sobretudo da parte da tarde, subimos à superfície e vemos a vida que há dentro dos pedaços de cidade por onde apenas passámos.
Tente-se ir a pé por paragens antes navegadas ao volante. Ver-se-á tudo grande, gigante, ou, pelo menos, muito maior do que o tamanho aparentado há dois dias atrás. Ver-se-á o nosso reflexo na realidade, o entusiasmo a olhar-se, vaidoso, ao espelho.
Exercício este, garanto-vos, é de levar às estrelas. Não tem efeitos secundários para quem sofra de vertigens com as alturas desta vida e da outra. Nem é preciso correr meio mundo. Basta abrir a porta de casa. 
 

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